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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
Hoje em dia é praticamente impossível abrir um jornal ou ligar a t.v. à hora dos noticiários sem se ficar mal disposta para o resto do dia.
Ontem foi o DN e o artigo de opinião de Mário Soares dn.sapo.pt/2008/12/16/opiniao/a_crise_e_milhoes.html : A Crise e os Milhões.
Aquilo que começa por parecer ser um artigo de crítica e de censura pelo modo como os governantes depauperam o país revela-se, afinal, como uma carta de aviso aos amigos. Fala-se ali em roubos, corrupção, incompetência, incúria, enriquecimento à custa da destruição da classe média; mas, pergunto eu, com que objectivo?
Porventura transparece a preocupação com essa classe média? Com o povo? Com o destino do país? Admito que posso estar redondamente enganada, mas não é o que me parece. Todo o cuidado está em avisar os amigos que se acautelem, não vá o povo virar-se contra eles, como já fez em França e como está a fazer na Grécia:
"E querem depois o voto desses mesmos eleitores, sem os informar seriamente nem esclarecer? É demais! É sabido: quem semeia ventos colhe tempestades..." Isto a mim parece-me um aviso; mais do que criticar a prevaricação critica-se a falta de jeito com que o fizeram, quer dizer, deviam as pessoas ter engendrado umas explicações, qualquer coisa, enfim, que apaziguasse os ânimos mais exaltados.
Aconselha-se a sentir o pulso do povo, da classe média, das pessoas nas ruas, nas universidades...LOL Repararam o cuidado em evitar referir as escolas, para não criar problemas ao primeiro ministro e à «coveira» da educação? E porquê?
Ora, porque em primeiro lugar, antes de tudo, está a família. É por isso que se exclui do povo a auscultar, os professores; constituídos, na sua maioria, por mulheres, como é sabido, representa fatia grande da classe média trabalhadora que tem sido sistemática e eficientemente empobrecida, para que suas excelências possam brincar ao Monopólio, na bolsa, e fazer as festas do avental. Pois é, a família vem em primeiro lugar e antes de tudo.
E, quem é a família? Bem, não é difícil saber. Desde o 25 de Abril que os vemos colados na cadeira do poder. Essa gente tem o cuidado de distribuir a familia - a de sangue - pelos cargos e corredores do poder político e económico, como salvaguarda para os anitos em que têm de sentar-se na bancada da oposição, para dar a vez aos do outro partido, que também têm as suas famílias para cuidar.
É por isso que a família vem sempre em primeiro lugar: eles são uns para outros e o país é o seu couto privado. É evidente que a caça somos nós. E como as coisas estão já nem se respeita a época do defeso - como se vê pelo processo da Casa Pia, isto 'é fartar vilanagem!'.
De modo que, como eu vejo a coisa, aquele artigo do ex-presidente Mário Soares, é, acima de tudo, uma carta de aviso aos amigos: vocês tenham cuidado que ainda estragam o arranjinho. Que diabo! Há anos que funcionamos todos tão bem neste país eternamente adiado! Ainda me lembro daquelas férias nas Seychelles!
É que se vocês não sabem fazer a coisa como deve ser, mais vale mudar de caras como na América.
Não? Estou enganada? Sou eu que estou a ver mal? Deve ser...
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