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Futuro radioso

por beatriz j a, em 10.12.08

 

 

É uma tristeza quando aqueles cuja liderança nos devia inspirar e motivar são pessoas desprezíveis, pela persistência na ignorância, pela leviandade dos actos, pela falta de sentido histórico, pela falta da mais elementar auto-crítica, pela leveza com que metem a mão nos bolsos alheios para encher os seus, pela evidência duma ausência de nobreza, pela mediocridade.

 

É uma tristeza, verificar o renascimento da emigração em massa. As pessoas não poderem contar com o seu próprio país e terem de fugir, como quem foge de gangs e grupos de malfeitores, para poderem sobreviver.

 

Mas quem poderia imaginar, volvidos tão poucos anos da revolução, este retrocesso na democracia. Todos os dias notícias de pessoas do poder e da legislatura como bandidos que desviam dinheiro, que mantêm casas de alterne como actividade paralela ao trabalho de gestores e administradores de bancos onde o estado enterra o dinheiro dos que trabalham.

 

É insuportável e deprimente isto de sermos governados pelos piores, pelos mediocres, por pessoas que repugnam.

 

E ter que os aturar a debitar mentiras e dislates todos os dias, e saber que estão a transformar a ignorância em legislação. Todos os dias degradam mais um pouco a vida cultural, os horizontes intelectuais, a educação e, por isso, a autonomia e independência do povo. Qualquer dia a vida intelectual permitida por suas excelências resume-se à leitura das biografias adulteradas dos quarenta e do seu chefe.

 

É um pesadelo. Faz-me lembrar a introdução do livro do Zinoviev (dissidente soviético), O Futuro Radioso, que diz assim:

 

"Um dia tive oportunidade de ouvir uma conversa entre dois intelectuais moscovitas. Um deles é um sociólogo que fez esforços titânicos para desenvolver a sociologia soviética a bem do partido, do estado e do povo. E, apesar disso, o seu grupo foi desmantelado em nome desse mesmo partido, desse mesmo estado e desse mesmo povo. Ele próprio foi afastado de tudo, podendo dar-se por feliz por ainda lhe terem deixado a possibilidade de receber o salário. O outro é um pintor conhecido que não fez menos esforços para que as artes plásticas soviéticas atingissem o nível das realizações mundiais mas que não conseguiu sequer, durante vinte e tal anos, realizar a mais pequena exposição.

  Eis a conversa deles, in extenso:

  - Já viste, que p.... de vida!

  - Ora, m...., estou-me c.....!

Não se podia definir com mais precisão a vida na nossa terra."

 

É este, o futuro radioso que nos espera?

 

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publicado às 00:17


1 comentário

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De maria cecilia a 11.12.2008 às 18:15

Infelizmente o que escreves é certo, Beatriz, tudo tão certo!!!!
Descartes falava de um génio maligno, o que temos não são génios mas,burros malignos!!!!
"E tudo isto existe e tudo isto é triste," só que, não creio, que seja fado, pois como diz o poeta(que até é poeta popular):" vós que lá do alto império prometeis um mundo novo lembrai-vos que pode o povo querer um mundo novo a sério"
E tudo isto me faz lembrar também,"O triunfo dos porcos"!
E tudo isto me faz lembrar, ainda,"Farenheit 451- grau de destruiçao"
E outros poetas e poemas: Ruy Belo - "O meu país é o que o mar não quer" ; José Régio" Não,não vou por aí(...) e sinto espuma e sangue e cânticos nos lábios...";Camilo Pessanha -" O melhor de tudo é não ouvir nem ver passarem por mim e nada me doer(...)
E a raiva, a indignação, a ira crescem...
Maria Cecília

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