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porque não me canso de ler o Camilo

por beatriz j a, em 29.12.10

 

 

 

É que o Camilo escreve divinamente: com uma riqueza e fluência de vocabulário, umas analogias requintadísimas de humor e inteligência tais que vamo-nos deleitando com as palavras a querer ler mais e mais. Eu leio, ou para me divertir ou para aprender. Sou capaz de ler um autor que não escreva muito bem se quero muito saber o que ele pensa sobre certo assunto, mas se não estou muito interessada nas opiniões da pessoa, não estou para fazer o frete de ler algo mal escrito, ou sem graça alguma. Ora, para quem já leu os filósofos e os clássicos e os grandes autores/pensadores, a maior parte do que se publica não tem grande coisa a dizer que proporcione aprendizagem. Em contrapartida, umas páginas bem escritas ensinam sempre qualquer coisa, quanto mais não seja, refinam o olhar, a linguagem e a imagética literária tão necessária para dar côr à vida. Pois o Camilo é mestre nisso. E vê-se que o faz com naturalidade e não para armar ao erudito. E escreve tão bem, com tanto espírito e graça, e acutilância também, que nos põe constantemente um sorriso de cumplicidade nos lábios. Ele gosta disso, de fazer do leitor um cúmplice. Ao mesmo tempo que é elegante a escrever tem aquele sarcasmo tipicamente português.

 

 

Da Introdução à História da Égua (excerto)

 

_ Ainda fazes romances? _ perguntou-me o meu amigo.

_ Ainda...Sedet aeternus que sedebit. Infelix... faço romances e expio os pecados de meus avós, neste incessante rodar do penedo ao alto do monte, e resvalar com ele ao fundo.

_ Estás magro, homem! - observou ele apalpando-me o pescoço, provavelmente com o tacto magistral de quem ajuizava da nutrição dos potros pela fibra atochada e nediez do pescoço.

_ Deixa-te desse modo vivente, se não aspiras à mumificação. Olha que a natureza fez homens, não fez literatos. O Criador, quando expulsou Adão do paraíso, teve a piedade de lhe não dizer: «Serás escritor!» O que lhe disse foi: «Viverás trabalhando até suar». Considera amigo que é necessário suar para viver. E o escritor não sua: logo, morrerá anazados qual te vejos pobre homem! Saíste das prescrições da natureza: torna sobre ti e corrige o vício.

 

 

publicado às 17:54



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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