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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
Moita Flores teve muitas reservas, mas acabou por aceitar o convite de Júlia Pinheiro. O presidente da Câmara de Santarém participou numa das sessões em que é suposto entrar em contacto com familiares mortos e o saldo da experiência foi avassalador.
Refira-se que este programa chega a Portugal pela mão de Mónica Carrelhas, astróloga e produtora, como se apresenta no site de Planeta Ideal, empresa que criou para levar adiante este projecto.
Parece que estamos entregues a astrólogos e políticos de feira. A astróloga garante que tudo se passa com elegância, que os mortos com quem contacta não embaraçam os convidados...
Não digo que não existe uma vida depois desta. Agora o que digo é que estes programas incentivam as crendices e superstições das pessoas mais vulneráveis.
Assistimos a uma decadência da racionalidade em favor da crença sem fundamento, da fantasia, da infantilidade intelectual de adultos por falta de uso sistematico da razão. Isto nota-se na acção das pessoas e está ligado a uma educação indulgente com a razão. Uma educação do 'saber fazer', mas sem compreender nada do que se faz e porque se faz. Uma educação onde o conhecimento, a massa que alimenta e orienta o pensamento é visto como uma 'mania' de gente que se acha mais que os outros.
Na semana passada duas alunas deram uma aula. Entusiasmadas com o capítulo que estamos a dar na Psicologia sobre as Relações Interpessoais que incluem a agressividade, a amizade, a intimidade e o amor, pediram se podiam preparar-se e dar uma aula sobre o tema. Disse que sim, claro. As miúdas preparam-se bem e fizeram um bom trabalho. Na aula seguinte disse-lhes qual tinha sido a avaliação delas. Uma outra aluna zangou-se e disse-me que eu não devia (lol, os alunos acham sempre que sabem os nossos deveres melhor que nós) dar nota ao trabalho e devia contar apenas como mera participação na aula porque agora os outros que não deram nenhuma aula ficaram em desvantagem.
É claro que os outros não ficam em desvantagem porque a nota deles não é prejudicada por não darem uma aula (embora o possam fazer). E é evidente que tenho que valorizar o trabalho das duas alunas: fizeram mais do que era pedido e correram o risco de as coisas não sairem bem e fazerem má figura.
A garota que disse aquelas coisas é boa aluna, muito boa miúda e não o disse por mal ou para prejudicar as colegas. É apenas o fruto destes anos e anos de pedagogias miserabilistas que alimentam a ideia de que a democracia significa que todos somos e temos que ser sempre iguais e que o valor individual deve ser desincentivado para não acabrunhar os outros.
É este desprezo pelo conhecimento que, no fim de contas, alimenta aqueles programas de astrólogos que exploram e manipulam os sentimentos das pessoas. Pessoas com uma educação académica que favorecesse os processos racionais e a autonomia teriam mais instrumentos para lutar contra a crendice e a superstição.
Em Inglaterra, soube-se há pouco, muitos deputados e alguns ministros consultam astrólogos com frequência...A ideia de andarmos a ser governados por astrólogos e cartomantes até assusta.
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