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O que queria dizer hoje

por beatriz j a, em 12.04.09

 

 

 

DN

O clube dos amigos do Mário . A Grande Loja Regular de Portugal

por SOCIÓLOGO - ALBERT0

Enquanto o eng. Sócrates apoia a recandidatura de Durão Barroso à presidência da Comissão Europeia sob o críptico pretexto do "interesse nacional", a sessão de lançamento de um livrinho de Mário Soares, O Mundo em Mudança (belo título), transformou-se num comício contra o recandidato.

Primeiro foi o apresentador da obra, Fernando Nobre, a considerar que, por causa da Cimeira das Lajes, o dr. Barroso possui "um corpo de plástico, moluscóide, de quem não tem coluna vertebral". Depois, foi o dr. Soares em pessoa que se confessou "chocado" por o dr. Barroso se declarar agora amigo de Obama como antes de declarou amigo de Bush.

A encantadora prosa do dr. Nobre não merece comentários. Mas é curioso que um homem com a experiência do dr. Soares ainda se choque com tão pouco. Afinal, Obama só chegou à Casa Branca porque dez milhões e meio dos eleitores de Bush em 2004 votaram nele em Novembro último. Que eu saiba, nenhum dos eleitores foi acusado de incoerência.

A verdade é que os sintomas dessa medonha doença revestem-se de algum mistério. Mesmo sem sair do exemplo do dr. Barroso, o dr. Soares poderia achar incoerente que, nos idos de 1974, o homem que trocou o Governo pela Europa andasse a louvar a Revolução Cultural chinesa em plenários e folias similares. Estranhamente, não acha. Na abalizada opinião do dr. Soares, passar de Bush, presidente livremente eleito dos EUA, para Obama, presidente livremente eleito dos EUA, é uma inconcebível monstruosidade. Já passar, ou nem sequer passar, dos psicopatas que decoram o altar das esquerdas para a convivência democrática será, presumo, uma evolução naturalíssima.

Até porque, se não fosse, uns quatro quintos da classe política portuguesa não existiriam, incluindo o próprio dr. Soares, que saltitou do estalinismo da "juventude" (tardia: 27 anos) para venerações suspeitas até atingir o estatuto de "pai da pátria", que hoje acumula com a amizade de Hugo Chávez. E, se insistem, a amizade do dr. Nobre, criatura que serve o Bloco de Esquerda, idolatra "Che" Guevara e o Hamas, defende a metralhadora (disse ele) na resolução das desgraças da Terra e é, na perspectiva do dr. Soares, um modelo de humanitarismo, coerência e vertebralidade. Prova? Nunca gostou de Bush. Bush explica quase tudo. O descaramento explica o resto.

Na entrega do prémio da editora Leya, o prof. Cavaco relembrou a importância da "língua comum". Nada de novo. Quando não estão a destruí-la com aquele jargão repleto de "âmbitos", "níveis", "valências" e, agora, "empoderamentos", os políticos louvam imenso a "língua comum" e, implicitamente, o seu veículo preferencial: o Acordo Ortográfico.

É verdade que os leigos não entendem o relevo de um arranjinho que muda apenas 2% de uma língua com diferenças mínimas entre os seus falantes. É por isso que são leigos. Os peritos, como o professor da Academia Brasileira de Letras Evanildo Cavalcante, que recentemente nos visitou, percebem que só o português "unificado" permitirá "escancarar" (sic) a sua divulgação.

Até ouvir o prof. Cavalcante, eu próprio julgava que a subalternização do português no mundo se devesse a inúmeros factores: não ser a língua partilhada pelos dois últimos impérios da Terra, não ser falado nos principais centros científicos, académicos, industriais e comerciais, não possuir uma tradição literária excessivamente rica, não dispor da difusão facilitada pelo audiovisual ou pela informática e, em suma, não ser o inglês. Erro meu. Afinal, o factor é um e assaz pedestre: o português é secundário porque existem umas consoantes mudas e uns tremas que o impedem de alcançar a pujança a que tem direito.

Não se tem dado o devido destaque aos milhões de brasileiros que tentaram ler Pessoa no original e, embora compreendessem perfeitamente 98% do texto, desistiram fustigados pelos 2% restantes. Bastou um "fato" que se vestia e um "terno" que era meigo para estraçalhar a comunicação. E eu nunca acabei as Memórias Póstumas de Brás Cubas por causa do "tranqüilo" logo no capítulo VII. Que diabo é "tranqüilo"? Não sei e, o que é melhor, o AO dispensa-me de saber.

Graças ao AO, aproxima-se o dia em que portugueses e brasileiros (e angolanos, etc.) lerão o mesmo, o dia em que Paulo Coelho e José Rodrigues dos Santos (e Pepetela) escreverão o mesmo, o dia em que a língua enfim unida jamais será vencida e seguirá por aí a escancarar barreiras e a subjugar o mundo. Vai ser bom, não vai? E se os nossos irmãos brasileiros decifrassem o significado da palavra, eu diria que vai ser óptimo.

Um terramoto mata perto de 300 pessoas em Itália e a primeira, e típica, preocupação dos nossos "media" é averiguar se não há portugueses entre as vítimas. A segunda preocupação é entregarem-se ao escândalo por Berlusconi ter pedido aos desalojados que se imaginassem no campismo.

É escusado insistir na infelicidade da frase, mesmo com a atenuante de o autor ser um septuagenário pequenino que, graças à medicina reconstrutiva e a sapatos de plataforma, se imagina George Clooney. O jornalismo caseiro não precisa de emigrar para se indignar com a aparente insensibilidade dos governantes ou a sua sincera idiotia. E nem é necessário comparar o discurso optimista em matéria económica dos senhores que nos governam com os dados reais de uma economia em frangalhos. Fiquemos pelas calamidades "naturais".

Por cá, a revelação de que a gripe do início do ano matou cerca de 1500 criaturas (segundo o Instituto Ricardo Jorge) suscitou ao secretário de Estado da Saúde o seguinte comentário: "a resposta à epidemia foi razoável". Não sei se uma resposta "fraquinha" se teria traduzido em cinco mil mortos, uma resposta "má" em dez mil, e uma resposta péssima na repetição da "espanhola" de 1918. Não sendo sismógrafo ou especialista em saúde pública, também não sei até que ponto as consequências de uma gripe são mais ou menos evitáveis que as consequências dos tremores de terra.

A questão é que a imprensa aflitíssima com Berlusconi ignorou generosamente o lapso do sr. secretário de Estado, embora este exprima a indiferença da tutela perante um sistema de Saúde que trata os pobres como bichos e, implicitamente, sugere aos restantes que se curem no "privado" ou na civilização. Além disso, qualquer leigo percebe que 300 é um número menor que 1500, ainda por cima 1500 portugueses, cuja morte, pelos vistos, só conta se acontecer no estrangeiro. No fundo, à semelhança da vida, mas esse é outro assunto.

Em prol, cito, do melhor relacionamento com os cidadãos, as funcionárias da Loja do Cidadão de Faro, que o eng. Sócrates considerou "a mais avançada do país", foram proibidas de envergar: saias curtas, decotes, saltos altos, roupa interior escura, gangas e perfumes agressivos.

É questão de gosto. Por mim, dispenso as gangas. Os perfumes, especialmente se "agressivos", também. Mas julgo que o resto da indumentária interdita faria maravilhas pelo relacionamento entre a administração pública e os cidadãos, sobretudo quando as lojas destes não cumprem a rapidez que a propaganda anuncia e obrigam os desgraçados a passar horas em pé para requisitar um papel que lhes será entregue meses depois. Embora dependendo de quem estivesse dentro deles, os decotes e as saias reduzidas sempre seriam uma compensação para a parcela masculina do povo em fila.

Na avançada Loja de Faro, pelo menos, não haverá compensação, nem o perigo de a roupa arrojada despertar os instintos bestiais do macho algarvio: além da espera, os clientes do estaminé terão de suportar a contemplação de funcionárias com o "glamour" de uma excursão de catequistas. Segundo consta, a decisão coube à dona Maria Pulquéria Lúcio, curiosamente vogal da Agência para a Modernização Administrativa (AMA), uma das dezoito mil instituições estatais que servem a população e, principalmente, a parte da população nelas empregada.

Por curiosidade, consultei o currículo da dona Pulquéria e verifiquei que, antes da tal AMA, a senhora passou pelo PRACE, pelo CRIP, pelo SIAFE, pelo IIAE e pelo BDAP. Não serviu de muito. Sob o entulho "progressista" dos acrónimos, sobreviveu a Pulquéria proverbial, cujo nome é todo um programa e, de brinde, uma metáfora do país oficial e uma lição. Pode-se cobrir Portugal de siglas, Simplex, banda larga, Magalhães, SMS, cruzamento de dados, cartões quinze em um, chips nos cartões, nas matrículas e nas cabeças: mal se remove o verniz "funcional" do "futuro", o mofo do passado, seminarista e mandão, mostra a sua cara. Quem nos quer mudar não muda e, desculpem a rima, Santa Pulquéria não ajuda. C

 

 

A ideia do Mário Soares se chocar com alguma coisa relativa às trocas e baldrocas dos políticos é de chorar a rir!

Então a cena de Faro saiu da cabeça duma Pulquéria? Algumas pessoas estariam muito mais à vontade naquelas sociedades que vagueiam pelas árvores da floresta do Virunga...

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publicado às 09:19


2 comentários

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De MARIACECILIA a 23.04.2009 às 17:25

De fato o que escreveste esta excelente!!!!!!
Eu escrevi de fato , digo , sem fato, mas escrevi de fato e tambem não acentuei nem "está" nem "também"pois, de fato( outra vez!!!) em Beja diz-se "tambem", ora o que é que os alentajanos são menos que os brasileiros ou angolano(será que o plural de "angolano" não é já também "angolano"?
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De maria cecilia a 23.04.2009 às 17:32

a associação internacional das consoantes mudas e semi-mudas deveria tomar posição sobre o acordo ortográfico.

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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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