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A Educação e o poder II

por beatriz j a, em 06.02.09

 

 

(continuação)

 

«Também sei que poderão passar-se vários séculos antes que se tenham deduzido desses Princípios todas as verdades, porque a maior parte das que faltam encontrar dependem de algumas experiências particulares, que se não descobrirão por acaso, mas que devem ser procuradas com cuidado e esforço por homens extremamente inteligentes.»

 

Estas palavras de Descartes, no século XVII, profetizavam a fecundidade do método científico na matematização do real. Estava ele certo, pois o sucesso foi tão grande, nomeadamente na produção de tecnologia, que a certa altura se pensou ser a ciência o único conhecimento válido, ser o cientista o único produtor de verdades e ser o ponto de vista desta ciência matematizada o único fiável e de rigor.

Assistimos a um crescendo da influência da ciência, desde logo nos currícula ainda no século XIX, onde o estudo das humanidades vai sendo, aos poucos, substitído pelo das ciências. Não é acompanhado, é substituído. De repente, a sabedoria, os pensamentos e a visão dos mestres do passado já nada valiam, ou melhor, já não era necessários, porque tínhamos essa ferramenta extraordinária - o método científico - que nos irira pôr a pensar cientificamente, logo verdadeiramente.

Mesmo agora, neste século XXI, quando nos meios académicos superiores, já há muito tempo (décadas) se compreendeu o erro desta visão redutora do mundo e do homem, ainda continuam alguns a querer reduzir o ensino a técnicas lógico-matemático-científicas, com o argumento de que, se aprendermos a pensar lógica-critica-cientificamente estamos garantidos e de nada mais precisamos, como se a aprendizagem das técnicas, por si só, desse origem à produção de conteúdos. Todo o licenciado em Ciências seria inventor, o licenciado em Matemáticas seria matemático, o licenciado em História, historiador e o licenciado em filosofia, Filósofo.

Esta decadência no estudo das humanidades e das artes foi,e continua a ser, desastrosa.

A penetração do ponto de vista científico-matemático a toda a sociedade desta forma monopolizadora produziu uma nova visão do Homem como ser meramente biológico, cujo comportamento obecede a processos de mecânica genética e química, independentes da sua vontade e explicáveis em termos científicos-probabilísticos. A influência destas visões (a teoria de John Nash,desde logo) na economia levou à desresponsabilização dos políticos (indivíduos sem a perspectiva do todo que se ganha no contacto com os grandes espíritos da história da humanidade e, por isso mesmo, com fé cega na ciência), doravante na mão dos 'especialistas' da economia, esses gurus armados de dados probabilisticos e tecnologia a condizer:que o homem vem 'armado', biologicamente, para prover à subsistência do seu grupo,e que isso é tão cientificamente verdade que o melhor é não intervir e deixar que o 'mercado' se regule sozinho, através destas dinâmicas de genética social.

Pergunto eu, já algum desses gurus da economia terá convencido Obama, com 'verdades' tiradas da probabilidade matemática,que é melhor tortutrar uns quantos se isso salvar muitos mais? Será por isso que assinou, traíndo as suas declarações, os seus ideais e, sobretudo, a fé de quem nele votou, um documento autorizando a continuação de raptos e tortura em países terceiros?

A verdade é que os políticos, sem formação e sem ideais de espécie nenhuma, nem políticos, nem morais, nem estéticos, deixados sozinhos com o poder nas mãos começam a trabalhar para si próprios, pensando, aliás, ser isso muito justo, pois vêem-se como superiores - assumem que toda a gente quer cargos de poder e, por isso, os que os conseguiram (eles próprios) devem ter mérito superior.  Com esta convicção se tornam traidores.

O alargamento desta (falsa) lógica à educação,nos países em que foi experimentada, tem dado os piores resultados, desde o alargamento do fosso entre pobres e ricos à quase estagnação da mobilidade social, ponto nevrálgico das democracias.

 

(a continuar)

 

 

 

 

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publicado às 23:01



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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