Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]





Como os outros podem servir-nos de espelho

por beatriz j a, em 05.09.12

 

 

 

 

Como as acções dos governantes comprometem os países, por vezes para séculos, de dependência e pobreza.

 

 

All the Shah's Men: An American Coup and the Roots of Middle East Terror
...
Como Nasir al-Din Shah, rei do Irão entre 17 de Setembro de 1848 e 1 deMaio de 1896 vendeu concessões dos mercados e indústrias do Irão a coorporações e governos estrangeiros para suportar o seu extravagante estilo de vida, o que culminou na revolta do tabaco.
.
"Os oficiais britânicos, preocupados com as revoltas dos nativos na Índia, queriam uma linha de telégrafo nos postos de comando. Em 1857 compraram uma concessão para construir uma linha através do Irão. Franceses, alemães e austríacos compraram uma variedade de outras concessões. Um inglês de origem germância, o Barão Julius de Reuter, da famosa agência de notícias, ganhou a mais valiosa de todas. Em 1872, por uma soma calada e uma promessa de futuras 'royalties' comprou os direitos exclusivos de gestão das indústrias do país, da irrigação dos campos, da exploração dos recursos minerais, do desenvolvimento das linhas de caminho de ferro e das estradas, da banca nacional e, até, da impressão de dinheiro. Lord Curzon descreveu isto como 'a maior e mais completa, rendição da totalidade dos recursos industriais de um país nas mãos de um país estrangeiro, muito para além de qualquer sonho imaginado e, muito menos realizado, na História...'
.

Os patriotas iranianos ficaram, naturalmente, indignados. Tal como os mercadores e homens de negócios que viram as suas oportunidades serem-lhes roubadas, de repente. Os clérigos temeram pelo seu estatuto num país tão dominado por interesses estrangeiros. A Rússia, o vizinho mais poderoso do Irão, alarmou-se ao ver um britânico com tanto poder ali mesmo ao pé da sua fronteira. Até o governo britâncio, não tido nem achado neste negócio de Reuter, duvidou da sua sabedoria. Finalmente, Nasir al-Din Shah percebeu que tinha ultrapassado os limites do possivel e revogou a concessão menos de um ano depois de a conceder...

.

Nos anos que se seguiram vendeu três concessões a consórcios britâncios. Um comprou os direitos de prospecção de minério que tinham pertencido brevemente a Reuter, outro o direito exclusivo de estabelecer bancos e o terceiro o direito exclusivo de fazer comércio ao longo do rio Karun, o único navegável no Irão. A Rússia protestou mas calou-se quando o Xá lhes vendeu os direitos exclusivos da pesca de esturjão e comércio de caviar. Através destas e outras concessões todos os recursos do país foram passados para as mãos de estrangeiros. O dinheiro que chegava aos cofres do Irão serviam para sustentar a luxuosa corte do Xá. Quando gastou todo o dinheiro pediu um empréstimo a bancos britânicos e russos...

.

Isolado na sua corte vivia à margem do crescente descontentamento. Em 1891 vendeu a indústria tabaqueira aos ingleses. Segundo os termos da concessão, todo o agricultor que cultivasse tabaco tinha que o vender à British Imperial Tobacco Company e, cada fumador tinha que comprar o seu tabaco numa loja da rede de lojas do Comércio Imperial Britânico.

Já naquela altura, como hoje, o Irão era um país de agricultores e fumadores. Por todo o país, milhares de agricultores pobres cultivavam tabaco em pequenas parcelas; toda uma classe de intermediários cortavam, secavam, embalavam e distribuíam o tabaco. E milhares fumavam-no. Que este produto nativo fosse tirado ao povo que o produzia  e fosse transformado num instrumento para exclusivo lucro de estrangeiros foi tido como um grande insulto. Uma coligação de intelectuais, agricultores, mercadores e clérigos como nunca se tinha visto no Irão, resolveu resisitir. O líder religioso do país, Sheik Shirazi, apoiou o protesto e, num acto de rebelião, apoiou uma 'fatwa', uma ordem religiosa, declarando que, enquanto os estrangeiros dominassem a indústria do tabaco, fumar constituiria um desafio ao 12º Iman, "que Deus apresse a sua vinda". As notícias desta ordem rapidamente se espalharam pelo país, através do telégrafo britânico construído umas décadas antes. Praticamente todos obedeceram. Nasir al-Din Shah ficou surpreendido e, depois, assustado, com a unanimidade do protesto. Até as suas mulheres deixaram de fumar. Não teve outra hipótese senão revogar a concessão. Para piorar esta indignidade teve que pedir emprestado meio milhão de libras dum banco inglês para compensar o Império Britânico pelas suas perdas...

.

Cada vez mais distante do povo e da própria realidade, Nasir al-Din Shah acabou por ser assassinado. Sucedeu-lhe seu filho que embarcou numa vigem pela Europa com dinheiro que pediu emprestado a um banco russo... (em delancey.com) 

 

É difícil não fazer comparações com a nossa situação de há dois séculos para cá, com alguns intervalos de excepção. Também nós, nestes últimos vinte anos, aceitámos destruir a indústria e a agricultura e estamos obrigados a comprar alimentos e outros produtos a países estrangeiros. A Grécia já nem os portos nacionais tem e já lhes foi sugerido, como a nós, que vendessem território nacional. E continuamos nesta senda dos governantes hipotecarem os países e depois cortarem em serviços fundamentais e empobrecerem as pessoas para pagarem os seus erros políticos e as suas vidas de deslumbramento.



publicado às 12:48


Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.



Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D


subscrever feeds


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Edicoespqp.blogs.sapo.pt statistics