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A Educação e o poder IV

por beatriz j a, em 08.02.09

 

(continuação)

 

A segunda traição aos ideais da educação incritos na Constituição veio com a Ana Benavente. Eu chamo traição porque, no essencial, trata-se de um embuste aos alunos, aos pais, à sociedade em geral. No fim dos anos noventa, início de 2000, o discurso tinha avançado. Aos argumentos da auto-confiança que faziam moda (veja-se os livros de Daniel Sampaio, Inventem-se Novos Pais e Ninguém Morre Sozinho, etc.) juntavam-se agora outros, porque a estratégia de passar todos os alunos, se bem que tivesse alterado o número de alfabetizados e o grau da alfabetização, não tinha sido acompanhado por um real progresso nos saberes, como mostravam os relatórios internacionais que continuavam a pôr-nos na cauda.

Para além disso, as turmas cheias de alunos que sabiam que passariam de uma maneira ou de outra fizeram disparar, em flecha, os casos de indisciplina nas escolas. Professores cheios de turmas e turmas cheias de alunos...o controlo é difícil. Que pensaram as 'mentes brilhantes' da educação? Bem, se os alunos estivessem satisfeitos nas aulas não se portavam mal. Ora, quando é que os alunos estão satisfeitos, perguntaram? Quando jogam, quando vêem filmes, quando realizam tarefas que conseguem fazer. Resultado, o aluno deve 'aprender a aprender', o professor deve dar prazer aos alunos, os alunos devem ver as tarefas transformadas em actividades lúdicas, de preferência em grupo, para consolidarem laços de afecto. Por todo o lado proliferava este discurso - veja-se, www.prof2000.pt/prof2000/agora3/agora3_3.html  e www.prof2000.pt/prof2000/agora2/agora2_4.html, por exemplo.

Os alunos e os pais, que por esta altura já pensavam serem excelentes, acrescentaram a isso um novo discurso: o de gostarem, ou não, das aulas, dependendo de estas proporcionarem, ou não, prazer. Tornou-se rotina (ainda é) os alunos dizerem aos professores que acham as equações, ou a geografia ou outra coisa qualquer, uma seca. Os pais vão de propósito à escola dizer ao Director de Turma que os filhos não gostam desta ou daquela disciplina. Como não se elevou a qualidade dos conhecimentos dos alunos eles continuaram com a mesma atitude face ao saber, só que agora, sem consciência da sua ignorância.

A juntar a isto dizia-se, por exemplo, "A diversidade dos sistemas de educação e de formação dos Estados membros é considerável mas, quaisquer que sejam os objectivos mais gerais perseguidos em matéria de desenvolvimento pessoal, social e cultural dos cidadãos, a adaptação das formações às exigências dos novos empregos, é uma preocupação comum". Esta afirmação parece-nos ser de uma evidência inquestionável. Na verdade, o objectivo primeiro de todas as reformas dos sistemas de ensino em curso, na Bélgica, no Reino Unido, em França consiste em adaptar estes sistemas às "exigências" da "nova economia". "Economies are evolving rapidly and to remain competitive, Europe needs that its humain resources are equipped for the "challenge", diz a Comissão Europeia.

 

Ou seja, o ensino deve confinar-se à aprendizagem de competências, nomeadamente aquelas que servem os interesses económicos.

Dizia-se publicamente que os professores tinham de acompanhar todas as nuances da sociedade e do mercado e variar os currículos ao sabor dos interesses do mercado. Se o mercado precisava de jardineiros, abriam-se cursos de jardinagem; se precisava de electricistas, abriam-se cursos de electricistas, e por aí fora. Isso deu origem a professores sem o que fazer nas escolas, pois de dois em dois anos mudavam-se os cursos, apareciam cadeiras completamente novas que ao fim de dois anos eram extintas para dar lugar a outras. Esses professores sem alunos foram, quase todos, para os Conselhos Directivos e cargos satélites, para não irem para o desemprego... ainda lá estão....

Encheram-se os currículos com actividades, áreas disciplinares inúteis, apenas com a intenção de os fazer sentir bem na escola. Os professores foram desincentivados de prosseguirem actividades intelectuais ou de serem exigentes. O que interessava, e não mudou, é que produzisse muitos projectos com alunos onde estes desenvolvessem competências.

Todos os alunos sabem usar um computador mas só gostam de procurar imagens. Lidam mal com o texto. Estão desabituados de ler textos, perderam o contacto com os grandes escritores portugueses, que não fazem parte do ensino de competências - afinal, quem é que precisade aprender o Camões ou o Júlio Diniz para saber passar um cheque ou preencher um pedido de crédito?

Esta mentalidade alastrou até à filosofia. Até aí se começou a defender que o importante era aprender apenas a lógica porque de nada adiantava os alunos contactarem com o pensamento dos grandes filósofos, que isso nada lhes acrescentava(!).

A ideia de que não é possível aprender a pensar com os pensadores e que se deve escolher, ou ensinar o pensamento ou ensinar a pensar é, no mínimo, estranha, mas é muito defendida.

Tudo isto, como sabemos, não resultou e continuamos a ter péssimos resultados no PISA e outros relatórios internacionais.

Na realidade, neste últimos quinze anos, as políticas para a educação parecem ter sido tiradas dum livro de receitas intitulado, O Que Nunca se Deve Fazer em Educação.

O que é triste é sabermos que os pais e os alunos não compreendem que estão a ser traídos, tratados como seres inferiores em quem não vale a pena apostar, basta fazerem umas actividades e responderem a umas questões menores em exames também sem seriedade porque ninguém está à espera de grande coisa. Os alunos saem todos da escola com certificados, mas sem estar preparados, nem para tirar bicas num café. Cada vez menos a escola pode ser um meio de um aluno progredir na sua qualidade de vida. Por muito bom que seja, tem tantos obstáculos a ultrapassar, com estes governantes, especialistas em estupidificar alunos com o pretexto de lhes falicitar a vida.

É uma enorme falta de respeito pela pessoa humana: todos os anos tenho bons alunos. Com alguma frequência tenho alunos excepcionais, do ponto de vista da inteligência, curiosidade, determinação e outras qualidades, e cada vez mais os vejo a lutar contra a tendência de mediocridade que o ministério imprimiu à escola pública.

Tínhamos excelentes professores no meio destes milhares. Cada vez temos menos: não são apreciados, porque não entram neste jogo de fingir que a mediocridade é coisa boa.

 Não preciso de dizer o que esta ministra actual fez: arranjou modo de afastar e desautorizar esses mesmos professores que não querem a mediocridade e não querem ser co-responsáveis pela degradação da escola pública, pelo embuste da 'educação de excelência' e outras mentiras que todos, mas todos, os dias, se dizem aos alunos e pais deste país.

 

 

 

 

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publicado às 23:19



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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