Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]





A educação e o poder I

por beatriz j a, em 05.02.09

 

 

   Estava a reler, mais ou menos ao acaso, páginas das Meditações de Marco Aurélio, na edição da Folio (www.foliosociety.com/) - essa mesma que se vê na imagem - quando deparei com esta ( nº 45 ):

 

  What follows is ever closely linked to what precedes; it is not a procession of isolated events, merely obeying the laws of sequence, but a rational continuity. Moreover, just as the things already in existence are all harmoniously co-ordinated, things in the act of coming into existence exhibit the same marvel of concatenation, rather than simply the bare fact of sucession.

 

Que a realidade seja mais que uma sequência mecânica de eventos isolados, antes apresente uma continuidade racional, lógica, é algo que faz pensar no problema da civilização, da cultura e da educação, em Portugal e no mundo. 

Na Europa, os ideais da Revolução Francesa e da filosofia das Luzes de liberdade, igualdade, fraternidade, emancipação pela razão e, mais tarde, de democratização pela educação, estão por um fio.  Depois do Socialismo ter deixado exangues sociedades inteiras, mostrando não conseguir atingir esses ideais, é a vez do Capitalismo, regressado aos tempos descontrolados do século XIX, mas já sem o optimismo ignorante e ingénuo de então, se preparar para destruir aquilo que fez da civilização europeia, nestes últimos cinquenta anos, uma espécie de eldorado para o resto do mundo.

Os ideais de justiça social pela distribuição da riqueza, co-responsabilização do povo na res pública através do pagamento de impostos e da generalização da educação com vista ao melhoramento do Homem, que estivémos perto de conseguir, na Europa, já não são mais que palavras que se activam em momentos eleitorais, tal como os chavões de 'políticas de direita', 'forças de esquerda', etc, que não têm nenhum reflexo na realidade e que, suspeito, os próprios que as utilizam nem sequer sabem bem o seu significado, porque são já duma cultura que enaltece e pratica a opinião ignorante.

Juntam-se aqui três factores na história da Europa, ou do mundo ocidental, que se concatenaram, logicamente, no tempo, e forjaram o momento em que estamos.

Como fica implícito pelas palavras de Marco Aurélio, na história não há acasos, há consequências de acções e tramas do passado. Algumas acções são como germes que viajam nas camadas mais ocultas dos acontecimentos, de modo que, quando emergem e se tornam evidentes, já fizeram os seus estragos.

A fé cega nos resultados da ciência juntamente com a massificação urbana alteraram as premissas do que se considerava ser a natureza e fins da educação e, esse facto, levou à perversão do ideal de democratização pela educação, situação em que nos encontramos, e que está a perigar toda a lógica da civilização ocidental, que se proclama farol do mundo dos direitos do Homem, da liberdade, da tolerância, da busca de saber, etc.

Em Portugal ainda vamos a tempo de impedir que se atravesse o Rubicão, porque as políticas que se querem impor, ainda estão em fase de não aceitação. Estas mesmas políticas, impostas noutros países, como Inglaterra, EUA, Bélgica, Holanda, Suécia, etc, já há muitos anos, estão a destruir por completo o tecido social e civilizacional tradicional do tipo europeu e são agora extremamente difíceis de corrigir.

Seria de esperar que este país, onde tudo chega atrasado, beneficiasse, ao menos, desse atraso, para travar políticas que noutros países tiveram resultados opostos aos desejados. Mas não. Ou as pessoas, neste caso, as do Ministério da Educação, não querem saber de se inteirar desses assuntos ou, o que é pior, estão por dentro desses relatórios mas estão de acordo com a destruição do tecido social. Penso que será mais a primeira hipótese: trata-se de gente ignorante que só existe no absoluto presente por desconhecimento de que as coisas se passam, exactamente como diz Marco Aurélio. Falta-lhes a perspectiva do todo, embora se achem muito 'à frente' e inteligentes por terem ascendido a cargos de poder, o que por si revela que pertencem à tal nova cultura construída numa certa mentalidade de fé cega nos resultados da ciência e nos méritos intrínsecos dos montanhistas sociais.

O início, ponho-o lá para trás, na História, nas palavras de Descartes, nos Princípios da Filosofia, (de 1644) a propósito da capacidade do seu método matemático ( o que deu origem ao método experimental das ciências ) produzir verdades:  «Também sei que poderão passar-se vários séculos antes que se tenham deduzido desses Princípios todas as verdades, porque a maior parte das que faltam encontrar dependem de algumas experiências particulares, que se não descobrirão por acaso, mas que devem ser procuradas com cuidado e esforço por homens extremamente inteligentes.»

 

(a continuar)

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:26



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D



Pesquisar

  Pesquisar no Blog