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A Educação e o poder III

por beatriz j a, em 08.02.09

 

 

Muitos dos problemas que agora enfrentamos, nomeadamente quanto ao impacto que a ciência tem na educação e na sociedade, foram antevistos por Bertrand Russel e podem ler-se neste pequeno grande livro (à venda na Amazon uk) publicado pela primeira vez em 1931(!).

 

A engenharia social, que também é prevista nesta obra, tem produzido, através da educação, germes de pobreza. Já toda a gente percebeu que as políticas educativas adoptadas resultaram em fracasso - por toda a Europa o ensino está em crise. O facto de se notar menos noutros países deve-se apenas a serem países muito mais ricos e com tradição de investir em sistemas sociais de suporte que ajudam as populações em épocas de dificuldade, coisa que cá não existe.

Em Portugal, as políticas de engenharia social desastrosa começaram ainda no governo de Cavaco Silva, com o ministro Roberto Carneiro.

Naquela época as teorias sobre o 'efeito de Pigmaleão', que lidam com a relação entre expectativas e formação do auto-conceito,  dominavam os teóricos da educação.

As intenções eram boas, penso. Queria-se pôr Portugal ao nível dos outros países europeus. Os outros países levavam um grande avanço em termos económicos, e pensava-se que um dos factores desse avanço tinha a ver com o nível de instrução do povo (o que, se calhar, está correcto). Então, pensou-se que era preciso aumentar o nível de formação académica dos portugueses até alcançar o nível europeu. Sabia-se, claro, que a maioria dos portugueses ainda eram quase analfabetos. A solução parecia estar no 'efeito de Pigmaleão' que, como todos sabem, diz mais ou menos o seguinte: se a pessoa sente que as expectativas dos outros relativamente a si própria são elevadas, isso aumenta a confiança em si própria (auto-conceito) e serve de motor extraordinário ao seu sucesso, progresso e desenvolvimento. Sebe-se que, quanto mais elevado é o nível académico dos pais, maiores são as expectativas que têm em relação aos filhos, o que afecta positivamente os resultados destes.

Na década de 90 decidiu-se aplicar esta teoria ao povo, através da educação. Queria-se que aquela geração de alunos viesse a ser a primeira geração de pais com expectativas elevadas e positivas para os filhos. Mas, como pôr milhares de alunos a progredir, com pais analfabetos e social e culturamente ignorantes? Bem, arranja-se modo de pôr os professores a substituir os pais na tarefa. Os professores devem mostrar aos alunos que têm expectativas positivas em relação a eles e, claro, devem agir de acordo com essas expectativas, isto é, passá-los de ano, para que ganhem confiança neles próprios e se motivem. Palavras como 'chumbar' tornaram-se proibidas - nada podia ter um cunho negativo que afectasse a auto-confiança dos alunos.

Quem estava nas escolas nos anos noventa sabe os problemas que isso originou. De repente os conselhos de turma tinham um clima de guerra civil. A maior parte dos professores assumiu de imediato as ordens e nunca mais deu uma classificação negativa a um aluno que fosse. Mesmo para os que tinham um comportamento péssimo se encontrava uma justificação para manter as expectativas positivas. Estava na moda realçar que o aluno tal e tal era filho de pais divorciados e que esse facto, só por si, devia levar-nos a ajudá-lo, para ele ter muita confiança e motivação....Era raro o conselho de turma do básico que decorria sem discussões, notas votadas, queixas de alunos sobre professores que não davam positivas a todos, etc. Frequentemente saiam professores a chorar das reuniões, tal era a pressão. Isso alastrou ao secundário. O inspector (a quem chamávamos o Toyota - porque veio para ficar...) fazia ameaças, lia as actas e éramos quase obrigados a justificar, em acta, toda e qualquer negativa que déssemos, sob pena de sermos chamados ao 'chefe' e ter de dar explicações.

É claro que muitos de nós, que não tínhamos medo de inspectores e que não aceitávamos a teoria miserabilista que entendia que mais valia atirar positivas para os alunos do que lutar para que desenvolvessem as suas capacidades (esta palavra tornou-se, praticamente, proibida, e desapareceu das planificações, por ordem superior, literalmente) e pudessem, mais tarde, lutar em pé de igualdade com aqueles que, efectivamente, tinham a sorte de ter nascido no lado certo da vida, vimos bem o princípio do desastre.

Este súbito sucesso dos alunos portugueses teve de imediato um efeito colateral: os próprios, agora cheios de auto-confiança, chegavam ao 10º ano, com notas de 4 e 5 e pensavam, sinceramente, ser excelentes alunos. Os pais também, de modo que, nos anos seguintes, houve uma subida exponencial de queixas sobre professores como nunca visto. Oa alunos não compreendiam que, tendo tantas positivas e notas excelentes, não conseguissem depois tirar uma única positiva a partir do 10º ano. Os pais também não percebiam. Turmas inteiras de excelentes notas a tirar negativa. É que no secundário, não sendo o ensino obrigatório, os professores resistiam mais à cena de passar tudo de qualquer maneira. O 10º ano era o ano em que a taxa de retenção era maior, mas de longe. A quantidade de recursos para subir as notas, nessa altura, era impressioanante e os argumentos eram quase sempre os mesmos: o meu filho/a sempre teve 4s e 5s.  Se, agora no 10º ano, tem negativas, a culpa, e erro, é do professor/a que as dá e não dos outros todos para trás que o avaliaram. É claro que, rapidamente, os professores do secundário seguiram os passos dos do básico para evitarem certo tipo de complicações.

Esta foi a primeira machadada na qualidade do ensino e, em meu entender, a primeira traição ao ideal inscrito na Constituição da república de democratizar a sociedade pelo acesso à educação. Na realidade, os alunos deixaram (nas escolas públicas, porque nas outras não se entrou por estes estúpidos caminhos) de ter acesso à educação, à formação como meio de desenvolverem as suas qualidades e potencialidades: têm direito ao certificado de frequência. Mas, desde esse tempo até hoje, onde já nem os próprios alunos, nem mais ninguém, dá crédito ao certificado do ensino secundário ainda se reforçaram estes erros, com outros.

A segunda etapa desta traiçao fica para outro dia.

 

(a continuar)

 

 

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publicado às 13:51



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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