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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
Hoje vi uma entrevista no canal Euronews ao estilista Jean-Paul Gaultier. A entrevistadora, muito agressiva -achei- perguntou-lhe, a certa altura, se não achava que fazer tops para as mulheres em renda era torná-las objectos sexuais e dar azo a que os homens pensem que estão a querer provocá-los... Ele respondeu-lhe que quando apareceram as mini-saias diziam que as mulheres que as usavam eram prostitutas a provocar homens... a entrevistadora interrompeu-o várias vezes sem cerimónia. A certa altura perguntou-lhe se o problema da moda não estava em os estilistas serem todos indivíduos de 70 anos com visões conservadoras e já sem estamina para inovar...???!!!
Fez-me lembrar alguns iluminados que dizem que se devem subsituir os professores mais velhos porque concerteza são eles que, por serem conservadores e velhos se tornaram preguiçosos e incapazes de acompanhar os tempos...
Mas o que é que a mentalidade tem a ver com o conservadorismo? Tenho alunos que são muito mais conservadores e quadrados que eu alguma vez fui ou serei.
Por essa ordem de ideias estes modelos aqui em baixo estão vestidos de modo a serem objectos sexuais e não devemos ter respeito por eles?

J-P Gaultier
Roccobarroco (ainda é mais velho)
O presidente do Conselho dos Institutos Politécnicos, Joaquim Mourato, considerou hoje que as críticas do ministro Nuno Crato ao sistema de formação das Escolas Superiores de Educação revelam "desconhecimento e grande desconfiança" na Agência de Avaliação e Acreditação.
Esteve dormindo 100 anos e agora acordou para a realidade e apercebeu-se que o ministro desconfia deles...
Entretanto o ministro jura que não disse o que disse, que o que disse foi uma maneira de dizer, apenas, mas que não queria dizer o que disse e, efectivamente, não o disse, sendo que, quem diz que ele disse, não percebeu que o que disse, não disse!
Entrevista muito boa sobre a ordem económica, política e socia,l em que estamos, o futuro e, as mudanças necessárias e urgentes.
A troika é mais responsável pelas falhas que o governo?
A troika tem mais responsabilidades. Pela posição que ocupa, por estar do lado dos credores, por ter o poder de impor. Se o Parlamento Europeu fizer o inquérito à forma como a troika desempenhou as suas funções e se quiser ouvir os parceiros sociais, o CES tem provas documentais de tudo o que disse. Sei que o Parlamento Europeu não brinca em serviço, porque passei por lá cinco anos. Nenhuma entidade patronal tinha a reforma laboral como prioridade, só a troika. E queria a reforma laboral muito mais agressiva, com salários mais baixos. A lógica da troika era fazer disto uma Ásia. Os parceiros sociais opuseram-se desde o princípio a isto, começou logo por aqui a luta inicial. (Silva Peneda)
Aqui o sul seria a Ásia da Europa: salários miseráveis, viver ao nível da subsistência, produzir em massa, caladinhos, para os países do norte, que aproveitariam para viver bem e ricos. Depois, vinham aqui passar férias baratas ou, etá, comprar casa para viver durante a reforma num sítio com sol, barato. Os servos do norte da Europa. E, o pior, é que os nossos governos embarcaram nisso sem estratégias de resistência. Até nos venderam esse discurso do, 'temos que obedecer à troika caladinhos e agradecidos pelo dinheirinho'.
... desta crise de rapaces internacionais: o dinheiro para a cultura é o primeiro a ir-se. A Companhia de Ópera de Nova Iorque, que fez 70 anos este ano, fechou as portas por razão de insolvência. Que pena... Uma companhia considerada pelo La Guardia como, 'A Ópera do Povo' porque vendia bilhetes a preços acessíveis e dava oportunidade de palco a jovens desconhecidos, como o Plácido Domingo, por exemplo. Por todo o lado as companhias de ópera lutam com dificuldades.
Tenho saudades de ir à ópera ver um espectáculo de grande nível, daqueles que deixam uma impressão de encantamento por anos a fio. Já tive a sorte de ver alguns desses mas em Portugal, se já antes era difícil, agora então... Estes tipos que vão para os cargos para se governarem a si e aos amigos fazem muito mais mal que que se vê porque interrompem processos de melhoria que por vezes nunca mais voltam a reemergir.
"Los políticos que nos quierem arrebatar la cultura son criminales"
Realmente enfadado por la política de recortes, indignidado por las dificuldades de conseguir una visa para viajar com passaporte indio, o director de orquesta Zubin Mehta parece un volcán
Se quejaba usted, como la mayoría de sus colegas, de que en la época de Berlusconi, su Gobierno iba a acabar con la cultura. Ponían de ejemplo a España. Ahora estamos en las mismas. ¿O ve diferencia? ¿Qué pasa? Cuando hablamos de cultura, nos referimos a algo que probablemente comenzara con fuerza en estos dos países; Alemania y otros lugares lo desarrollaron después. ¿Por qué los políticos de turno se empeñan en matar la cultura que empezó en sus lugares de origen? ¿Por qué? ¿Por qué no miran hacia el futuro, el de sus nietos, para que ellos puedan apreciar en el mismo grado la riqueza de sus museos, de sus teatros? Mire las universidades, cómo se largan los estudiantes. La educación, la cultura debe ser una prioridad. Y cuando se lo dices, todos parecen de acuerdo, ¡pero no hacen nada! Una respuesta puede ser el mecenazgo, la fuerza de Estados Unidos recae ahí. Por eso hay museos de allí en sitios perdidos que pueden competir con la galería de los Uffizi o el Louvre.
Desde los 18 años fuera de su país, ¿cuánto queda de indio en usted? El 100%. Conservo mi religión y mi pasaporte. No puedo tener otra nacionalidad, ni la necesito, aunque me haría bien por los visados. Por ejemplo, no puedo viajar a Reino Unido ahora mismo. No tengo visa.
¿Cómo? Me lleva un mes conseguir una y estoy tan harto que ya no me da la gana. Me hacen rellenar 25 páginas en Internet, preguntas tan absurdas como: ¿qué parte de sus ingresos dedica a su esposa? ¿Sabe lo que les respondo?: ¡el 100%! Luego me fui a mi cita, al consulado británico en Múnich, y me trataron tan mal que me largué.
Usted, en la generación de directores precedente a las más jóvenes, rompió una barrera: la de que los músicos de Asia dominaran un terreno meramente occidental. La generación pujante ahora, los Lang Lang, los Dudamel, también son ajenos a lo occidental, pero se han convertido en su esperanza. ¿Qué opina? ¿Qué les recomienda? No existen nacionalidades en la música ni en la cultura. Son muy obtusos quienes opinan en esos términos.
Pongámonos utópicos. Qué bonito sería un mundo sin esas fronteras. Tan bonito como horrible sería un mundo sin música. Imagíneselo. Imagínese que durante una noche no se diera ningún concierto en el mundo. Sería espantoso. No podríamos vivir sin eso, y quienes nos lo quieren arrebatar son criminales y ya está.
¿Quiénes? ¡Los políticos! ¡Necesitamos dinero para que esta orquesta vuelva a tener 96 músicos! ¡Lo necesitamos!
¿Sigue siendo idealista? No puedo evitarlo. Necesito serlo. Si no soñamos, ¿cómo funcionaría esto? Para ser realistas hay que soñar. No podemos dejar de hacerlo. Le voy a dar algunos ejemplos. Uno. Me encantaría llevar a la Filarmónica de Israel a El Cairo, a Ammán. Ahora es difícil, no lo hicimos en tiempos menos convulsos. Lo propuse en su día ante los Gobiernos, que fuéramos como un gesto cuando estábamos en paz. No había manera. Eran incapaces de verlo.

As Jürgen Habermas’ new book "The Crisis of the European Union: A Response" arrived at bookstores, The Global Journal asked Francis Fukuyama to interview the German philosopher, one of the most influential thinkers of our time. In a highly relevant and exclusive discussion, Professor Fukuyama and Professor Habermas articulate Europe’s most pressing issues, such as the building of a more integrated political Europe, its democratic foundations, the role of its citizens and Europe’s future. This unique interview also leads to global governance issues; Europe is still a promising laboratory for ideas on new political orders.
Esta entrevista do Dali é extraordinária em vários aspectos. O primeiro e mais evidente de todos é a incompatibilidade de linguagens entre o materialismo do senso comum e o simbolismo da arte.
O entrevistador, que passa o tempo com um cigarro na mão porque o programa é patrocinado por uma marca de cigarros, mostra-se, durante toda a entrevista como o típico indivíduo que vive imerso no mundo mecanizado sem imaginação. Dali mostra-se como o que é: um artista que, cheio de imaginação, fala numa meta-linguagem, a dos símbolos.
O entrevistador pergunta-lhe porque andou a passear num carro cheio de couves-flôr e ele explica que descobriu o algoritmo matemático (fractal) na espiral da couve-flôr e portanto, subentende-se, a couve-flòr, como todos os objectos, pode ser vista para além da sua dimensão comum, de vegetal e ele quis mostrar isso. O entrevistador não percebe...
Dali explica que muitas das suas pinturas, sendo simbólicas, são um outro aspecto do real, como por exemplo, a pintura dos relógios, em 'A Persistência da Memória', não rígidos, como normalmente vemos o tempo, medido em minutos e segundos, mas fluídos e, explica que segundo a física nuclear a visão dele foi antecipadora pois o conceito de espaço-tempo é flexível e subjectivo. O entrevistador não percebe...
Dali explica que todo o pintor pinta a sua cosmogonia embora imersa no tempo em que vive: daí que pinte no contexto da física nuclear e do Freud. Diz-lhe que o mundo é feio porque é erótico (carnal) e nesse sentido a morte é bela, porque sublime. Também não percebe... o entrevistador adopta um tom meio complacente, como se estivesse a falar com um maluco que não tem o juízo todo. Pergunta-lhe se sabe quem é o presidente ou o primeiro ministro de Inglaterra...
Dali mostra, na sua contradição e totalidade, a estranheza da arte, a estranheza do génio criativo para o homem comum. É esse o destino do artista: ser incompreendido pelo mundo erótico, como lhe chama Dali. Para uns só existe a matéria, para outros, tudo é símbolo e a realidade é o que vemos nela.
O que choca nesta entrevista é vermos a posição de superioridade condescendente que o entrevistador adopta face a Dali. Para o homem comum todas as pessoas lhe são iguais e a diferença só pode ser loucura.
(excertos)
António Coimbra de Matos, psicanalista:
Foi um dos primeiros terapeutas a fazer análise em Portugal. Aos 80 anos, continua a trabalhar dez horas por dia. António Coimbra de Matos, decano dos psicanalistas, é um otimista nato.
E como é que isso se traduz nas nossas vidas? Temos três emoções inibitórias: medo, culpa e vergonha. Sou ainda do tempo em que as depressões na adolescência tinham, quase sempre, origem na culpabilidade. Hoje as depressões estão associadas a questões que se relacionam com sucesso e competência. O que nos move agora é o êxito e o medo de falhar. Nas sociedades de sucesso, a vergonha substituiu a culpa.
Do ponto de vista da psicanálise o que é inato em nós? Há coisas genéticas e determinantes. Por exemplo, as questões do bem-estar e do prazer têm uma tradução neurológica no sistema cerebral. As pessoas mais ligadas ao prazer imediato funcionam mais no sistema límbico, que é uma parte do córtex mais antigo. As mais focadas na ideia do bem-estar e capacidade de espera, funcionam sobretudo no córtex frontal. A maioria dos nossos genes determina tendências que se desenvolvem, ou não, de acordo com o que se encontra no meio ambiente
Pode-se então dizer que o prazer também se associa ao êxito na medida em que é uma recompensa? É um pouco diferente. Na realização do êxito há uma determinada fasquia que obriga a sermos bons. Neste sentido há uma grande desvalorização do prazer. Quando dou uma conferência não me perguntam se tive prazer em realizá-la. Perguntam-me se tive êxito. Mas ainda a propósito destas questões relacionadas com as sociedades de consumo e do prazer: penso que hoje há uma tendência para a procura dos prazeres imediatos e uma certa dificuldade em acertar com o tempo de espera.
Tudo tem de ser 'aqui e agora'? A tal incapacidade de aguentar a frustração? Dificuldade de tolerar a frustração, talvez. Mas neste ponto, tenho uma opinião um pouco diferente da maior parte dos autores.
Um século depois de Freud, qual é o modelo de psicanálise que hoje se pratica? Varia muito. A maioria dos psicanalistas continua a praticar o modelo clássico, são bastante ortodoxos. Mas há um grupo mais contemporâneo, e bastante mais pequeno, que pensa a psicanálise de outra maneira e ao qual eu pertenço.
E como a pensa? Como em qualquer ciência, tudo deve ser baseado em provas. Portanto as teorias que existem são provisórias ou falsas. Como em qualquer mistério científico, o que procuramos são as causas e encontrar solução para essas causas. A base clínica é a observação.
Mas a matéria que compõe o nosso sentir e o nosso pensar não pode ser observada em laboratório. Pois não.
Com que ferramentas trabalha? A realidade é o próprio doente, trabalho com aquilo que sente. Na psicanálise clássica, avançava-se com toda uma teoria que comprovasse os sintomas. Agora, há um novo paradigma, em que se entende que o processo de psicanálise é um processo que induz mudança. Este movimento tem origem num grupo de psicanalistas de Boston, com o qual eu me identifico. Baseia-se na ideia de que um indivíduo, perante as vivências que teve - não só na infância, mas também na adolescência -, adquiriu uma determinada personalidade ou um determinado estilo de relação menos saudável e menos produtivo para si. O processo de análise consiste em ir interpretando este estilo no sentido de resolver e de estabelecer uma relação mais saudável, de forma a que possa traduzir o que se passa no consultório para a sua vida real.
Desamparo, outra expressão muito usada pelos terapeutas. Em que difere de abandono? Desamparo é abandono físico. O mais grave é o abandono afetivo. "A minha mãe está presente, mas está a fazer o doutoramento, tem um novo amigo, etc., e não me liga a ponta de um corno...". O abandono é a grande causa de depressão, e morde muito mais do que o desamparo.
O que aprendeu sobre a condição humana? Da minha experiência podia dizer que há uma coisa muito desagradável sobre a condição humana: somos uns animais muito agressivos. Mas também penso que somos animais extremamente solidários. Se formos capazes de fazer sobressair essa parte nas pessoas, conseguimos fazer coisas úteis uns pelos outros. A maior parte das vezes essa agressividade não é nem inata nem espontânea. É reativa e revela muita dor e sofrimento. Todas as pessoas têm lados positivos e muitas vezes não o sabem encontrar e nós também temos dificuldade em os desenvolver. É disso que temos de ir à procura. Na técnica psicanalítica que pratico e que ensino é que nunca ando atrás do que as pessoas têm de negativo. Procuro o que as pessoas têm de mais saudável.
Qual é a palavra mais adequada para aquilo que faz? Os médicos costumam dizer que não tratam doenças, tratam doentes. Digo que nós, os psicanalistas, vamos mais longe, conversamos com as pessoas. Ajudamo-las a conhecerem-se um pouco melhor para encontrarem o seu caminho.
Publicado na Revista Única do Expresso de 31 de Julho de 2010 Ler todo o artigo
Não há ali uma única palavra/ideia sobre educação. Há demagogia e engano sobre autonomias impossíveis neste sistema de gestão e alguma conversa género Alçada, 'é preciso poupar mas agora é que todos vamos ser excelentes'... desilusão.
A entrevista de Luis Capucha, director da Agência Nacional para a Qualificação, ao P sobre o programa das Novas Oportunidades é vergonhosa. Fala em avaliação externa, que sabemos consiste em perguntar aos que lá se formaram se estão contentes...lol. Diz que graças a ele o panorama escolar já está a mudar!!! Pois está! Esse é um grande problema porque ele assume que não há necessidade de aprender, basta cumprir procedimentos e mostrar experiência de vida...Dá como exemplo autarcas com o sexto ano (não admira que o país esteja como está...) saberem muito mais que alunos com o 12' ano, confundindo conhecimentos especializados e sistematizados com esperteza e experiência de vida.
Uma pessoa lê entrevista e compreende muita da mediocridade da educação neste país. Tem a orientá-la gente, ou medíocre, ou pouco séria...
Há uma ruptura com a lógica de disciplinas, das metodologias de ensino e aprendizagem para uma lógica mais abrangente de evidenciar o que o adulto sabe e integrar a sua experiência. Um autarca com o 6.º ano não tem experiência e competências que lhe permita terminar o secundário? Não tem mais do que um jovem de 18 anos que conclui o secundário? Não vou preocupar-me com o tempo que as pessoas levam a adquirir um certificado. Eu preocupo-me se o mecanismo da avaliação está a ser cumprido com rigor. Quem passar pela INO tem que passar por todos os saberes. Os nossos alunos têm que demonstrar competências.
Que atraso de vida! Há uma ruptura com a lógica de disciplinas, das metodologias de ensino e aprendizagem!!! O que ele está a dizer é que não há ensino! Mas o pessoal gosta. Os autarcas já não se envergonham de continuar nos cargos com a quarta classe antiga. Já podem apresentar um diploma! Como certos pseudo-egenheiros e Varas... a lógica é exactamente a mesma. E essa coisa do tempo que levam a obter um certificado parece-lhe uma minudência mesquinha. Ficamos a pensar, sabendo que o próprio passou de operário a professor universitário, qual terá sido o seu percurso académico?
Este é da mesma escola que a Lurdes Rodrigues, que de resto, apadrinhou esta ideia. Tudo o que essa mulher fez tem resultado em desgraça, catástrofe e retrocesso, mas continuam a apostar nas ideias e nas pessoas dela...
Como se pode ter esperança na educação neste país se são estas as pessoas que andam nos lemes...
...embora falte aqui uma outra (talvez a maior) causa para este descalabro: a corrupção generalizada com desvios de dinheiros públicos.
Entrevista a Silva Peneda i
Esta crise em Portugal resulta de três factores e normalmente só se fala de um. Houve aqui uma consequência da crise internacional, mas também há uma componente nacional. A partir de 1995, após a adesão ao euro, as taxas de juro eram muito baixas e favoreceu-se muito uma política de aumento de consumo das famílias, dos bancos e das empresas quando devia ter sido o contrário, uma política mais de contracção. Nessa altura não se fizeram as reformas necessárias e portanto estamos a pagar hoje a factura dessa política. E a terceira causa tem a ver com as instituições europeias, com a forma como funcionam. A par do euro não há mais nada, não há uma política económica europeia, não há uma política financeira europeia, não há uma política industrial europeia. Enfim, existe uma moeda única mas depois não existe um conjunto de instrumentos que seriam fundamentais para evitar este tipo de consequências.
Numa época de austeridade como se estimula o crescimento da economia?
Precisamos urgentemente de um programa de competitividade focado nos factores mais decisivos e que tenha em consideração as especificidades territoriais. O país é pequeno, mas não é todo igual. O Norte não é igual ao Centro nem ao Alentejo ou ao Algarve. Uma ideia que defendo há muito tempo é um programa de médio prazo que tem a ver com a desconcentração de serviços de Lisboa para as cidades médias. Numa época em que as tecnologias de informação se desenvolveram de tal modo, nada justifica que todos os serviços da administração central estejam localizados em Lisboa. Há que fazer a reforma da administração pública e deslocalizar serviços. Não encontro razões nenhumas para que o Instituto Nacional de Estatística esteja em Lisboa, ou o Tribunal Constitucional, ou as inspecções-gerais e os institutos públicos. A razão é a inércia.
Henrique Neto tem 74 anos e é militante do PS há cerca de 20. Mas é também um empresário da Marinha Grande, tendo criado a Iberomoldes em 1975, uma exportadora de moldes, de componentes para automóveis e de engenharia de produtos.
Em entrevista ao PÚBLICO, voltou a não poupar críticas às políticas económicas deste Governo. Diz que só os estadistas sabem ouvir os "críticos" e acrescenta que o chefe de governo utilizou um optimismo "bacoco e inconsciente" para esconder os problemas.
Desde o Governo de António Guterres, tem participado nos congressos do PS apresentando moções críticas para as políticas na área económica, por as considerar desajustadas das necessidades do país. Como vê a actual situação?
Com grande preocupação. Como português que gosta muito do seu país, não posso deixar de lamentar as oportunidades perdidas e os erros cometidos. Infelizmente, os nossos governantes não sabem da importância de ouvir os críticos, que é uma qualidade que está apenas ao alcance dos estadistas.
Como é que explica que, apesar dos avisos, o Governo tenha ignorado o impacto que a crise financeira iria ter na economia nacional?
Não há uma resposta simples para essa questão. Penso que é um misto de falta de sentido de Estado, de ignorância, de voluntarismo e de teimosia e, porventura mais importante, de falta de convicção sobre o interesse geral a que muitos chamam patriotismo.
Como avalia as linhas gerais propostas pelo Governo para reduzir o défice do Estado em 2011?
Pelo que se ficou a saber, certo é apenas que os portugueses pagarão, em 2011 e nos anos seguintes, os erros, a imprevidência e a demagogia acumulada em cinco anos de mau Governo. É por isso que, nestas circunstâncias, falar da coragem do primeiro-ministro e do ministro das Finanças, como alguns têm feito, é um insulto de mau gosto a todos os portugueses que trabalham, pagam os seus impostos e vêem defraudadas as suas expectativas de uma vida melhor. As medidas propostas, sendo inevitáveis, dada a dimensão da dívida e a desconfiança criada pelo Governo junto dos credores internacionais, não tocam no essencial da gordura do aparelho do Estado e nos interesses da oligarquia dirigente. Mas o pior é que estas medidas, pela sua própria natureza, não são sustentáveis no futuro e não é expectável que, com este Governo, se consiga o crescimento sustentado da economia.
Acredita na execução orçamental de 2010?
Tanto quanto se sabe, o Governo não cumpriu as medidas acordadas com o PSD, do lado da despesa, no PEC (Plano de estabilidade e Crescimento)1 e no PEC 2. Mas, como todos sabemos, a contabilidade governamental é elástica e algumas das medidas agora apresentadas terão efeito ainda este ano, pelo que seria um absurdo indesculpável o Governo não cumprir o objectivo do défice para 2010.
Quais os efeitos das medidas anunciadas na economia real?
Os livros de Economia ensinam que estas medidas matam qualquer economia, e essa é uma razão adicional para as evitar em tempo útil, com bom senso e boa governação. Em qualquer caso, temos a vantagem de ser um pequeno país e acredito que as empresas têm condições para salvar a economia portuguesa. Mas, para isso, precisam de uma estratégia nacional clara e coerente, um Estado sério e competente que defenda o interesse geral e uma profunda reforma ao nível da exigência educativa. O objectivo principal terá de ser subir na cadeia de valor através da inovação e de recursos humanos mais qualificados.
Continua a haver risco de Portugal necessitar da intervenção do FMI?
Um Governo que deixou chegar as finanças à presente situação, dificilmente evitará a vinda do FMI.
Partilha da opinião dos que defendem que o melhor contributo que o Governo pode dar à economia é consolidar as contas públicas?
A consolidação das contas públicas é uma condição necessária mas não suficiente. Apenas o crescimento sustentado da economia abrirá novas perspectivas aos portugueses. Mas, neste domínio, José Sócrates iludiu, durante cinco longos anos, todos os reais problemas da economia através de um optimismo bacoco e inconsciente.
Não o fez apenas por ignorância, mas para servir os interesses da oligarquia do regime, através da especulação fundiária e imobiliária, das parcerias público-privadas, dos concursos públicos a feitio, das revisões de preços e de uma miríade de empresas, institutos, fundos e serviços autónomos, além das empresas municipais. Regabofe pago com recurso ao crédito e sem nenhum respeito pelas gerações futuras.
Como se resolve o dilema: estimular a economia e equilibrar as contas públicas?
Nas actuais condições de endividamento, dificilmente se conseguirão ambas as coisas. Por isso a dívida pública que os últimos governos deixaram acumular deveria constituir crime público. Porque nos tornou dependentes dos credores internacionais e coloca em causa o bem mais precioso de qualquer país, que é a independência nacional. Que, no caso de Portugal, tem mais de oito séculos e custou muito sofrimento. Aliás, por isso, e talvez não por acaso, infelizmente, são cada vez mais frequentes as tiradas vindas de alguns sectores apregoando que o país não é viável e que os portugueses não se sabem governar, ou que a solução dos nossos problemas passaria por uma qualquer união ibérica.
É possível cumprir as metas orçamentais sem aumento de impostos que permitem receitas imediatas?
Teria sido possível se a previsão fizesse parte do léxico do Governo de José Sócrates. Mas como, a três meses do final do ano, o ministro das Finanças ainda precisa de medidas adicionais e pede à oposição que lhe indique onde cortar na despesa, a resposta é não, no curto prazo, os impostos adicionais são inevitáveis.
Das declarações do Governo, ficou com ideia de que ele deixou cair o investimento público associado às grandes obras, TGV e aeroporto?
A ideia com que se fica é que o primeiro-ministro não leva em conta o interesse nacional, mas os interesses dos grupos de pressão dos sectores financeiro e das obras públicas, o que é a única explicação para a dimensão dos erros cometidos. Estamos a construir mais auto-estradas que ficam vazias e sem carros e um TGV com um traçado que não favorece a economia, ao mesmo tempo que nada foi feito para termos um porto de transhipment e transporte ferroviário de mercadorias para a Europa, investimentos cruciais em logística, para podermos ambicionar atrair mais investimento estrangeiro e desenvolver uma verdadeira capacidade exportadora. Em qualquer caso, contra toda a sanidade económica e financeira, o Governo não parou a maioria das obras programadas e utilizará o fantasma das indemnizações aos empreiteiros para as não parar.
Durante as últimas eleições, Passos Coelho desalinhou com a liderança do PSD da altura e veio também defender os grandes investimentos públicos como o TGV?
Infelizmente, Portugal está na senda de escolher jovens primeiros-ministros que não sabem do que falam. O que é agravado pela inexistência de uma estratégia nacional integradora das grandes decisões de investimento público. Desta forma, os investimentos são encarados como obra pública avulsa, o que conduz a cada cabeça cada sentença. Pedro Passos Coelho é parte desse problema, que, além disso, permite as constantes mudanças de opinião.
O que diz é que o jogo político entre as altas figuras que lideram o PS e o PSD se tem sobreposto ao desenvolvimento do país?
É inegável que existe um bloco central inorgânico na política portuguesa, que defende interesses privados ilegítimos e permite a acumulação de altos e bem pagos cargos na administração do Estado e nas empresas do regime. O que é facilitado pelo chamado centralismo democrático praticado nos diversos partidos políticos e pela habitual passividade e clubismo do povo português. Nesse capítulo, atingimos o ponto zero da moralidade pública e não vejo como será possível colocar a economia portuguesa no caminho do progresso e do crescimento, com algumas das principais empresas e grupos económicos a poderem ter relações privilegiadas com o poder político e a ser-lhes permitido fugir da concorrência e dos mercados externos, por força do clima de facilidade e de privilégio que detêm no mercado interno.
Nos últimos anos, chamou várias vezes a atenção para a promiscuidade dos grandes interesses privados com altas figuras do Estado. O cidadão tem a ideia de que não paga essa factura. O facto de o cidadão ser chamado agora a pagar a factura vai ter consequências?
Não sei quando é que os portugueses dirão "basta!". Mas sei que o maior problema resultante da imoralidade das classes dirigentes é a pedagogia de sinal negativo que isso comporta. Infelizmente, muitos portugueses têm a tentação de pensar que, se alguns enriquecem de forma fácil e rápida por via da sua actividade política, isso também lhes pode acontecer a eles no futuro. Fenómenos como o BPN e o BPP têm muito a ver com esta amoralidade geral reinante. Por outro lado, como pode o cidadão comum combater a corrupção, se o próprio Governo não fizer o que deve e pode para encabeçar esse combate, como ainda aconteceu recentemente?
Uma entrevista de Sócrates na Antena 1.
Para matar o resto das dúvidas que poderíamos ter sobre o carácter da pessoa.
A partir dos 15 minutos ele mostra-se como é - fala da edcuação e defende a ministra, o trabalho dela e tudo o que foi feito na educação.
Mais uma vez é ofensivo com os professores, diz que nunca tinham sido avaliados, que foi contra os professores para servir o interesse do país, que foi por coragem que o fez porque não podia servir os interesses particulares das corporações (dos professores, entenda-se) e que foi extraordinário porque só ele e o governo (a outra fulana...) é que pensavam no intersse das famílias e dos alunos - fica por demais subentendido que os professores estão-se nas tintas e só pensam em si...
Não é apenas o facto de defender o que fez, é que defende o modo como o fez!
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