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Um livro que marcou a adolescência

 

Arquipélago de Gulag de Alexandre Soljenitsine

 

 

 

 

Li este livro, nesta mesma edição, quando tinha treze/catorze anos. Nessa altura éramos mais politizados do que são os miúdos, hoje. O 25 de Abril era recente, o país vivia em constante sobressalto político, estávamos a par de todas as notícias e desenvolvimentos políticos. Eu estava no Alentejo e andava obcecada, já desde algum tempo, com a questão nazi e todo aquele horror do holocausto.

Tinha lido todos os livros que havia lá em casa sobre o assunto: o 'Mein Kampf', 'Hagganah', 'Como Salvaram Um Milhão de Judeus' 'A Noite dos Facas Longas' e vários livros de relatos de sobreviventes dos campos.

Não conseguia apreender a maldade e a falsidade das pessoas. A incapacidade de verdade para consigo próprias e, também, o facto de a realidade poder ser completamente desestruturada de um dia para o outro. Num dia a vida ser a rotina expectável e, no dia a seguir, o absoluto caos e incerteza. Não percebia porque é que nunca ninguém me tinha avisado que isso era possível.

Foi neste contexto que peguei no livro do Soljenitsine que era um livro muito falado na época, pois tinha sido contrabandeado para o Ocidente às escondidas e o autor exilado. Ia à procura de respostas e queria testemunhos directos de pessoas inteligentes e lúcidas, pessoas que tivessem percebido o que se passava, no momento em que se passava e pudessem dar-nos explicações causais para certos comportamentos. Ingenuidade...

Li este livro duma ponta à outra sempre com uma sensação de angústia e mal-estar permanentes mas sem conseguir parar de ler: as injustiças, a arbitrariedade da vida nas mãos de criminosos, os métodos da NKVD, as estratégias malignas do Lenine, aqueles julgamentos populares encenados para condenar inocentes, o desorientação e sofrimento das pessoas, o calvário de um 'zek' na Lubianka, primeiro, e depois nos campos, a tortura, o heroísmo inglório de alguns, o horror das vidas à mercê de criminosos, sem direitos, sem esperança. Um pesadelo permanente. Vivi, durante muito tempo, com o Comissariado do Povo e o horror do julgamento do Zinoviev na cabeça.

Aprendi muito com este livro. Ainda hoje me uso dele como uma grelha de interpretação de pessoas, comportamentos e situações. Está lá tudo. É uma espécie de inventário de situações e comportamentos humanos. De A a Z, cobre-as todas, da melhor à pior.

 

 

publicado às 19:39


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