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The painful lesson of the Cherice Moralez rape trial

 

Women getting the blame for being raped is an old story, one that, incredibly, refuses to die. When this trope is applied to children one sees misogyny in its purest form, with its belief that 11-year-old girls lure helpless men on and deserve what they get. I wrote a few months ago about the Jeremy Forrest case, the teacher who was jailed for five-and-a-half years for child abduction and sexual activity with a child, and said the scary thing was not that he was a monster but how common he could be. But at least as scary is the eagerness of people in authority to absolve rapists, even when the victim later shoots herself in the head in her mother's bed. As Cherice Moralez's mother said in a written statement after the sentencing of her daughter's rapist: "I guess somehow it makes a rape more acceptable if you blame the victim, even if she was only 14."

 

 

Misoginia - as profissões exercidas, sobretudo [ainda] por homens estão cheias deste ódio pelas mulheres, ao ponto de culpá-las, mesmo que tenham 11 ou 14 anos, pelos crimes de violação de que são vítimas, mesmo se os criminosos são homens de  50 anos. Ou porque não se vestem de naneira apropriada [?? apropriada para quem e segundo quem?] ou porque parecem mais velhas do que são ou porque eles [homens] até 'gostariam de ter uma mulher que os quisesse violar'... isto passa-se nos países 'civilizados'.

 

O traço que separa a o machismo da misoginia é ténue. Como se vê no nosso próprio país, as duas bloquistas que quiseram lançar um debate sobre o piropo, essa 'tradição portuguesa', no dizer de muitos homens [como se fosse uma espécie de festa dos tabuleiros] têm sido alvo de ataques e troças típicas dum machismo expresso que tenta diminuir e tornar invisível os problemas através do sarcasmo, arma agressiva que vota ao desprezo, duma assentada, os alvos e os seus intentos.

 

Mesmo ontem li uma crónica a propósito do assunto (O Bloco já não é bom como o milho) em que o jornalista solta o pedreiro misógino/machista que há em si (o exempo é dele, não meu - que me desculpem todos os pedreiros que não são como este jornalista): em primeiro lugar reduz as deputadas Joanna Dias e Ana Drago a miúdas giras, gajas boas, ridiculariza toda a iniciativa (provavelmente está de acordo com aquele argumento de, 'tomara eu que me mandassem piropos'), depois, em sua opinião, as mulheres reduzem-se a duas categorias, as miúdas giras e as velhas com buço (tão machista e ordinário que aqui tenho vontade de o mandar para algum sítio mesmo mau) dando a entender que as mulheres, se não forem miúdas e giras deviam desaparecer do espaço público, para não ofender a sua vista - quem se julga este tipo?) e, finalmente, sai em defesa do pedreiro que há em si, pois qual é o mal destes dizerem às mulheres, 'és tão boa'.

 

Pois, se fossemos falar a sério neste assunto e dizer as coisas com as palavras todas, teríamos que dizer que a maior parte das palavras e atitudes que os homens consideram 'piropos' e com que assediam as mulheres desde os doze ou treze anos (ou até antes, quando a puberdade lhes muda o corpo- estando sozinhas ou em grupo, ou até com filhos pequenos a ouvir) são extramente ofensivas e ordinárias, ouvem-se sobretudo na rua (a maioria dos homens que gosta de mandar 'piropos' não têm imaginação e são muito ordinários), mas também na escola dos colegas rapazes (devem ter exemplos lá em casa parecidos a este jornalista), e até no trabalho. 

 

É claro que, na opinião deste jornalista, as mulheres que não ficam agradecidas com piropos devem ser velhas com buço que nunca ouviram um piropo daqueles à pedreiro ('és tão boa que te comia aqui', 'o que queria era enfiar o caralho aí dentro', 'anda cá chupa-me' e outras coisas piores que não vou enunciar, etc.) ou nunca tiveram um gajo qualquer a roçar-se nelas no metro, ou a segui-las até casa dizendo os tais 'piropos', ou outro a masturbar-se à sua frente num comboio ou no intervalo das aulas, ou segui-las até à casa de banho a dizer os tais piropos, ou tirar a pila para fora enquanto as miúdas esperam pelo autocarro ou até a dar-lhes palmadas como forma lisongeira de lhes dizer que são boas como o milho... ... e no trabalho também, há tipos que metem as mãos nos bolsos e se coçam ao pé das mulheres ou dizem alto e bom som, 'vem aí a gaja boa'... e outros mimos que não se percebe como é que as mulheres não gostam... num dia normal uma mulher, ou uma miúda a caminho da escola, pode ouvir e aturar estas coisas dez ou mais vezes, iato é, passar o dia a  ser bombardeada com estas merdas insuportáveis.

 

O ataque que andam a fazer às deputadas do BE por causa disto já me anda a irritar e, pessoalmente, penso que há muitos homens como este jornalista ordinário que, não fora o acaso de terem nascido do sexo masculino e com pele branca numa sociedade machista e misogina, onde um ror de homens 'não se vêem a si mesmos', não teriam onde cair mortos pois, nem dizem nada de interesse sobre coisa alguma que nos informe ou faça aprender seja o que for e mais, se os julgássemos com os critérios com que eles julgam as mulheres, desapareciam quase todos da vida pública, pois são poucos os miúdos giros, bons como o milho e muitos os velhos, os feiosos, carecas, pançudos, com pelos a sair do nariz e, pior que tudo, completamente desinteressantes.

 

Se eu acho que faz sentido um debate que faça com que os homens percebam a diferença entre piropos e ofensas? Ah pois acho! E a prova está nesta crónica ordinária que este indíviduo escreveu, muito ufano de si mesmo e dos seus dotes de pôr as mulheres no seu lugar...

 

Vocês homens que são pais e têm filhas pequenas, devem saber que 'piropos' as esperam.



publicado às 06:57


13 comentários

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De RAA a 04.09.2013 às 12:14

Só tenho acompanhado o debate praticamente pelos títulos (alguns textos também não merecem outra leitura) -- não por não me interessar directamente (tenho 3 filhas, criança, adolescente e adulta), mas talvez por causa do ruído em torno.

O piropo dos andaimes ou da porta da loja é abjecto (e criminoso, quando atirado a uma criança ou jovem). Aliás: piropo é uma palavra tão gira que nem devia ser aplicada nestas situações; preferia que se designasse por algo como "assédio verbal" ou coisa que o valha, pois
distingo a boçalidade que agride e traumatiza do flirt entre dois adultos, que por vezes pode nem dispensar o piropo.

(Acho que vou aproveitar o comentário para fazer um micropost :)
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De beatriz j a a 04.09.2013 às 12:24

Olá. Mas a questão é que o flirt entre dois adultos, que não só é consentido como desejado, por ambas as partes, é apenas uma pequena parte daquilo que em geral os homens consideram piropo e acham legítimo e lisonjeiro atirar às mulheres em qualquer circunstância.
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De beatriz j a a 04.09.2013 às 12:28

* adultos ou jovens pré-adultos, quer dizer, entre adolescentes.
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De RAA a 04.09.2013 às 14:30

Será assim tão em geral? Francamente não sei. No meu grupo de amigos, na adolescência, era considerado de mau tom, foleiro, mandar bocas às raparigas. Lá está: era atitude de "homem das obras", de camionista, passe o preconceito... Mas claro que isto é apenas uma aprte da realidade. Menos significativa do que a outra? Não faço ideia.
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De beatriz j a a 04.09.2013 às 14:57

RAA, vai desculpar-me mas não o incluo na categoria do 'homem em geral'. E, portanto, também as pessoas com quem se dava seriam semelhantes a si.
O que eu vejo é que neste últimos dias, tem sido normal os homens públicos (jornalistas e outros com responsabilidades públicas) troçaram das duas deputadas apelidando todo o assunto de ridículo, de tal modo que até um jornalista dum jornal com reputação não tem peias em escrever aquela crónica 'à pedreiro' num jornal nacional. É porque entende a sua posição como, 'normal', aceitável e adequeada.
Eu vejo entre os meus alunos muito machismo, que eles tentam disfarçar em minha/nossa frente mas que, sendo miúdos, não conseguem esconder completamente. Não é incomum uma rapariga começar a faltar às aulas e, depois, quando se vem a saber ao certo o que se passa, é que os rapazes as massacram. Por isso as miúdas nunca, mas nunca vão sozinhas à casa de banho, a não ser que não tenham ninguém para ir com elas...
Eu vivi em muitos sítios... em Lisboa, no Alentejo, em Bruxelas e agora em Setúbal. Vi isto em todos os sítios, nas zonas mais nobres como nas outras. A maneira de fazer as coisas é que é diferente, sendo que em determinados sítios os piropos e o assédio é mais subtil.
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De beatriz j a a 04.09.2013 às 15:16

Depois, em Portugal o ciúme é valorizado socialmente o que reforça o problema... no ano passdo, no Parlamento parisiense, uma deputada ouvir piropos ordinários e foi assobiada e insultada pelos homens por ter ido de saias... os homens deputados acharam que era uma provicação... ou seja, uma mulher num sítio de homens deve vestir-se como se fosse um homem e não com roupas de mulher, pois é estar a provocá-los...
A mim o problema parece-me geral.
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De RAA a 04.09.2013 às 15:22

Sim, há formas mais subtis. E quando falo no meu grupo de adolescentes, nem seria, em muitos casos, pelas razões mais elevadas que adoptávamos esse comportamento (não éramos, em geral, melhores que os ouitros), antes por um código de conduta, que nos degradava se o infingíssemos nesse sentido. Esta postura socialmente aceitável não excluía, por isso, comportamentos ou mentalidades machistas, porque machista foi a educação e a tradição que coube a muitos de nós, a mim incluído.
De qualquer modo, era impensável, para a generalidade de nós, proferir frases reles às passantes.
Educações antigas, de "cavalheirismo" que, como sabe, não deixam de ter também elas uma boa dose de machismo.
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De beatriz j a a 04.09.2013 às 15:28

É verdade isso que diz da educação ser uma educação machista. É isso que é difícil de mudar mas parece-me que discutir as questões em vez de silenciá-las, é uma boa maneira de despertar consciências, daí que me tenha irritado com toda esta troça e rebaixamento das deputadas.
O machismo, penso eu, também atinge os rapazes: não podem chorar em público, não podem ter sentimentos, têm um vestuário mais restritivo e apertado que as mulheres e nesse domínio quase tudo lhes é proibido, num conflito, assume-se que eles é que têm que dar o corpo ao manifesto, etc., etc., etc.
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De RAA a 04.09.2013 às 15:23

Isso que me diz do parlamento francês deixa-me atónito...
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De RAA a 04.09.2013 às 15:25

O ciúme é valorizado socialmente? Devo ser um ET (sem ironia); nunca isso me passou pela cabeça...
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De beatriz j a a 04.09.2013 às 15:32

Eu também não compreendo o ciúme que me parece um sentimento de propriedade deslocado, mas eu vejo nos amigos e nos alunos, sobretudo, que o ciúme é muito valorizado, por ambos os sexos.

Aquilo no Parlamento francês provocou uma grande discussão e algumas deputadas vieram a público dizer que o povo francês é mais machista que os outros e deram Portugal como um exemplo positivo no que respeita a falar-se abertamente de violência doméstica ao passo que por lá é assunto tabu que não aparece nos jornais.
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De RAA a 04.09.2013 às 16:36

Sim, o machismo atingiu muito os homens. Já ouvi uma mulher dizer que o séc. XX foi o da libertação masculina...

Ainda sobre o piropo: eu, e outros como eu, fomos educados para não sermos grosseiros com as raparigas. Palavrões era "coisa de homens"; daí que ainda hoje eu não suporte linguajar chulo na boca de uma mulher, ou já tenha posto miúdos na ordem por dizerem asneiras em frente a uma senhora que eu nem sequer conhecia...

Eu compreendo o ciúme, que tem que ver com a nossa insegurança; e, como sabe, é um sentimento (uma fraqueza...) que respeita a qualquer tipo de relação, não apenas a amorosa, e que muitas vezes está para além do racional, como algo que se impõe, independentemente da própria vontade. Eu sabia que ele era valorizado nos tempos do "Simplesmente Maria"; que o seja agora, e por jovens, parece-me inaudito.

Isso que me diz de França é curioso. Apesar de tudo acho que temos vindo a dar passos positivos, apesar da violência doméstica (para não falar noutros crimes), embora eu creia que há ainda muito caminho a percorrer.
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De beatriz j a a 04.09.2013 às 17:00

Também acho que se deram passos positivos mas gostava que pessoas que têm destaque em termos públicos fossem exemplos positivos em vez de negativos porque ainda há muito por fazer.

Nisso dos palavrões, infelizmente, em vez de tornarem-se excepção vulgarizaram-se e vê-se hoje em dia miúdas do 7º e 8º anos com uma linguagem muito ordinária. Acham tudo normal. Quando chamamos a atenção desculpam-se dizendo, 'ah eu não estava a dizer isto para si'... não percebem a ddiferença entre o espaço público e o privado...

O ciúme, palavra que tenho dificuldade em compreender. Sinto mágoa onde há confiança traída e afasto-me, mas não sei que tipo de sentimento é sentir ciúme, embora ouça os outros dizerem o que sentem nesses casos: raiva e coisas assim.

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