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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
"A Mente e o Cosmos". O autor, Thomas Nagel, um pensador filosófico muito respeitado no mundo académico - e, no das ciências também-, desde que o publicou já foi mais ofendido que o Judas Iscariotes. Todas as semanas saem cientistas a público, em artigos das revistas da especialidade e em grandes jornais a chamarem-lhe nomes: herege, besta... tudo e mais alguma coisa. E porquê? Porque ele ousou discutir e argumentar a sacrossanta teoria reducinista materialista que une, hoje em dia, a física, a química e a biologia evolucionista que os cientistas não admitem que ninguém discuta sob pena de serem logo apelidados de supersticiosos, pobres de espírito, etc.
Mas a mim agrada-me o que já li do livro. Talvez porque vem ao encontro daquilo que penso e sinto já há muito tempo. A vantagem, claro, é que ele dedicou tempo a ler, discutir, organizar e fundamentar as ideias sobre o assunto.
Estou a gostar do que leio.
Basicamente ele argumenta que a ciência não fechou a questão da origem da vida e muito menos, da consciência. A explicação que dá para essas questões -o aparecimento da vida foi o produto de processos químicos regidos pelas leis da física e a evolução posterior é devida a mutações químicas e à evolução natural, ambas consequências super-complexas de princípios mecânicos da física- implica já uma premissa teleológica (a física entrou no campo da história e quer ser uma teoria de tudo e do todo cronológico e pretende ter a chave da inteligibilidade do real), e é reducionista, sendo que as leis da física e da química não conseguem dar conta da complexidade da vida e do problema da consciência.
Para Thomas Nagel, a física, a química e a biologia evolucionista ultrapassaram o âmbito dos seus limites e estão agora como a religião: ambas teorias que pretendem explicar tudo, dogmaticamente acantonadas nos seus exércitos de seguidores, considerando hereges todas as vozes críticas e, diferindo apenas em que uma defende que a consciência deu origem à matéria e a tudo o resto e a outra, defendendo que a matéria deu origem a tudo o resto e à consciência.
Pois ele considera que nem a ciência nem a religião conseguiram fechar a questão e que há espaço para alternativas.
Pessoas, como ele, que não acreditam, nem gostam, da ideia de um Deus, mas que não aceitam, por isso, terem que ser materialistas. Então o livro, embora não diga o que poderá ser essa alternativa, argumenta no sentido de mostrar que ela existe e é uma possibilidade. Que é possível ter-se uma vida espiritual e não se ser materialista, não acreditar que tudo não passa de particulas físicas regidas por leis mecâncias e por processos químicos, sem que isso obrigue a ser teísta.
É isto que me agrada no livro: porque há muito tempo que me parece que a ciência, quando sai do campo da descrição e entra no da especulação sobre a origem do universo tem um discurso e uma postura muito parecida à do dogmatismo da religião. Não é por acaso que os próprios cientistas deram o nome de 'partícula de Deus' ao suposto bosão de Higgs, escrevem livros intitulados, 'a ciência prova que não há Deus' e não admitem nenhum tipo de discussão ou crítica às suas premissas.
Pois eu não sou materialista, muito menos reducionista, a aceito a dimensão espiritual da vida mas também não sou teísta, nem me agrada a ideia de um Deus como explicação.
Ora, como ele e como eu, deve haver uns muitos milhares de pessoas a quem a questão incomoda por ser tão importante e que também não aceitam a falsa dicotomia em que a puseram, de modo que, pela minha parte, vou ler o resto do livro, para avaliar a argumentação dele e ver se me posso encostar nela.
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