Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
Um filme sobre o colaboracionismo do governo de Pétain no extermínio de milhares de judeus -sobretudo mulheres e crianças- durante a ocupação nazi. Nestes filmes o que custa ver é a facilidade e rapidez com que a natureza humana, no seu pior, desabrocha e floresce.
Um filme sobre uma mãe exploradora e abusadora da filha criança, primeiro, e depois adolescente, transforma-a numa modelo pornográfico-erótico, espécie de mulher em corpo de criança. Um filme de Eva Ionesco baseado na sua própria vida. Mãe e filha figuras meio enigmáticas, meio feéricas, desajustadas dos anos mas ajustadas ao contexto duma Paris decadente, no seu ar vintage. Ambivalentes. Elas e a sua relação.
Tudo filmado com muita elegância e teatralidade.

Eva Ionesco em criança
Uma metáfora brilhante dos tempos que correm. O pânico da catástrofe económica anunciada da classe média trabalhadora com a perda das regalias que eram consideradas normais: seguro de saúde, subsídio para umas férias anuais, um ou dois automóveis... tudo destruído num instante, num tsunami... be scared, take shelter.
... é um filme muito bom sobre o desapego e o apego. Passa-se, não por acaso, numa escola mediana.
Quem é professor e, também quem não é, aprende bastante a ver este filme. Os professores facilmente reconhecem a realidade nesta escola e, os outros que o veem, podem ter uma ideia do que são as escolas hoje: com professores que remam contra a maré; com pais absolutamente ausentes das vida dos filhos que só aparecem na escola para ameaçar e bater em professores; com alunos à deriva, vítimas de tudo isto sem o saberem, a precisarem urgentemente de um guia; com diretores exaustos e desmotivados; com assistentes fartos de ouvir os alunos dizerem que não querem nada da vida nem têm expectativas, apenas querem andar por aí; com representantes autárquicos ignorantes que falam em dinheiro e gestão e números; com uma sociedade demissionária das suas responsabilidades que alimenta os jovens com violência, pornografia, superficialidades e conversas de prazer e felicidade ao virar da esquina e que pensa a escola como um laboratório 'behaviorista' onde se emendam todos os erros e disparates que os alunos trazem dos agentes de socialização exteriores à escola : os alunos são 'coisas' cheias de botões, os professores carregam nos botões dos alunos e estes, quais autómatos, transformam-se milagrosamente em jovens responsáveis, curiosos, assertivos, profundos, trabalhadores...
No filme, vemos a realidade pelos olhos dum professor substituto (o Adrien Brody), por um mês, que pensava poder viver desapegado de tudo para não se magoar. Daí ser um professor substituto: nunca está muito tempo numa escola, não tem que ensinar, só tem que 'entreter' os alunos até que o professor permanente chegue.
O filme, visualmente é lindo. Muito intimista, à maneira dos filmes do Woody Allen. Mostra a perplexidade e o mistério da vida e o modo como a atravessamos. O olhar que temos das coisas, das pessoas e da vida.
Passa-se em Paris com um casal em vésperas de casar. Ela e os pais vêem de Paris a luz do dia, as lojas, a cultura oficial, etc., ele vê o mistério da noite e a alma da cidade nas pessoas que por ela passaram. Mais do que ver, ele partilha os sentimentos e a vida de todos os artistas que lá viveram. Enquanto ela anda com um amigo que lá encontra, um tipo pedante que sabe tudo de Paris mas não sente nada e não se transforma com as coisas ele vibra com tudo e transforma-se nessa vivência.
O actor principal imita o Woody Allen nos modos de falar, nos gestos e nos trejeitos. Muito engraçado. Só acho pena que o Woody Allen tenha sentido a necessidade de, quase no fim do filme, muito à maneira dos americanos, explicar o filme: dizer que o passado não está morto nem ultrapassado, mas vivo e presente, nas coisas e nas pessoas.
Depois, o filme é muito bonito: tem 'frames' impressionistas fabulosos e como parte do filme se passa na década de vinte é acompanhado da música dessa 'golden era' que eu absolutamente adoro: Cole Porter e outros...
Gostei imenso do filme. Eu chamei a este blog IP porque sempre senti que há uma Irmandade de Pensamento entre os grandes vultos da História que se compreendem uns aos outros como se fossem uma comunidade contemporânea e gosto de fazer parte dessa irmandade como leitora. Os clássicos e os menos clássicos de outras eras são, na realidade, presentes e em nada estão ultrapassados. Pelo contrário, têm uma característica de supra-temporalidade, talvez por terem apanhado algo da verdade da vida e uma pessoa quando viaja, por exemplo, se tem um bocadinho de imaginação sente a viva presença deles nos sítios e vê o que deles há em nós e é mais influenciada por esses grandes pensadores e artistas que por aqueles que se sentam ao nosso lado ou nos entram pela casa adentro na TV.
Enfim, um filme à Woody Allen, despretensioso mas incisivo. Como uma pintura que apanha alguém num dado momento numa situação específica de vida e reflecte sobre ela. Como ele diz no filme, a vida é, sobretudo, muito misteriosa.
Estive a ver o filme 'Carlos' que retrata a vida do famoso terrorista. Um filme secante e sem interesse nenhum, a meu ver. Não se aprende nada. É o que sabíamos: uma vida triste e estúpida sem nada de construtivo. Às vezes ainda acontece esses filmes surpreenderem por não termos uma imgética mental a acompanhar as informações que temos das coisas. Mas não é o caso. Vida de terrorista é uma vida triste e de falso sentido.
O que poríamos na lápide deste Carlos? 'Aqui jaz um indíviduo que matou, coagiu e aterrorizou muita gente'...
Há pessoas que acrescentam: vida, humanidade, ideias, caminhos de felicidade, caminhos de convivência, modos de estar, princípios evolutivos, etc., outras diminuem algumas daquelas coisas ou, todas, mesmo.
Deixa ver o que poríamos na lápide do Socas? 'Aqui jaz um homem que teve imenso poder e o usou com vaidade e sem ética, enriquecendo os amigos e empobrecendo o seu próprio país. Triste, não?
Estive a ver este filme. Intenso. Muito interessante esta questão à volta dos exorcismos. Geralmente é posta em dicotomia: ou acreditamos na narrativa da Psiquiatria e classificamos essas pessoas como esquizofrénicas ou acreditamos na narrativa da Igreja e clessificamo-las como possuídas pelo demónio, apesar de existirem outras hipóteses alternativas que nunca são consideradas. Mas, o que acho interessante é que estas duas, quando postas em confronto directo, equivalem-se.
Há um filme, também baseado num caso real, como este, que eu só não passo nas aulas quando dou a Argumentação porque o filme impressiona imenso e tenho receio de haver alunos a ficarem francamente perturbados. Chama-se O Exorcisno de Emily Rose, que na realidade se passou com um rapaz e não uma rapariga. O caso é muito interessante porque foi a tribunal e existem as actas de todo o processo, com as descrições, gravações, testemunhos, etc. Metade do filme, portanto, passa-se dentro do tribunal e consiste no confronto argumentativo entre a visão da Psicologia/Psiquiatria e da Igreja já que uma foi quem fez queixa da outra para poder tomar conta do caso. O interessante é que a argumentação da ciência não é mais convincente, esclarecedora ou coerente que a da Igreja. Porque nestas coisas usamos o critério do Kuhn para ajuízar do poder explicativo dum paradigma, logo do seu valor de verdade: tem que explicar melhor que o anterior, resolver as questões que o anterior não resolvia e ter valor operacional para o futuro. Ora a explicação da Psiquiatria está longe de preencher um sequer desses requisitos.
Este filme também tem uma espécie de argumentação mas de ordem diferente. É muito interessante. Deixa-nos a pensar na questão da existência do Mal e na questão fascinante das possibilidades imensas da mente humana.
(roubado do blog Farpas) - bestial
Vi nele mais que um filme de acção ou um filme de amor, apesar do trailer o mostrar como tal: um indivíduo casado e com um filho vê a mulher ser presa e acusada de um crime. Acredita na inocência dela e depois de esgotar os recursos legais vai tirá-la da cadeia.
O filme lida com a normalização social. Vivemos numa sociedade que educa para a aceitação incondicional do critério da racionalização científica estendido a todas as áreas da vida. Neste caso, a mulher é presa porque um conjunto de provas aponta para ela e porque a racionalidade do sistema legal impede que se apresentem provas duas vezes com base em estatísticas de improbabilidade de as provas iniciais estarem erradas. As pessoas são 'casos', estatísticos e conformam-se com isso.
A questão que transparece no filme é essa: o que acontece com tudo o que não cabe na esfera da racionalidade científica? Deve ser descartado? Toda a vida -emocional, estética, etc.- deve estar sob o domínio da racionalidade científica e dos sistemas que ela criou ao ponto da pessoa negar-se a si mesma e às suas convicções e levar uma não-vida? Quer dizer, as regras são mais importantes que as pessoas ou as pessoas têm que ser mais importantes que as regras?
No caso do filme, acontece que ele acredita convictamente e sem uma ponta de dúvida na inocência da mulher, de modo que o problema que se põe a si próprio é o seguinte: se aceito a conclusão do sistema contra tudo o que acredito, que espécie de vida é a minha daqui para a frente? Uma vida de negação e desespero, não porque a pessoa que gosto cometeu um crime, mas porque sei no meu íntimo que ela não o cometeu, e resigno-me a continuar como se nada fosse.
O filme põe as coisas num caso extremo porque na arte é assim que as coisas se fazem para gerar desconforto e com isso provocar o pensamento. Mas podemos ver a pressão e o conformismo que os sistemas paradigmáticos exercem em muitas situações de vida. Por exemplo, nas escolas, nestes últimos anos, temos visto pessoas negarem-se a si próprias numa atitude de conformismo que vai contra tudo o que acreditam. Depois citam números e estatísticas...mas a questão é que só temos uma vida. Já basta que quando morrermos toda a gente passe por cima de nós e nos pise. Enquanto vivemos podemos escolher estar de pé. É isso que vejo neste filme.
Hoje estive a ver (a rever) este filme do Alfred Hitchcock, Rebecca (1940). O filme é ainda fresco, quer dizer, não perdeu nada com a idade, o que se deve, sem dúvida, ao trabalho brilhante do realizador -o filme tem cenas de uma angústia e de um suspense que sentimos como se tivéssemos parte na história- e dos actores: o Lawrence Olivier (que cria um Max de Winter, sofisticado, mas atormentado), a Joan Fontaine (brilhante, a criar uma personagem ao mesmo tempo encantadora de inocência e vulnerabilidade e consistente na coragem e na fé em ambos) e a Judith Anderson a criar uma Mrs. Danvers fanática, cruel e vingativa. O facto do filme ser a preto e branco dá-lhe uma intensidade dramática que o adensa nos recortes sombrios das personagens e dos sítios. Muito bonito, o filme.
Estive a ver este filme sobre um casal que perde um filho num acidente mesmo à porta de casa e que tenta sobreviver depois disso. Descem até ao inferno, cada um à sua maneira, para tentar recuperá-lo (como no mito de Orfeu e Euridíce), e voltam sem respostas (porque não as há...), mas com o amor que há entre eles. O filme é bonito.
Estive a ver este filme. Passado na Alemanha nazi acompanha a vida e escolhas de um homem à medida que os nazis vão tomando o poder. Como evolui (in-volui, melhor dizendo) de um professor de literatura, um homem sério, aparentemente íntegro e dedicado à família para um SS. Como atraiçoa o seu melhor amigo e como se apercebe de tudo já demasiado tarde pelo facto de gostar das indulgências que vêm com o poder, o dinheiro, o status. Vamos acompanhando a sua degradação moral e as racionalizações que faz para evitar ver-se naquilo que se tornou.
Vemos este processo repetidamente em muitas pessoas e circunstâncias da vida, salvo as devidas distâncias, claro. Vemos pessoas atraiçoarem-se a si e aos amigos por cargos, poder, dinheiro, fama...triste espectáculo.
Hoje abri um jornal, na net e vejo um grande título: uma entrevista a Júlia Pinheiro em que ela diz que não tem nada a ver com os programas que faz e que se pudesse fazia coisas de outra ordem. 'Se pudesse'? Como assim? Poder, pode, é só dizer 'não, não quero'...mas tinha, talvez, de prescindir dasfortunas que ganha e da fama e tal...pois. Esta semana também a Amazon.com justificava ter à venda um Guia Para Pedófilos molestarem crianças sem serem apanhados pela polícia com o argumento da liberdade de expressão...quer dizer, querem lucrar compactuando com os criminosos mas sem que isso belisque a sua reputação de respeitabilidade. é exactamente o caso do filme: alguém que quer gozar a vida com o que ela tem de bom; para isso compactua com o que sabe ser mal; mas esforça-se para não ter que sujar as mãos e para que isso não belisque a sua respeitabilidade.
Ontem fui ver este filme sobre um homem que perde a mulher e fica sozinho com o filho pequeno e depois com o outro filho de um primeiro casamento. O que é interessante no filme é que o indivíduo, que era um pai muito ausente, tem de aprender a ser uma figura maternante, e fá-lo à sua maneira, que é uma maneira pouco ortodoxa ou estruturada, do ponto de vista do que normalmente se pensa que deve ser uma família e a educação de filhos. O filme mostra que há vários estilos de parentalidade. Não há uma única maneira de ser mãe ou pai, melhor, não há uma maneira certa de se ser mãe/pai. No aparente caos que é a vida daquela família desde que a mãe morreu, há regras, há civilidade, há partilha e há amor.
O filme é muito bonito. A fotografia é linda. Toda filmada (na Austrália) de modo que estamos sempre perante imagens de horizontes alargados, enormes, o que está perfeitamente de acordo com o espírito do filme.
Não consegui ir ver o filme do João Botelho sobre o Livro do Desassossego e vou tentar vê-lo numa das outras cidades a que vai. Hoje conversava sobre isso com a Cecília. Fiquei um bocado chateada porque queria muito vê-lo. Depois vi nos media algumas pessoas que saíam do filme e a quem perguntavam o que tinham achado. Ouvi coisas do género, gostei imenso, imenso, de tudo, dos actores, das cores, olhe gostei mesmo, foi uma experiência óptima... enfim, coisas deste género ditas por pessoas que foram ver o filme por ser um evento social e quererem ser vistas ou associadas a certos eventos culturais.
É certo que cada um vai ver o que quer com as motivações que quer, mas fiquei a pensar que podia ter feito um negócio do género, alguém tem acesso a bilhetes e aparece no princípio do evento e mostra-se para a imprensa e tal, e depois quando as luzes se apagam desliza para qualquer lado e deixa-me ver o filme; no fim, antes de as luzes se acenderem, eu deslizo dali para fora e a pessoa volta ao lugar. Eu até me ofereço para dizer meia dúzia de frases sobre o filme que a pessoa possa utilizar com os media de modo a não fazer aquela figura de se topar à légua que, ou não se interessou nada pelo evento ou algo assim...
Era um negócio em que ambos lucrávamos, eu que via o filme e a pessoa que aparecia e depois até dizia umas cenas sobre o assunto. É claro que isto só interessaria aquelas pessoas que frequentam estas coisas só mesmo para aparecerem e darem ar de serem muito culturais. Não sei porquê mas dá-me ideia que são a maioria...
Acho que tenho aqui uma oportunidade negócio, não? Vejo grande potencial nisto. Como as coisas estão na educação qualquer dia ninguém é capaz de construir três sentenças coerentes em sequência quanto mais ter um ponto de vista crítico sobre filmes ou peças de teatros ou música ou arte em geral.
... to my immortal beloved, my angel, my other self
O discurso dele que começa no minuto 6.20 é demais! LOL
Um filme belo de Bronwen Hughes. Não é um filme sobre crianças apenas para crianças. É um filme para adultos também. É um filme sobre a vida, a verdade, a beleza, a fidelidade a si próprio, a importância dos amigos. O filme é lindo.
A Rosie O'Donnell, que faz o papel de Golly, a ama de Harriet, mostra na perfeição o papel inestimável de um educador no desenvolvimento e vida de uma criança. O filme é lindo.
Esta cena sintetiza em duas linhas de um poema de Keats e na conversa entre Harriet e Golly as coisas importantes da vida humana e ilustra um daqueles momentos da vida de uma pessoa em que se resolve e ultrapassa uma crise - um momento de crescimento interior. Belo, muito belo.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.