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Entrevista a Gonçalo Ribeiro Telles no semanário «O Diabo», de 17 de Agosto de 2005. Completamente actual. Infelizmente pois isso significa que nada foi alterado desde então.


«Vamos muito brevemente ser um Estado sem território»
O alarme é dado por Gonçalo Ribeiro Telles, que considera trágico não existir uma política agrícola nacional baseada em matas, sebes e compartimentação do espaço. 


«É urgente fazer o reordenamento do território "a sério," não para a floresta mas para as árvores em todas as suas funções», afirma. Tudo porque o nosso País «não é um País florestal».
«É um abuso inqualificável dizer que está a arder uma floresta em Portugal. Cientificamente, esta afirmação não tem qualquer validade»


Para o fundador do Movimento Partido da Terra, o que está a funcionar como um barril de pólvora são povoamentos mono específicos (de uma só espécie) desprovidos de qualquer variedade biológica. Não se trata de mata ou de floresta, mas sim de mato, que exige a permanente limpeza para a produção de madeira destinada à indústria.
Considerado o primeiro ecologista português, Ribeiro Telles acusa os Governos, os autarcas e as universidades de «ignorância atroz», por terem uma noção completamente errada do território e por defenderem «a floresta inexistente». «É uma anedota absurda», lamenta.
O que deve ser feito, então, urgentemente? O ordenamento do território implica o investimento na mata, que deve funcionar por «zonagem», ao preencher as zonas frágeis em termos de erosão, ou seja, nos grandes declives e nas barreiras. Ao mesmo tempo, é importante construir as sebes para a agricultura, com o objectivo de defender as culturas. «A sebe é o estádio final da mata para permitir a agricultura do homem», explica, e «nada disto está a ser feito».
A terceira aposta, deve ser a recuperação dos montados de sobro ou de azinho (cortiça) ou dos soutos (castanheiros). O montado é uma interface entre a agricultura e a pecuária, uma pastagem «que raramente arde e que regenera facilmente».


Outro aspecto fundamental no ordenamento do território é a ocupação do espaço e a recuperação da aldeia. Para o arquitecto paisagista é necessário valorizar o sistema aldeão, porque corremos o risco de ter o País despovoado e à mercê dos grandes empreendimentos, idêntico à exploração dos madeireiros da floresta Amazónica. 
«Numa escala diferente, estamos também a expulsar os índios, como acontece quando vimos as populações a correr quando há os fogos».
Encara como «embuste», a forma recorrente de se responsabilizar os proprietários por «deixarem os terrenos ao abandono». Diz que os donos das terras vieram para a cidade e perderam a orientação dos marcos, que foram sendo retirados ao longo dos tempos. Hoje é impossível reproduzir o cadastro, porque não sabem quais são os limites da propriedade.

«DESASTRE» COM ORIGEM NOS ANOS 30
Gonçalo Ribeiro Telles enuncia três etapas que contribuíram para «a destruição do País». Os erros começaram no século XIX com plantação de pinhal bravo, que existia apenas nas areias do litoral. O País, que era um carvalhal compartimentado por culturas, passou a ter uma percentagem excessiva de pinheiro bravo. Mais tarde, por volta de 1930, assistiu-se à arborização de 400 mil hectares de baldios, no Gerês, com pseudo-tesugas, pinheiros, cedros, faias e carvalhos-americanos, que acabou por «expulsar» as comunidades de agropecuária do Norte. 


Recorda que a política da época está retratada no livro «Quando os Lobos Uivam» de Aquilino Ribeiro.
A seguir, apareceram os eucaliptos, e novamente os pinheiros, para satisfazerem as indústrias de celulose e de madeiras para a construção civil. «Assim desapareceu a agricultura no fundo dos vales, a cabra que dava leite e cabrito, o leite que dava queijo, ou os matos que davam o mel e a aguardente de medronho. Um cenário muito diferente daquele que existe, onde se vê crescer o pau com destino para a celulose».
«Estas produções podiam não ter grande peso para o Produto Interno Bruto (PIB) mas contribuíam para a fixação de população no local», sublinha. 


«Hoje somos um País sem população no interior - entregue às grandes extensões de povoamentos para a indústria - com taxas de emprego altíssimas no litoral. Portugal está transformado num deserto».
O ex-ministro de Estado e da Qualidade de Vida culpa ainda as autarquias por «não entregarem» as aldeias aos emigrantes que regressam à terra de origem e responsabiliza-as por disponibilizarem loteamentos, ao longo das estradas, sem um sistema de planeamento, equipamento e de concentração. 
«Depois vê-se as pobres populações aflitas, metidas em casas no meio da chamada "floresta", quando os culpados são as autarquias que deviam ter incrementado o desenvolvimentos das aldeias»
«A política florestal tem sido desastrosa», e nenhum Governo, desde a década 30, conseguiu ter consciência das necessidades do País. 


«É preciso iniciar imediatamente um verdadeiro ordenamento do território, o que demoraria menos de uma geração».
«A árvore está a ser perdida todos os dias. Se a árvore deixa de estar na mata, na sebe, nos pomares, no montado, na cidade, o que temos é uma cultura artificial que pode dar muito dinheiro durante um curto intervalo de tempo a alguns mas que pode acabar com o País», conclui, ao lamentar ainda a inexistência do Programa Nacional de Ordenamento do Território.

 

do blog Outra Margem

 

 

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publicado às 14:38


O papel dos repórteres é reportar

por beatriz j a, em 20.02.17

 

 

O que se retira desta conversa é que erros construídos sobre erros são o caminho para o desastre. Trump só é possível por causa dos erros anteriores acumulados e o que interessava agora era denunciar os erros actuais e combatê-los. E isto é válido para qualquer país ou política e estes dois dizem-no muito bem.

 

 

 

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publicado às 04:57

 

 

... escolha de cabeças amigas para tachos? Pobre, pobre, democracia.

 

(…)

O concurso público aberto no início deste ano para selecionar os atuais delegados regionais de educação foi irregular e os vícios identificados são suficientes para que o processo seja anulado. A posição é do Provedor de Justiça, mas o Ministério da Educação e Ciência (MEC) recusa comentar o assunto enquanto estiver pendente um recurso hierárquico interposto pelos candidatos não escolhidos.

Num ofício enviado há dias pelo Provedor ao secretário-geral do MEC, pode ler-se que existem desconformidades na designação dos membros do júri e questiona-se o facto de terem sido redefinidas as regras inicialmente previstas para a classificação da entrevista pública. A tutela é ainda alertada para a falta de objetividade com que terá sido feita a avaliação dos candidatos nessa entrevista.

Irregularidades apontadas

O Provedor de Justiça deu razão às queixas apresentadas por alguns dos candidatos que não foram escolhidos e que desde o início questionaram métodos de avaliação, prazos e ainda a constituição do júri.

Sobre este ponto, a provedora-adjunta Helena Vera-Cruz Pinto escreve no ofício enviado ao MEC que nenhum dos membros do júri foi “designado por estabelecimento de ensino de nível superior”, como determina a lei: “Os membros do júri não foram selecionados pelas instituições de ensino superior, mas sim pela entidade promotora do concurso que, tirando proveito das ligações destes dirigentes com o meio académico, assim acaba por reunir um júri plenamente constituído por titulares de cargos dirigentes de órgãos ou serviços do ministério”.

Um outro detalhe que merece críticas é o facto de, após a apresentação das candidaturas, em janeiro, ter sido redefinida a “escala e classificação da entrevista pública”. Frisa-se ainda o caso de candidatos que foram afastados do procedimentos sem serem sujeitos a um “método de seleção que a lei considerou de aplicação obrigatória”, como a entrevista pública.

O Provedor de Justiça classifica também como “muito duvidosa a validade da exclusão dos candidatos que não obtiveram classificação positiva em sede de avaliação curricular”.  E mesmo quem não foi excluído e passou à fase da entrevista neste concurso tem razões para se queixar. Tudo porque o júri não indicou os “parâmetros de avaliação ou das competências” que os candidatos deviam evidenciar: “Não permite ao destinatário do ato nem às instâncias de controlo terem uma noção clara sobre os juízos de valor feitos pelo júri em relação às qualidades e capacidades que foram relevantes na ordenação classificativa”. 

Com base em todos estes argumentos, a provedora-adjunta termina referindo que “os vícios identificados são suscetíveis de fundamentar a anulação dos atos adotados”. Em fevereiro, o candidato melhor classificado para a região do Algarve acabou por desistir depois de o jornal i ter revelado que residia na mesma casa que o presidente do júri (José Alberto Moreira Duarte, que é também diretor-geral dos Estabelecimentos Escolares. 

 

do blog http://www.arlindovsky.net

 

 

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publicado às 08:55

 

 

 

Os nossos vizinhos na Europa “têm uma ética do trabalho mais enraizada”

Nuno Almeida Alves é sociólogo, investigador do ISCTE e um dos autores do livro Jovens em Transições Precárias.

 

 

Portugal tem demasiados licenciados?
Não. Podemos pensar que sim, se tivermos como referência o emprego que está a ser gerado. Se a capacidade da economia portuguesa é gerar postos de trabalho em call centers ou a virar hambúrgueres, provavelmente sim. Temos de fazer o esforço de desligar a formação escolar do mercado de trabalho. Por exemplo, um licenciado em Línguas e Literaturas Modernas tem um conjunto de competências que lhe permite trabalhar em determinadas áreas que não só dar aulas. Muitas vezes, as empresas dizem que o mercado de trabalho não lhes oferece o que eles precisam. Naturalmente que não. Uma empresa pode recrutar um engenheiro e dar-lhe as competências necessárias para o adequar ao posto de trabalho. Não é solução diminuir o output das universidades portuguesas.

 

Portugal precisa de investir em formação intermédia?
Deve investir em ensino profissional de qualidade, mas não concordo que o crivo seja feito aos nove ou dez anos. Durante o ensino secundário, pode ser oferecida uma componente mais profissionalizante. Esse acompanhamento dos alunos e das famílias é feito, as escolas detectam, mas a aposta tem de ser feita na qualidade.

 

 

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publicado às 12:19

 

 

Portugueses fogem das notícias políticas

 

Porque em Portugal não há notícias de políticas. Só há notícias de políticos. Notícias de políticos e de seus esquemas de enganar para estar ou ganhar o poder juntamente com seus amiguinhos de subir na escada da vidinha. Notícias de políticos sem escrúpulos, ou demasiado cobardes para fazer políticas que beneficiem os portugueses.

Quem quer ler tais notícias?

 

 

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publicado às 04:57


Perguntas: para onde vai o país?

por beatriz j a, em 14.10.14

 

 

 

 imagem da net

 

 

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publicado às 05:59


Coisas importantes acabadas de ler

por beatriz j a, em 03.08.14

 

 

 

A Maria de Lurdes Rodrigues apoia activamente o António Costa... vá de retro...

 

 

 

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publicado às 20:33

 

 

 

Empresas obrigam mulheres a garantir que não vão engravidar durante cinco anos - PÚBLICO

 

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Lê-se na notícia que o indivíduo que faz a denúncia não revela os nomes das ditas empresas. Está mal. Uma coisa é educarmos os ignorantes dos empresários portugueses outra é acharmos que isso só chega e não vale a pena revelar estas ilegalidades criando hábitos de prevaricação impunes.

 

Penso que devia resolver-se isto do seguinte modo: os pais homens seriam obrigados a gozar, pelo menos, dois meses de licença de maternidade de cada vez que tivessem um filho.

 

Por um lado, deixava de fazer sentido discriminar as mulheres por ficarem grávidas. Acontece os homens serem pais até muito mais tarde que as mulheres: há homens a serem pais aos 40 e tal, 50 e tal e mais anos o que, nas mulheres, é muito raro. Deste modo, ou as empresas passavam a perguntar a todos se iam ser pais (o que os pais, homens, não podem garantir...) ou acabavam com a prática.

 

Por outro lado criava-se o hábito e a normalidade de os pais homens ajudarem as mulheres nos dois primeiros meses a seguir ao nascimento das crianças que é um período violento para as mulheres e a maioria dos homens não faz a sua parte por não ter nenhuma noção disso.

 

 

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publicado às 14:13


Falta de dinheiro e de perspectivas...?

por beatriz j a, em 09.06.14

 

 

Candidatos-ao-ensino-superior-continuam-a-diminuir

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Ainda de acordo com os dados do Ministério da Educação, fica claro que a esmagadora maioria dos jovens que concorre ao ensino superior e que, por isso, tem de realizar exames nacionais, vem do ensino secundário regular. Apenas 1% (cerca de mil alunos) é proveniente de cursos profissionais.

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Desvario incompetente das decisões educativas? Vontade de agradar a todo o custo aos 'providers' do trem de cozinha...?

 

 

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publicado às 19:21


Coerências...

por beatriz j a, em 19.03.13

 

 

 

Peso dos pareceres favoráveis a despedir grávidas e lactantes duplica

Há menos bebés a nascer de tal modo que já se tornou um problema nacional grave. Fazem-se feiras e encontros, como o deste fim de semana no Norte para promover a maternidade mas depois... adopta-se uma política de despedir grávidas e lactantes, como se ter filhos fosse uma incompetência profissional.

É de admirar que as raparigas com alguma educação e ambições na vida adoptem uma política de não ter filhos ou ter um filho lá para os quarenta anos?



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publicado às 08:47


Isto é uma tristeza...

por beatriz j a, em 09.01.13

 

 

 

 

Está o Moedas na TV a dizer que o relatório do FMI é muito bem feito. Como é que um relatório que a única ideia que tem para resolver os problemas é despedir mais, cortar salários, cortar pensõe e empobrecer mais pode ser bom? Então isso é que são soluções boas? Deixar tudo na miséria...?

 

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publicado às 18:04


Não há ninguém que não veja!

por beatriz j a, em 04.01.13

 

 

 

 

Mota Amaral

 

O deputado do PSD, Mota Amaral, alertou hoje para o “alastramento de uma verdadeira catástrofe” em Portugal, face à “crescente indignação” dos cidadãos, que “não vêm nem finalidade, nem fim para os cortes de benefícios”.


“A situação geral do país em vez de melhorar, como o Governo promete e todos desejaríamos, tem vindo a degradar-se e basta ter os olhos abertos para comprovar o alastramento de uma verdadeira catástrofe”, afirmou Mota Amaral, num artigo de opinião intitulado “Orçamento de Estado (OE) 2013 – a prova de fogo”, publicado hoje no jornal Correio dos Açores.


O antigo presidente da Assembleia da República considerou que o “enorme aumento de impostos” determinado para 2013 vai “reduzir contribuintes à insolvência, fazer falir muitas empresas e aumentar o desemprego”, acrescentando que a entrada em aplicação das leis que facilitam o despedimento e despejos “só pode piorar a fratura social”.


“Parece-me ter sido um erro a voluntariosa opção por ir além da ´Troika´, quando a mais elementar prudência – que, como ensinam os clássicos, é a principal virtude requerida aos governantes – aconselhava a ater-se ao conteúdo programático do memorando de entendimento, alegrando assim a base parlamentar e social de apoio ao cumprimento do mesmo”, escreveu Mota Amaral.


O deputado social democrata açoriano referiu que alertou “em tempo e no lugar devido” para o “custo reputacional” que o Executivo sofreria ao adotar uma medida expressamente negada durante a campanha eleitoral, nomeadamente redução a metade do subsídio de Natal dos funcionários públicos e pensionistas em 2011, agravada com a retirada total dos mesmo e do subsídio de férias em 2012


“Julgo que foi mal avaliado o risco de descredibilização do Governo com situações dessas e outras e o impacto da mesma na necessária mobilização da sociedade portuguesa para as reformas necessárias, ditadas pela nossa participação no euro e pela nossa inserção na economia global”, referiu Mota Amaral, acrescentando que “a persistente apresentação de previsões erradas e constantes anúncios de recuos de novos gravames arrastam no mesmo sentido”.


O açoriano Mota Amaral considerou que o Governo PSD/PP tem vindo, por tudo isso, a ficar “isolado”, sem prejuízo do apoio parlamentar assegurado pelos partidos da coligação, admitindo que “não tinha porque ser assim!”.


Recordando que o memorando de entendimento com a ´Troika´ foi negociado pelo anterior Governo socialista, sendo o défice das contas públicas superior ao então admitido, o ajustamento orçamental exigido era já de todo impossível no curto prazo estabelecido.

Mota Amaral termina o seu artigo de opinião com um alerta: “repetir para 2014, certamente em tom maior, o que já não deu resultado em 2012 e agora é objeto de insistência, afigura-se politicamente impossível”.

 

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publicado às 15:50

 

 

 

 

Dilma investe todas as receitas do petróleo na Educação

O Ministro da Educação, Aloizio Mercandante, que juntamente com outros três ministros apresentou o novo projeto de lei presidencial em conferência de imprensa, acentuou o valor histórico da decisão do governo de Dilma Rousseff. "Não esxite futuro melhor para o país que investir na educação", disse.

Para o ministro, "só a educação fará do Brasil uma nação efetivamente desenvolvida, já que a educação é o fundamento de todo o desenvolvimento económico futuro".



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publicado às 08:24


No time for wrong steps

por beatriz j a, em 28.10.12

 

 

 

 

No Time for Wrong Steps

by Michael J. Boskin

 


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publicado às 11:05


instintos primordiais

por beatriz j a, em 17.09.12

 

 

 

 

António Capucho “Pode ser preciso um governo de salvação nacional, mas sem Passos Coelho”

Quando a carne está à vista é difícil aos cães refrearem-se...

 

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publicado às 05:59


Completamente de acordo!

por beatriz j a, em 23.07.12

 

 

 

 

 

... e eu sou a favor de exames! Mas não do rumo que os exames têm tomado: um rumo que desvirtua as aulas, tornando-as em treinos doutrinários e que domestica os professores, despojando-os daquilo que é a sua profissão - ensinar, educar, avaliar.

 

Os exames e a comédia do rigor

Os exames não são apenas sinónimo de rigor e exigência, são também um convite à repetição, à ausência de pensamento crítico e a uma tarefa perversa que se chama "preparação para os exames"; e são ainda uma ferramenta de gestão das escolas e de domesticação dos professores.

António Guerreiro (www.expresso.pt)
.....
Os exames são a peça fundamental de uma máquina, dita de exigência e de rigor, que reina agora na escola portuguesa. Olhando de fora, um observador atento ao ecrã da ideologia seria levado a concluir que o pedagogismo foi substituído pelo avaliacionismo. Podemos medir o efeito desta máquina pelo modo como se impôs, quase como uma palavra de ordem com eco em todas as instâncias - alunos, professores, ministério, associações de pais - o apelo da "preparação para os exames".

Preparar os alunos para o exame é o que a escola devia fazer naturalmente, a partir do momento em que se trata da instituição que tem por função transmitir saberes, colocando em mútua presença, e segundo regras estabelecidas, os especialistas encarregados de os transmitir (os professores) e os sujeitos a quem a transmissão é feita (os alunos). Mas as coisas são muito mais complicadas porque os exames têm os seus códigos e exigências próprias, e é preciso conhecer-lhes as manhas. Daí que a preparação para os exames se tenha tornado uma tarefa autónoma, à qual se deve vergar o ensino do programa.

 

Aparentemente, e ainda que tal mecanismo seja manifestamente perverso, todas as partes implicadas trabalham para o alimentar: os alunos, que exigem aos professores que as aulas sejam de preparação para os exames; os professores, que não podem senão responder a esse apelo e sentem que o mesmo exame que examina os alunos os avalia a eles; o Ministério da Educação, que através do Gave (Gabinete de Avaliação Educacional) assumiu como missão fornecer orientações para os exames e disponibilizar, no seu site, vasta documentação para estimular o treino de professores e alunos; a Confederação das Associações de Pais, que, confrontada com os fracos desempenhos dos filhos, veio acusar o diretor do Gave de "incompetência" e de ser por "culpa da política ministerial" que as escolas não conseguem preparar os alunos para "os desafios que os exames lhes colocam". Ou seja, de uma maneira ou de outra todos acham que o funcionamento regular da escola não basta como "preparação para os exames", e que tal tarefa deve constituir um esforço suplementar. Quem acha o mesmo, mas com um especial regozijo vedado aos restantes, são as editoras de livros escolares, que produzem uma enorme parafernália de materiais didáticos, apresentados como adjuvantes nessa grande missão que é a "preparação para os exames": resumos dos livros, sínteses, testes, fichas, coleções dos exames dos anos anteriores.

 

O aluno não é convidado a pensar, a interpretar, a escrever, mas a decorar chavões
 
 
Tanta fadiga, tanta mobilização e tão fracos resultados deveriam ser vistos como uma indicação de que algo está errado. Mas uma falaciosa oposição vicia o diagnóstico: de um lado, os defensores dos exames como sismógrafos e ao mesmo tempo indutores do rigor e da exigência; do outro, os que entendem denunciar os desvios perversos a que os exames conduzem, mas quase sempre em nome de princípios e suposições sem recorrerem à realidade das provas.
Ora, pode defender-se o princípio da necessidade do exame, estar de acordo em que ele introduz critérios de rigor e de exigência - e até de justiça - na avaliação, mas ser contra estes exames e todo o sistema que eles servem e alimentam.
Tomemos aqui como exemplo o exame de Português do 12º ano (introduzindo a observação cautelar de que, por falta de competência, não serão considerados os exames das disciplinas científicas). O que imediatamente chama a atenção é o facto de boa parte da prova exigir não que o aluno escreva, mas que ordene, escolha e associe frases já dadas. Temos depois algumas estrofes do Canto VI de "Os Lusíadas" e algumas perguntas de interpretação que incidem sobre a mitificação do herói. Quando se passa, depois, para um excerto do "Memorial do Convento", é novamente a questão do herói coletivo do romance que está em causa.
Quem consultou os exames anteriores e leu os manuais escolares apercebe-se facilmente de que há umas quantas matérias com lugar cativo nos exames; e o aluno não é convidado a pensar, a interpretar, a escrever, mas a decorar chavões, a papaguear tópicos, a repetir interpretações fabricadas que circulam como um cânone que não admite desvios: ele é o herói coletivo do "Memorial do Convento", ele é a oposição entre o par Blimunda/Baltazar e o par constituído pelo Rei e pela Rainha, ele é epicurismo de Ricardo Reis, ele é "a dor de pensar" de Fernando Pessoa ortónimo. Na verdade, o aluno percebe muito cedo que nem precisa de ler as obras, apenas os resumos. E precisa sobretudo de saber os tópicos com os quais irá resolver as perguntas sobre os excertos das obras estudadas que lhe apareçam no exame, o qual apela à recitação e à reprodução dos chavões. Os textos literários são estudados como se tivessem interpretações fechadas e o exame, por sua vez, vai confirmar esse fechamento.
Preparar-se para o exame consiste em treinar respostas já construídas a perguntas previstas. Quando finalmente o aluno chega ao item mais imprevisível e onde lhe é permitida mais liberdade e mais capacidade crítica, qual é o tema que lhe é proposto para dissertação? Nada mais nada menos do que a procura da popularidade através dos meios de comunicação de massas e das redes sociais. O estereótipo do tema parece escolhido para que os alunos, em vez de pensarem, debitem o senso comum. Quantos escaparão a tal fatalidade?

Dir-se-ia que a previsibilidade e o incentivo à repetição tornam fácil este exame. Talvez seja, mas consultando os programas e os manuais percebemos que a essa facilidade se sobrepõe algo que a vem perturbar: a incoerência, o desajuste, o inapropriado. Um pequeno exemplo: o aluno aprende a dizer, quando analisa um poema, o "sujeito poético" em vez de "o poeta" (e os manuais, tal como os exames, estão a abarrotar de "sujeitos poéticos"). Mas não aprende o porquê desta terminologia. O aluno é assim convidado, sistematicamente, a usar uma linguagem técnica e uma metalinguagem que não está em condições de entender cabalmente e na totalidade, a ter um discurso que pressupõe instrumentos que ainda não domina.

 

Em suma: se o aluno, de facto, não foi treinado a ler e a interpretar, se a preparação para o exame até implica que ele saiba debitar chavões e estereótipos, o que acontece com frequência é a confusão, o baralhamento, a inadequação. Vejamos outro exemplo. No 12º ano, os alunos aprendem alguns conceitos básicos da narratologia, entre os quais os de analepse e prolepse. A coisa até parece simples e resolve-se geralmente dizendo que a analepse é o mesmo que o flashback e a prolepse consiste em evocar um acontecimento ulterior da história que está a ser contada. E eis que os manuais e outros materiais didáticos dão como exemplos de prolepses, no "Memorial do Convento", as referências aí feitas ao nosso tempo (por exemplo, o 25 de abril). Ora, essas referências remetem para o tempo da escrita e não podem ser designadas como prolepses. Porque é que um erro deste tipo se disseminou em grande parte dos manuais? Porque a repetição, e não o espírito crítico, é a regra (aparece uma vez e depois prolifera, sem interrupção); porque a tendência é ensinar coisas complicadas aos alunos como se fossem coisas simples (saber o que é uma prolepse implica perceber a diferença entre o tempo do discurso e o tempo da história) e, sobretudo, a fornecer terminologia técnica como se ela fosse um fim em si mesma.

 

Nos exames de filosofia, temos outra situação caricata: o programa é, desde há longos anos, de influência analítica. Mas as orientações para o exame vindas este ano do Ministério são muito mais informadas pela chamada filosofia continental. O que fazer? Terão hesitado muitos professores. Mas a resposta afigurou-se óbvia: seguir o imperativo de preparar os alunos para o exame e esquecer aquilo que, seguindo a lógica do programa, não serviria eficazmente esse objetivo.

 

Mas os exames não servem apenas para avaliar os alunos. Eles são um instrumento precioso de gestão das escolas e dos "recursos humanos", como se diz na linguagem gestionária do nosso tempo. A ideia de Maria de Lurdes Rodrigues, a de fazer depender a avaliação dos professores da avaliação dos alunos, não foi para a frente. No entanto, os professores não ficaram a salvo e vão experimentar de outra maneira as consequências dos exames aos alunos. Do resultado dos exames depende a avaliação das escolas, e da avaliação das escolas depende o crédito de horas a conceder-lhes. O que é que isto significa? Que esse é o critério para autorizar a abertura de mais ou menos turmas, a realização de mais ou menos atividades. Os exames como peça fundamental da máquina gestionária servem o desígnio de redução do número de professores, a par das turmas com o mínimo de 26 alunos, nas disciplinas regulares, e com o mínimo de 20 alunos, nas disciplinas de opção (o Ministério pode agora oferecer cinicamente, em muitas escolas, belas e reclamadas opções como Sociologia, Antropologia e Latim, pois sabe que nunca haverá alunos suficientes para formar uma turma).

 

Chegados a este ponto, seria altura de entrar num longo capítulo de descrição do que tem acontecido à mais desventurada e vilipendiada classe profissional: a dos professores. Resumindo bastante uma longa história, podemos dizer que os professores estão desde há bastante tempo sujeitos a estas duas regras que não passam de alíneas nos tratados de domesticação: fazer com que a sua legitimidade não tenha uma fonte mais elevada - por exemplo, o saber, algo que não move nem comove a escola atual - do que a dos próprios gestores do ministério; fazer com que eles não acedam a nenhuma espécie de autonomia. Deste modo, se outrora o tempo de trabalho do professor se dividia entre o tempo controlado e o tempo autónomo, hoje todo o seu tempo de trabalho é controlado (à hora, aliás).

 

A única autoridade que conta hoje na escola é de ordem administrativa. Para perceber isto em toda a sua dimensão (que é a dimensão grotesca da caricatura), basta ler as "normas relativas aos professores vigilantes". Aí, em quatro páginas de normas, algumas delas insultuosas, fabrica-se o professor como um suspeito, um indivíduo propenso ao crime que é preciso vigiar (ficando assim no lugar do vigilante vigiado), de tal modo que justifica o uso de uma severa linguagem normativa, cheia de proibições (e até incitando, num determinado caso, a que seja policiado), onde é fácil descobrir um paradigma criminológico.

 

Depois de identificarmos a parte mais visível da máquina implacável que, em todos os domínios, destituiu a autonomia dos professores e os fez entrar numa mecânica da subordinação, poderíamos pensar que lhes resta ainda o poder autónomo que advém da tarefa da correção dos exames. Nada mais falso. Os critérios de correção, lavrados em verdadeiros tratados (os critérios de correção têm mais páginas do que o enunciado do exame), fundam-se numa ciência para a qual não temos nome porque trata de hipóteses e de "cenários de resposta". Eles preveem tudo - todos os desvios, todas as incorreções, todas as imperfeições e incompletudes das respostas dos alunos - e para tudo o que preveem têm uma quantificação. Se, ainda assim, o professor, presumindo-se um avaliador competente, quiser operar um pequeno desvio e introduzir o seu critério de quantificação, logo saberá que a grelha Excel onde vai lançando a pontuação das respostas só aceita os números previstos pela ciência que projeta "cenários de resposta". No fim de todos os mecanismos de vigilância por que passou, há uma grelha Excel que lhe diz que ele não é nada e nunca será nada.

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publicado às 18:40

g.a


3-8-12



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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