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Naipaul - prémio Nobel da literatura

por beatriz j a, em 23.11.08

          V. S. Naipaul, prémio Nobel da literatura, esteve ontem na Gulbenkian onde leu um excerto do seu livro The Enigma od Arrival (1987). Um livro que fala da importância de restaurar o olhar original, despojado das vestes da cultura, da ideologia e do resto que enforma a visão educada.

O auditório 2 da Gulbenkian não chegou a encher completamente.  A média de idade do público devia andar nos quarenta/cinquenta anos. Quase ninguém naquela faixa etária dos estudantes universitários. Dos poucos que estavam, pelo menos quatro saíram passado pouco tempo de Naipaul começar a leitura. 

Dá que pensar.

Este é um país onde pouca coisa se passa, culturalmente falando. A Gulbenkian é uma das poucas, se não a única instituição que ainda organiza eventos culturais diversificados, de qualidade, gratuitos e abertos à comunidade; pois convida um escritor premiado e são meia dúzia, por assim dizer, as pessoas que se interessam em ir ouvi-lo.

E isto em Lisboa!

Pergunto a mim mesma se não estamos já a viver as consequências de tantos anos de ataque à educação das humanidades? Tantos anos de desprezo e depreciação das áreas de humanidades, nas escolas e nas universidades?

Ouvimos constantemente queixas sobre os portugueses não serem um povo culto, mas, pergunto eu, como se pode querer que um povo cresça, se se pretende reduzir o seu alimento ao essencial material? Como se pode incentivar a educação do povo quando, paralelamente, se tenta convencer, esse mesmo povo, que estudar é uma chatice e que só  interessa o que dá prazer? Que só interessa aprender aquilo que se vai utilizar na profissão? Que ter uma educação superior é uma coisa que não acrescenta nada a ninguém, a não ser que se estude informática ou qualquer coisa do género?  

Como é que é possível que a principal estação de televisão do estado só dê programas medíocres que alimentam a ignorância, a cupidez, a inveja, a mediocridade, enfim?

Na verdade, neste país, não se investe nas pessoas.

Quem trabalha com alunos sabe que cada vez é mais difícil conseguir ultrapassar os obstáculos que os iluminados do poder inventam para lhes dificultar o caminho, a pretexto de lhes facilitar a vida.

Hoje em dia, um aluno sem dinheiro mas com qualidade interior que queira progredir nos seus conhecimentos e aceder a uma formação superior, não só tem que ser muitíssimo bom mas também tem que ter muita sorte. 

Para o professor, que trabalha de perto com esses alunos e reconhece o seu potencial (muitas vezes nem os pais se apercebem porque lhes falta a formação para tal) é revoltante ver que fora das escolas ninguém parece importar-se com isso.

É revoltante porque podia não ser assim. Se este desgoverno e descontrolo na educação não andasse há anos a estragar o que havia de bom nas escolas e a fortalecer o que havia de negativo, as coisas seriam hoje bem diferentes.

Hoje em dia sabe-se muito sobre o que resulta e o que não resulta na educação. Há muita documentação sobre o assunto. Não era difícil, senão aplicar o que resulta, pelo menos não implementar o que todos sabemos não resultar.

Mas é claro que para que isso se fizesse seria necessário que as próprias pessoas que vomitam leis e decretos e memorandos e quejandos, soubessem sobre o assunto em questão. E não falo de saberes que decorrem daqueles mestrados que estão agora na moda acerca de temas do género Será que no ano passado choveu mais à quinta que à sexta?

Pois é, que apenas pessoas de um tempo em que não era vergonha nem heroísmo tirar um curso de humanidades tenham tido interesse em ir ouvir o que tem a dizer o escritor que ganhou o prémio Nobel da literatura, diz muito sobre o interesse que neste país se dá à educação/formação da pessoa.

Os conhecimentos  florescem num contexto cultural que os induz - ou não florescem pura e simplesmente.

          

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publicado às 18:10



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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