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A avaliação da ministra da Educação

por beatriz j a, em 23.11.08

 Expresso, 22 de Novembro de 2008

 

Na edição do jornal Expresso de 22 de Novembro António Pinto Leite diz, em relação à ministra da Educação que ela é incompetente por não ter tido a arte de levar a cabo uma avaliação entre pares e que, se o ministério fosse empresa e se ela fosse avaliada, já não estaria no cargo.

Quanto ao primeiro ponto não há dúvida sobre ele. A ministra deu mostra de não ser pessoa capaz desde a primeira hora, pois onde é que já se viu uma pessoa competente assumir a liderança de uma equipa que tem de motivar para que dêem o seu melhor e começar, precisamente, por lhes fazer uma declaração de guerra???!!!

Onde é que já se viu uma pessoa competente querer ganhar a confiança e respeito de uma equipa para que a sigam e assumam os seus propósitos e, simultaneamente, iniciar-se, como que por magia, uma campanha de difamação quase diária sobre essas mesmas pessoas???!!!

E outros exemplos existiriam.

Quanto ao resto do artigo há muito que se lhe diga.

Primeiro, a educação e as escolas não são uma empresa. Se se aplica muitas vezes modelos de gestão de empresas às escolas é porque se confunde as escolas e os professores com o ministério da educação e seus funcionários. Esta comparação é ilícita.

O ministério poderá, talvez, ser comparado a uma empresa (embora nada produza), mas uma escola não pode ser vista como uma empresa. Lá educam-se pessoas, não se fabricam chaves.

 O nível de produção de uma escola é intenso, ao nível dos conhecimentos, das iniciativas pedagógicas, didácticas, etc. Basta ir ver o quadro do Plano Anual de Actividades duma escola. Produzem-se materiais para mostras, exposições, concursos (literários, científicos, filosóficos), palestras; organizam-se visitas de estudo a museus, galerias, teatros, etc; elaboram-se jornais, revistas e até manuais escolares; campeonatos desportivos; actividades de multimédia (vídeos caseiros, moodle, blogues, páginas web); experiências de intercâmbio escolar; fazem-se experiências de produção de energias alternativas; organizam-se debates em torno de temas variados actuais; participa-se em actividades e iniciativas da comunidade de contexto (dia do idoso, dia do coração, etc); proporciona-se visitas e participação em projectos internacionais; etc., etc., etc.

Tudo isto se leva a cabo paralelamente ao trabalho diário de leccionação (que implica um planeamento próprio das aulas e actividades, muito rigoroso no caso dos alunos com exames finais), de direcção de turma (com acompanhamento dos alunos nas suas necessidades e problemas bem como contacto e colaboração com os pais e encarregados de educação), de contacto com entidades e parceiros sociais na resolução dos mais variados problemas que vão, desde a segurança da escola à gestão da mediateca e da ciberteca ou ao inventário dos materiais necessários ao funcionamento dos departamentos.

Toda esta actividade é gerada pelo labor e criatividade de professores que funcionam em registos e modelos de criatividade muito diversos. Não é por acaso. A escola básica e secundária é aquela onde se concentram maior número de áreas do saber. Mais até que numa universidade, onde as faculdades estão separadas por área: científicas para um lado, humanistas para outro, económicas, para outro.

Nas escolas, básicas e secundárias, temos pessoas formadas em quase todas as áreas de saber que interagem para cumprir currículos, ultrapassar problemas de alunos e turmas, compatibilizar actividades. Nessa interacção os professores discutem uns com os outros, informam-se uns aos outros e, nessa medida, alimentam o trabalho e a criatividade uns dos outros.

Numa escola onde não há tempo para o estudo, a pesquisa e produção criativas e (ou) onde todos têm que funcionar ao mesmo passo burocrático e onde o fim não é a educação mas o cumprimento cego dum programa de grelhas, nada disto é possível.

Aliás, não é possível, nem desejável, que os professores trabalhem do mesmo modo.

São pessoas formadas em áreas que têm especificidades próprias, métodos de trabalho próprios, que implicam uma certa maneira de estar no mundo, de o ver e pensar. Um professor de artes, um de matemática, um de música, um de filosofia e um de biologia, só para dar uns exemplos, têm, cada um, um modo próprio de abordar a realidade, que passa para o seu trabalho e, por isso, para os alunos, dentro e fora da sala de aula. Até mesmo professores da mesma disciplina têm maneiras diferentes de desenvolver o trabalho. Uns são mais criativos, outros mais organizados, uns mais dinâmicos, outros mais reflexivos. E isso é bom. Não limita os alunos, antes lhes alarga os horizontes e as possibilidades. Pois que estas diferenças não impedem que se atinjam as metas próprias da disciplina/turma/ano de escolaridade.

A escola, para cumprir a sua missão, tem de ser diversa, criativa, rica mas, também e fundamentalmente, colaborante, congregadora de esforços( daí a importância de um quadro de professores estável, onde as pessoas se conheçam e saibam as virtualidades e capacidades uns dos outros de modo a aproveitar-se o melhor de cada).

Ora, numa escola onde os professores que se sentam à mesa para colaborar na resolução dos problemas dos alunos desconfiam uns dos outros, porque uns sabem que os outros ao seu lado foram escolhidos e promovidos com títulos para serem aliados dum poder que tem como finalidade a purga e a subserviência, nenhum trabalho de colaboração (mesmo não criativo) é possível. Mais, fica instalada a desagregação e o individualismo onde é absolutamente necessária a colaboração.

É por isso que o que diz Pinto Leite levanta questões. A ministra sabia bem que tinha de ter cavalos de Tróia dentro das escolas. Escolheu-os criteriosamente e promoveu-os para tal fim. Basta ver quem são os que resistem a esta luta justa dos professores pela educação. Iniciou uma campanha de difamação paralela para reforçar a ideia de que os professores são uma espécie de gang de inúteis.

E, se as escolas fossem uma qualquer empresa onde estas coisas se passam mas ninguém sabe, a não ser os que lá trabalham, e onde a média de formação das pessoas e a necessidade de colaboração são baixas, tudo tinha resultado.

Acontece que as escolas são centenas, os professores são milhares, tudo o que lá se passa tem projecção na comunicação social e, muito importante, os professores não são os estúpidos, imbecis, inúteis, incultos, preguiçosos, comodistas, retrógrados, que a ministra quis que todos pensassem.

 A tal arte de manipular muito bem as pessoas para poder manobrá-las sem que elas percebam que estão a ser manobradas só é possível onde as pessoas nunca leram nada, nunca discutiram nada, não sabem nada e levam muito tempo a perceber as coisas.

Não é o caso hoje em dia nas escolas. A seguir àquela época em que muitos dos professores não eram licenciados, e às vezes nem bacharelato tinham, seguiu-se uma época de reduzida oferta que fez com que apenas licenciados e com classificação alta pudessem entrar nas escolas.

Vê-se, aliás, como alguns dos que lideram professores e ainda são dessa época mais antiga, já muitas vezes não acompanham esta classe profissional que é hoje muito diferente.

Então o erro da ministra nesta questão da avaliação foi o de ignorância.

Ignora quem são as pessoas com quem trabalha (ou pensa que são uma continuidade dos funcionários do seu ministério); ignora a natureza do trabalho do professor; ignora por completo a dinâmica das escolas; acima de tudo subestima o brio profissional dos professores e a sua necessidade de autonomia pedagógica para poderem cumprir as suas funções.

 

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publicado às 15:56



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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