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Pobre classe média

por beatriz j a, em 03.02.13

 

 

 

Pobre classe média

por Martim Avillez Figueiredo

Existe uma discussão séria sobre a possibilidade de uma fatia da classe média portuguesa poder precipitar-se pelos degraus da escada social abaixo - isto porque a crise lhe dará esse terrível empurrão. Primeiro, porém, convém perceber de que pessoas é hoje feito o país. Números absolutos, já se sabe, não existem.

Portugal tem esta inquietante mania de não se medir e quantificar, pelo que os números são sempre duvidosos. Ainda assim, é possível traduzir deste modo (não científico, mas seguindo os escalões de rendimento definidos pelo fisco nacional) os 10 milhões que somos: cerca de 2 milhões vivem com pouco mais de 400 euros por mês. São os muito pobres, no extremo do mapa social - cerca de 700 mil famílias. Do outro lado, estão cerca de 500 mil portugueses que vivem com mais de 60 mil euros por ano - ou seja, 180 mil famílias. São os ricos. Sobram 100 mil (37 mil famílias) que vivem acima disso: os muito ricos, com mais de 150 mil euros por ano. Ou seja, pobres, ricos e muito ricos são menos de 1/3 da população.

Em Portugal, os ricos (como se percebe fazendo as contas) têm rendimentos mensais que não ultrapassam os 5000 euros brutos mensais - qualquer coisa como 3000 euros líquidos todos os meses. Com dois filhos na escola privada são 700 euros. Um empréstimo da casa (com juros baixos) cerca de 600 euros. Despesas correntes, como água e TV Cabo, uns 170 euros mensais. Um carro soma 300 euros mês. E nas despesas de alimentação é difícil uma família de 4 gastar menos de 800 euros mensais. Pois: sobram menos de 500 euros por mês, e ainda falta roupa, férias, médicos. 

Antes de respirar, veja-se então o que assusta os economistas: as classes médias. De acordo com esta divisão, são cerca de 2 milhões de famílias. E os seus vencimentos médios mensais (uns 1600 euros) não chegam para pagar sequer as despesas fixas básicas dos chamados ricos - portanto está-lhes vedada a educação privada, a compra de um carro e a compra de uma casa media... Ou então endividam-se. O que isto quer dizer é que a classe média portuguesa é muito pobre. E que os chamados ricos são aquilo que no resto da Europa é considerada a classe média. Todos eles dependem do emprego - e mesmo com emprego passam a vida a contar os tostões ou a trabalhar para pagar dívidas de férias baratas em Punta Cana. Dito de outro modo: o empobrecimento nacional significa que cerca de 3,5 milhões de famílias portuguesas vivem à beira do precipício social. O mais terrível é que é deles que depende a economia.

Martim Avillez Figueiredo

 

publicado às 09:07



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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