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sobre a mentira em contexto político

por beatriz j a, em 26.05.11

 

 

 

Já toda a gente reparou que de há uns anos para cá a mentira se banalizou na política. Os líderes mentem nas campanhas e nos governos, sabem que nós sabemos que estão a mentir mas continuam na mentira. Dantes também se mentia, mas quando se era apanhado na mentira activa ou até na mentira passiva da ocultação havia imediatamente demissões. Agora não. Os políticos assumem que o eleitorado assume que a mentira é normal como narrativa de contexto eleitoral ou de contexto de disputa parlamentar.

A Filosofia é um bocadinho culpada disto. A fenomenologia, no século XIX, trouxa a ideia da necessária relatividade de todas as perspectivas do conhecimento e Perleman deu-lhe sequência restaurando, no século XX, o prestígio da argumentação como fundadora legitima do equilíbrio de poderes próprio das democracias.

Tudo estaria bem se estas duas perspectivas não se tivessem misturado na prática quotidiana. A argumentação não torna equivalentes todas as perspectivas, mesmo sendo estas relativas na sua subjectividade. Considerar que qualquer posição é válida -qualquer narrativa, como se diz agora- só porque alguém consegue defendê-la de modo que outros nela acreditam é fazer equivaler a verdade à retórica.

Problema muito antigo este que ganhou novo fôlego entre os novos sofistas. É por isso que os políticos apresentam as suas 'narrativas' mesmo sabendo-as falsas: porque sabem que a verdade está desvalorizada e sofreu um 'downsizing' tendo sido remetida para o domínio da utopia.

Há um par de anos ouvi o Jacques Bouveresse, grande especialista em Wittgenstein, defender num colóquio na Gulbenkian sobre os limites da ciência, a hipótese da Filosofia riscar a palavra verdade do seu programa milenar e, na prática, desistir de ter a verdade como desígnio maior.

É por isso que os políticos já não se demitem quando são apanhados a mentir. Todos esperam que eles mintam. É a narrativa deles...

A mim parece-me que este novo relativismo pragmático está na origem dos povos não se sentirem representados pelos novos políticos sofistas e que lança raízes para uma fragmentação da vida pública.

 

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publicado às 22:31

g.a


3-8-12




no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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