Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]
no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
É uma tristeza quando aqueles cuja liderança nos devia inspirar e motivar são pessoas desprezíveis, pela persistência na ignorância, pela leviandade dos actos, pela falta de sentido histórico, pela falta da mais elementar auto-crítica, pela leveza com que metem a mão nos bolsos alheios para encher os seus, pela evidência duma ausência de nobreza, pela mediocridade.
É uma tristeza, verificar o renascimento da emigração em massa. As pessoas não poderem contar com o seu próprio país e terem de fugir, como quem foge de gangs e grupos de malfeitores, para poderem sobreviver.
Mas quem poderia imaginar, volvidos tão poucos anos da revolução, este retrocesso na democracia. Todos os dias notícias de pessoas do poder e da legislatura como bandidos que desviam dinheiro, que mantêm casas de alterne como actividade paralela ao trabalho de gestores e administradores de bancos onde o estado enterra o dinheiro dos que trabalham.
É insuportável e deprimente isto de sermos governados pelos piores, pelos mediocres, por pessoas que repugnam.
E ter que os aturar a debitar mentiras e dislates todos os dias, e saber que estão a transformar a ignorância em legislação. Todos os dias degradam mais um pouco a vida cultural, os horizontes intelectuais, a educação e, por isso, a autonomia e independência do povo. Qualquer dia a vida intelectual permitida por suas excelências resume-se à leitura das biografias adulteradas dos quarenta e do seu chefe.
É um pesadelo. Faz-me lembrar a introdução do livro do Zinoviev (dissidente soviético), O Futuro Radioso, que diz assim:
"Um dia tive oportunidade de ouvir uma conversa entre dois intelectuais moscovitas. Um deles é um sociólogo que fez esforços titânicos para desenvolver a sociologia soviética a bem do partido, do estado e do povo. E, apesar disso, o seu grupo foi desmantelado em nome desse mesmo partido, desse mesmo estado e desse mesmo povo. Ele próprio foi afastado de tudo, podendo dar-se por feliz por ainda lhe terem deixado a possibilidade de receber o salário. O outro é um pintor conhecido que não fez menos esforços para que as artes plásticas soviéticas atingissem o nível das realizações mundiais mas que não conseguiu sequer, durante vinte e tal anos, realizar a mais pequena exposição.
Eis a conversa deles, in extenso:
- Já viste, que p.... de vida!
- Ora, m...., estou-me c.....!
Não se podia definir com mais precisão a vida na nossa terra."
É este, o futuro radioso que nos espera?
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.