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dos livros da feira: Amílcar Cabral

por beatriz j a, em 08.05.11

 

 

 

 

 

 

 

 

Já li este livro quase todo. Para quem, como eu, é ávida por notícias e documentos relativos ao que se passou imediatamente antes e durante a guerra colonial portuguesa, este é um dos melhores livros que se pode ler, porque apresenta a versão dos colonizados pela voz de um indivíduo que tinha pensamento de estadista, muito à frente de seu tempo, e preocupado em documentar-se com factos e números não só sobre o seu país -a Guiné e Cabo Verde, terra de seus pais- mas sobre as outras colónias também.

Amílcar Cabral, antes de ir para a conferência Pan-Africana e depois para Londres e para a ONU denunciar o colonialismo português e pedir pela auto-determinação do povo esteve em contacto permanente com os movimentos das outras colónias para se documentar e apresentar factos e números sobre as colónias portuguesas que servissem de reforço aos argumentos. Portanto, apesar de ser o fundador do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo-Verde) foi durante um certo tempo porta voz de todas as 'províncias portuguesas', como então se chamava para não ofender a Carta das Nações Unidas.

O meu pai era amigo dele. Fizeram o curso juntos na Faculdade de Agronomia. Lembro de ele contar que um dia, lá para o fim dos anos sessenta, ia a passar em Alcântara quando o viu a sair dum café e foi ter com ele um bocado aflito dizer-lhe, 'O que estás aqui a fazer? Então não sabes que há um mandado de captura da PIDE para ti?' Ao que ele respondeu, rindo, 'Sei e eles sabem que estou aqui. Ando sempre vigiado mas agora já não me tocam'.

O indivíduo era uma mente muito à frente do seu tempo. Vê-se nos textos que levou às Nações Unidas mas também na tese que defendeu publicamente, em 1952, para obter o grau de licenciado, O problema da Erosão do Solo.... na região de Cuba (Alentejo)... que dedica aos jornaleiros do Alentejo, «homens de vida incerta que a erosão ameaça» defende que "Defender a terra é defender o homem" na medida em que "À medida que a técnica, nos seus mais variados aspectos, progride, crescem também as necessidades do homem. Dia a dia, novas ondas humanas concretizam a sua reivindicação no sentido de uma comparticipação efectiva no usufruto das benesses da terra." Defende que a preservação dos solos é uma questão, não apenas técnica, mas também social, porque dela depende a sobrevivência da crescente humanidade de modo que a questão da rentabilidade sustentada dos solos deve fazer parte do programa de qualquer governo.

Foi assassinado em 1973, por indivíduos do seu próprio partido, de maneira que não chegou a ver a independência pela qual lutou. O seu irmão Luís foi o primeiro Presidente do país livre.

 

publicado às 12:23


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