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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau

Acabo de receber no correio um cartão de Boas Festas da Chiado Editora completamente lindo. É da Unicef. Está cheio de estrelinhas coloridas e letras prateadas em várias línguas a fazerem círculos alegremente desencontrados.
Amanhã vou numa caminhadazinha fotográfica de manhãzinha, antes mesmo do sol nascer. Com o tempo que está o mais certo é ficarmos doentes... Espero que as fotografias, ao menos, fiquem decentes. Como gosto de ver o nascer do sol e de apanhar o frio da manhã na cara, vou com gosto. O campo de manhã tem uma energia e uma vitalidade que se pega. Mais a mais porque havemos de ir depois a Azeitão tomar o pequeno almoço, numa padaria/pastelaria que tem aquele cheiro delicioso de pão e bolos acabados de cozer ali mesmo. Ou a Sesimbra. Não posso comer coisas de trincar que hoje tive mais uma sessão de dentista, mas alguma coisa se há-de arranjar. Só espero que não chova.
primeiro...

a seguir...

Who has fully realized that history is not contained in thick books but lives in our very blood?
Carl Jung
Até onde devemos levar o pensamento crítico e onde devemos parar? Vem isto a propósito do vídeo de Philip K. Howard, Four Ways to Fix a Broken legal System. Assumindo que a análise que ele faz da sociedade actual é correcta vemos que quase todas as experiências de interacção social são hoje em dia 'proto-jurídicas'. Ir a um restaurante comemorar um aniversário pode resultar num processo legal, bastando para tanto que não se fique satisfeito com o serviço. Frequentar aulas ou fazer um exame já não é apenas uma uma experiência pedagógica porque tem uma carga jurídica muito grande. Ir ao hospital ou visitar um museu...enfim, qualquer interacção social está eivada de um potencial jurídico que não só complica desnecessariamente a vida como paralisia a acção. Este extremismo advém, por um lado da exaltação radical dos direitos individuais, por outro, da tentativa de racionalizar os processos retirando-lhes toda a subjectividade, o que faz com que a cada momento se visualizem opções de acção alternativas que cada um considera, ou não, mais eficientes, justas, igualitárias, etc. Daí a questão: até onde devemos levar o pensamento crítico? Pois, se sujeitarmos toda a acção a processos de depuração total de subjectividade não agimos, porque não é possível, nem desejável, eliminar toda a subjectividade. Isso seria regressar a uma vida instintiva sem liberdade de decisão.
Na realidade, o excesso de criticismo leva ao cepticismo e o cepticismo não é criativo, é destrutivo. Podemos sempre duvidar de tudo. Não há uma única ideia, afirmação que seja à prova de dúvida céptica e se vamos por aí teríamos que para cada ideia fornecer provas não subjectivas que por sua vez careceriam de provas e assim sucessivamente numa regressão infinita.
Temos de, por um lado impôr um limite ao pensamento crítico entendendo que a objectividade absoluta não existe, e por outro lado dar espaço ao pensamento intuitivo intelectual (não falo de intuições sensíveis ou impressões) que é aquele que se apura na interacção entre o pensamento e a experiência: aquilo que normalmente chamamos de sabedoria.
A ideia de Wittgenstein segundo a qual se devia reduzir a semântica à sintaxe para que o discurso fosse tão objectivo e únivoco que não pudesse dar azo a mal entendidos é empobrecedora, como se vê pelo declínio da educação e da vida cultural em geral. A semântica é o que enriquece a linguagem. É por isso que é tão difícil de traduzir poesia e que é necessário encontrar alguém que, para além do conhecimento das regras da sintaxe, seja também um conhecedor da vida, porque a tradução implica uma escolha em liberdade do sentido que mais se poderá aproximar daquilo que o autor queria transmitir. Ora, isso obriga a uma escolha, que tendo por base conhecimentos de língua é, em última análise, intuitiva. Também na vida em geral, e apesar das interacções sociais não serem da ordem da poesia, há uma margem de decisão que se aproveita da sabedoria em que a experiência transformou os conhecimentos.
Nesse sentido estou de acordo em que é necessário confiar que um professor, por exemplo, saiba o que está a fazer quando toma certas medidas e que não se pode querer que disseque todas as medidas, todas as palavras em esquemas e organigramas objectivos, pois isso desvirtua o processo pedagógico. Quem diz o professor, diz o juíz ou o médico ou o chefe cozinheiro. Daí não se segue que devemos abolir o juízo crítico, pelo contrário, mantemos o pensamento crítico vigilante para que os processos intuitivos não se transformem em arbitrariedades subjectivas, mas usamos o pensamento crítico como instrumento e não como fim da acção. Do mesmo modo que uma pessoa toma precauções antes de ir fazer alpinismo, para reduzir as possibilidades de acidente, mas não leva os cuidados até ao ponto de querer evitar em absoluto qualquer acidente porque isso não é possível e para o fazer a única acção possível é não ir.
Este querer objectividade absoluta, que na educação tem desvirtuado todo o ensino como se vê pelos exames que cada vez mais se resumem a escolhas múltiplas numa tentativa de eliminar a subjectividade da avaliação dos professores, destruiu o próprio ensino, porque eliminou a sua maior riqueza que é justamente a 'sabedoria', entenda-se, os anos de saber e experiência acumulados que os professores usam para estimular e desenvolver todo o potencial dos alunos. Sim, porque 'ver' num aluno um potencial de capacidade artística ou científica ou ainda 'vêr' que este aluno se motivará com uma repreensão que apela ao brio, e aquele outro com uma recompensa que instile confiança, é sobretudo uma questão intuitiva que advém de anos e anos de lidar com pessoas duma certa faixa etária numa determinada situação de aprendizagem. Nenhum processo crítico de objectivação poderá substituir essa 'sabedoria'.
Era necessário termos nos cargos pessoas capazes de reflexão, que não fossem atrás de qualquer ideia só porque é moda e os outros também fazem.
Desde o Platão que isto se sabe: o pensamento crítico, racional dialéctico é fundamental como instrumento, mas é mecânico: A intuição precisa dele para não ser arbitrária, mas ultrapassa-o em 'sabedoria', em criatividade, em fecundidade e riqueza, em inteligência. A inteligência nas interacções sociais, tem a ver com essa 'sabedoria' e não com a repetição mecância de processos. Qualquer bom vendedor de carros sabe isto. Mais, qualquer dono de stand de automóveis sabe isto e confia nos seus vendedores, dá-lhes espaço para desenvolverem as suas técnicas e aperfeiçoarem a sua 'sabedoria' sem tentar impôr uma única maneira de vender os carros. Porque, parte desta arte é ciência e aprende-se em técnicas de persuasão, estatísticas de venda, público-alvo, etc., mas outra parte, aquela que distingue o bom do excelente vendedor, é intuitiva e resulta de uma 'sabedoria' acumulada pela experiência e afinada pela inteligência livre.

REENCONTRO
Estou rodeado de mortes.
Defuntos caminham comigo na saída do cinema.
São muitos,
sinto a presença activa das magnólias
queimando em seu próprio aroma.
Os mortos acomodam-se a meu lado
como numa fotografia.
Ajeitam o paletó, a gola da blusa
e parecem alegres.
São gente amiga
com saudade de mim
(suponho)
e que voltam de momentos intensamente vivídos.
Tentam falar e falta-lhes a voz,
tentam abraçar-me
e os braços se diluem no abraço.
fitam-me nos olhos cheios de afeto.
Ah quanto tempo perdemos,
quanta desnecessária discórdia,
penso pensar.
É isto que me parecem dizer seus esplendentes rostos
neste entardecer de Janeiro.
(Ferreira Gular)

Estou a ler With Napoleon In Russia, diário do tenente H. A. Vossler do exército de Napoleão em 1812-1813. O livro é o diário de guerra dele, um alemão da Baviera, e é muito interessante porque ele vai tecendo considerações sobre os sítios, as pessoas, as culturas com que contactam, para além de relatar a ofensiva pelo lado do Napoleão. Vou na parte em que o exército já atravessou parte grande da Polónia, país que o escandaliza pelo nível de pobreza e incivilidade geral do povo que ele compara com a riqueza e grau de civilização do seu. Escandaliza-o sobretudo o luxo em que vivem uns quantos senhores condes nas vilas por que passam, mesmo ao lado das populações que vivem em pocilgas. Classifica-os de pouco éticos. Mas enfim...o que queria dizer é que no prefácio o autor conta que o pai tinha intenção de o mandar para a Universidade, mas que um ano antes da idade de entrar o rei Frederico II decretou que apenas os funcionários públicos que usassem a sua cota de armas poderiam estudar sem uma permissão especial. Como o pai era Pastor Protestante não tinha este privilégio, e como ainda por cima tinha feito críticas ao rei, não lhe concederam autorização para entrar para a Universidade. É nestas coisas que se sente o benefício das democracias e que se vê como a educação é um bem, coisa que hoje em dia os alunos não têm noção. Se estudassem História saberiam muita coisa sobre o difícil que foi conquistar certos direitos.
apenas...
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O melhor: Não haver toque de entrada. Dormir até apetecer. Levantar à hora que apetecer.
O pior: o trabalho de preparar o segundo período: planos, fichas, etc.
Dois que gostei muito:
Azincourt de Bernard Cornwell - novela histórica da famosa batalha.
Agenda de 2011 da Imprensa Nacional Casa da Moeda, desta vez com o tema da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Vem ilustrada com desenhos do arquitecto Carlos Marreiros e o trabalho do designer Henrique Cayette. É linda, e rica no conteúdo, como sempre.
Nós os três portugueses, como não tínhamos veniaga em que nos ocupássemos, gastávamos o tempo em pescar e caçar, e ver templos dos seus pagodes que eram de muita majestade e riqueza, nos quais os bonzos, que são os seus sacerdotes, nos fasiam muito gasalhado, porque toda a gente do Japão é naturalmente muito bem inclinada e conversadora. No meio desta nossa ociosidade, um dos três que éramos, de nome Diogo Zeimoto, tomava algumas vezes por passatempo atirar com uma espingarda que tinha de seu, a que era muito inclinado, e na qual era assaz destro. E acertando um dia de ir ter a um paul onde havia grande soma de aves de toda a sorte, matou nele com a munição, umas vinte e seis marrecas. (Peregrinação)

Ontem ao jantar alguém da família contava-me que tinha comido uma picanha Kobe no Olivier e que era bestial e tal e perguntava-me se eu já tinha experimentado. 'Então não? A minha experiência nesse campo é alargadíssima. Todos os computadores, TVs e leitores de DVD da minha escola são Kobe. Só trabalham se os massajarmos e falarmos em voz doce com festinhas para os acalmarmos. O choque tecnológico na minha escola é todo Kobe!. Um verdadeiro luxo!'
Ter um bom discernimento é uma virtude rara, mas mesmo assim não deixo de ficar espantada de ver a quantidade de vezes em que as pessoas confundem as causas com as consequências. Há bocado estive a ver um vídeo onde um indivíduo (Philip K. Howard, em Four Ways to Fix a Broken legal System) faz um diagnóstico da situação actual no que respeita à justiça e à influência/peso negativo que tem nas nossas vidas. Fala nas escolas: como a autoridade pedagógica do professor está minada pelas ameaças de processos em tribunal e de como a lei é tão confusa que paralisia a acção. Também nos hospitais os médicos hesitam em tratar os doentes e até em falar com eles por medo de queixas jurídicas e processos. Enfim, de como a vida está paralisada por excesso de legislação e peso excessivo das leis na nossa vida. Até para criar um pequeno negócio são precisos advogados para lidar com tanta burocracia legal.
Nisto tudo ele tem razão, mas depois entende que a complexidade das leis é a causa da complexidade das nossas vidas e que o remédio é voltarmos a confiar uns nos outtros e termos menos pensamento e mais intuição. Confunde causas e consequências. Na realidade, a complexidade das leis é que é consequência da complexidade a que as sociedades actuais chegaram e não o oposto, e por isso o remédio não é voltar atrás, porque isso é impossível. Aliás, é uma falsa dicotomia pensar desta maneira: ou acreditamos uns nos outros e deixamo-nos levar pela experiência e instintos e abolimos os processos críticos intelectuais, ou, em alternativa, somos hiper-críticos, não confiamos em nada nem ninguém e vivemos enredados nesta prisão de legislação. Como se não fosse possível, e de longe muito mais desejável, manter o espírito crítico alerta sem com isso deitar para o lixo a experiência e o bom senso. É claro que é muito mais díficil tentar este equilíbrio do que cair na tentação destes extremos.
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1. Pior presente que se pode receber: um igual ao do ano passado.
2. Melhor presente que se pode receber: disponibilidade.
3. Melhor cor de Natal: encarnada.
4. Pior cor de Natal: cor de rosa.
5. Melhor doce de natal: rabanadas.
6. Pior doce de Natal: tronco de chocolate.
7. Melhor coisa: os amigos.
8. Pior coisa: os não amigos.
9. Prova mais flagrante da não existência de Deus: o chocolate engorda.
10. Prova mais flagrante da existência de Deus: o chocolate existe.
11. Atmosfera de Natal mais bonita: neve por fora, calor por dentro.
12. Atmosfera de Natal mais feia: calor por fora, neve por dentro.
13. Melhor canção de Natal: Adeste Fideles
14. Melhor refeição de Natal: bacalhau com batatas e couve.
15. O melhor da decoração de Natal: anjinhos musicais.
16. O pior da decoração de Natal: grinaldas douradas brilhantes por todo o lado.
17. O melhor conto de Natal: a história do nascimento de Jesus.
18. O pior conto de Natal: a história do S. Nicolau.
19. O melhor ruído de Natal: o ruído dos guizos do trenó do Pai Natal.
20. O pior ruído de Natal: a voz do Pai Natal, óh, óh, óh
que voz tão doce ( a da Joni Mitchell lá atrás também)
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