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A escola que a Rodrigues nos deixou

por beatriz j a, em 11.11.17

 

 

Saí um bocadinho de casa para ir à mercearia -na verdade para fazer um intervalo nesta maratona de testes- e encontrei uma colega que conheço há muitos anos, com quem me dou muito bem, que saiu no ano passado lá da escola porque foi obrigada a voltar à sua escola de origem, que não é muito longe da minha. Estava como eu nunca a vi: cheia de olheiras, branca como a cal, com um ar de fim de ano lectivo. Bem, fez-me aquilo que eu fiz outro dia ao meu médico (que é um querido), ou seja, esteve dez minutos a descompensar para cima de mim os problemas da escola, mais especificamente duma turma que tem, do sétimo ano, onde um rapaz que já frequenta o sétimo ano pela quarta vez, bate e ameaça, professores, funcionários e colegas sem que nada se possa fazer porque agora, a não ser que um aluno mate alguém, e mesmo assim, não sei, o mais que se pode fazer é suspendê-lo 12 dias ou, em caso limite, mandá-lo para outra escola bater em outros alunos, funcionários e professores. Até aos 18 anos nada se pode fazer. É a escola que a incompetente da Rodrigues deixou. Até me fez impressão porque ela é uma pessoa muito proactiva, optimista e muito boa profissional mas, quem é que aguenta uma dose diária de delinquência completamente desarmada de instrumentos, de recursos e de pessoal especializado?

O que mais se vê nas escolas é desistência. É avassalador. só quem está bem nas escolas são os directores e os seus sabujos.

 

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publicado às 17:35


Concursos de professores

por beatriz j a, em 19.07.17

 

 

Hoje era o único tema de conversa na escola. Uma colega de Viseu, contratada, que ficou cá este ano, sem ajudas de custo, casada e com dois filhos pequenos, teve a candidatura invalidada e não entou em QZP. Toda a gente sabia e contava casos. No grupo de História da minha escola, a colega que era a decana da escola, vai passar a ser a mais nova do grupo com a entrada de três professoras de outra escola daqui. Em outros grupos também entram pessoas já muito perto da reforma. Isto só mostra o estado de envelhecimento do corpo docente das escolas. As coisas cada vez pior é um desânimo. Sabemos porque é tudo assim: porque 50 mil milhões de eurinhos foram para o BPN, o BES, a SLN, o Salgado, o Vara e todos os parasitas que rastejam de cargo em cargo.

 

Entretanto: hoje vi umas pautas de uma escola básica. Alunos que transitam com 5 e 6 negativas. Se me contassem não acreditava. Agora é proibido aparecer nas pautas afixadas, as faltas e as alíneas, calculo que para não se ver que estes alunos que assim passam têm 500 ou 700 faltas, por exemplo ou, alíneas indicando subidas de notas, etc. Uma vergonha. Por isso quando me chegam ao 10º ano alguns mal sabem ler e escrever... 

 

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publicado às 16:12


Hoje foi um dia bom

por beatriz j a, em 18.05.17

 

 

Resolvi três problemas de alunos, um dos quais delicado e urgente. Este último não o tinha resolvido se uma colega não o tivesse detectado e não tivesse vindo imediatamente dizer-me e se outra colega não tivesse sido expedita a accionar um contacto assim que lhe pedi. Mesmo um dos outros dois só o resolvi com a colaboração de colegas. O que quero dizer com isto é que as escolas não são efectivas sem a colaboração e entreajuda dos professores que não é algo que se decrete mas algo que se induz com um certo clima e dinâmica no local de trabalho, incompatíveis com a cultura de poder cristalizado e assédio que a tutela parece gostar já que não a muda, antes a alimenta, mantendo um sistema malsão, oposto a tudo o que a escola deve ser e representa.

 

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publicado às 19:22


Coisas que revoltam na educação

por beatriz j a, em 27.04.17

 

 

Ontem e hoje tive reuniões de pais. As três DTs têm uma maioria de alunos cujos pais têm em média o 9º ano. Alguns têm mais mas são poucos. As turmas são fracas, os pais não têm recursos, nem económicos, nem intelectuais para ajudar os filhos como eles precisavam. É aí que devia entrar a escola pública, não é verdade? Pois devia... mas não entra. Todas as três turmas têm aulas misturados com outras turmas nas diferentes disciplinas: numa podem estar com a turma x, na outra com a y e na outra foram divididos e metade tem aulas com a x e a outra metade com a z. Quer dizer, a turma em si só existe como entidade teórica no livro de ponto (excepto em algumas disciplinas específicas) ou nem isso e está repartida por dois livros de ponto com letras diferentes numa baralhada total... isto tudo para que as turmas estejam no máximo de alunos possível. O resultado é os professores trabalharem com turmas que na realidade são conjuntos de alunos de duas, três ou quatro turmas diferentes somados em número de 30 ou mais dentro da sala. Claro que é impossível fazer um trabalho diferenciado com estes alunos fracos e cheios de dificuldades, em turmas descaracterizadas, sem identidade, enormes, sem dinâmica própria e, muitas vezes, como acontece em duas das minhas DTs, francamente antagónicas.

 

Hoje os pais de uma das turmas perguntavam-me, 'mas os professores não chamam a atenção da Direcção, não dizem que os alunos assim não conseguem?'. É claro que chamamos a atenção e vai escrito em todas as actas das reuniões mas ninguém quer saber. O Ministério não quer saber de investir na educação, quer é reduzir custos e a inspeção aprova estas barbaridades todas e ainda outras... [como o meu e outros horários, por exemplo...]. E não me venham dizer que é uma questão de dinheiro porque há dinheiro aos milhares de milhão para todos os calotes de todos os bancos, ano após ano...

 

É difícil vermos estas pessoas, que trabalham em fábricas, em supermercados, em restaurantes terem já os filhos a trabalhar metade do dia para pagarem as contas da casa [uma das alunas do 12º ano que trabalha na caixa de um hipermercado disse-me que agora foram proibidas de sentar-se porque isso reduz a produtividade de modo que estão horas de pé a atender clientes, sem pausas... ] e irem aos poucos desistindo da ideia de os verem ter uma vida melhor que a deles porque a escola pública se demite de investir nos alunos e só trabalha para inglês ver: primeiro tratam-se assim os miúdos e a maioria vai abandonando os estudos e chumbando por falta de condições reais de igualdade de oportunidades e depois vem o ministro e manda acabar com os chumbos para fingir que todos têm sucesso, que é uma maneira de tapar as rachas da parede com pintura bilhante. É revoltante.

 

 

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publicado às 20:56


Isto chateia mas ninguém quer saber

por beatriz j a, em 30.03.17

 

 

Levo sempre uma fruta ou iogurte para a escola para comer a meio da manhã. Hoje esqueci-me de levar (porque uma pessoa anda com tanto trabalho que já não anda a bater bem) e como tomei o pequeno almoço cedíssimo, antes das seis da manhã, estive a trabalhar até às 13.30h, à fome, o que me custou bastante na última aula por estar em fraqueza. É que não posso comer açúcar e na escola só há pão (com queijo ou fiambre), bolos, fritos, bolachas e chocolates. Na última aula da manhã disse que à turma que estava cheia de fome. Uma aluna disse-me que às vezes chega atrasada porque não pode comer açúcar e tem que fazer uma merenda para trazer antes de sair de casa com uma panqueca e uma banana (o que às vezes a faz perder o autocarro porque ela vem de longe) pois caso contrário fica toda a manhã sem comer porque não há nada que possa comer na escola a não ser pão, bolos, chocolates, fritos e porcarias de máquina. Já desisti de ir ao bar. De cada vez que lá ia perguntava por fruta ou iogurtes (respondiam sempre que isso é no mês a seguir e que não trazem porque não se vende bem) e dizia-lhes que acho um escândalo não perceberem que estão numa escola e que têm que ser pedagógicos, até a vender comida. Ficam chateados de ouvir isto e, de qualquer modo, não há lá nada que possa comer... olha, se é para beber cafés vou à máquina que ao menos não me chateio...

 

 

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publicado às 17:22


Mas este mês e este período não têm fim?

por beatriz j a, em 29.03.17

 

 

Eu sei que isto de classificar testes e trabalhos e fichas e o diabo a nove faz parte do trabalho mas já não se aguenta e este período é interminável... testes às resmas mais um caderno inteiro com anotações de apresentações orais de trabalhos para organizar/avaliar e depois traduzir em comentários escritos devolvidos aos alunos na parte escrita dos trabalhos, mais todo o resto do trabalho de apoios, de 3 DT ou, por exemplo, ter de voltar à escola daqui a bocado para uma reunião de burocracias que podiam ser resolvidas por email. Que massacre... E quando chegar às 'férias' (ahah) da Páscoa, que são cinco dias úteis, metade é para dormir e tentar recuperar do cansaço acumulado a outra metade para preparar o 3º período.

Hoje em dia as coisas são de tal maneira que ou se tem trabalho e se está sempre com excesso de trabalho [enfim, excepto os os queridos predilectos que formam uma elite ao contrário] ou não se tem trabalho e se está desempregado. O meio termo que é ter um trabalho equilibrado é uma espécie em vias de extinção. 

É claro que se fosse uma portuguesa a sério ocupava o meu tempo com copos e homens para agradar ao Dijó...

 

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publicado às 15:03

 

 

Querermos educar os jovens para a cidadania, partilha de poder democrático, espírito crítico e outros ideais que aparecem na 'nova' representação dos currículos mas depois darmos-lhes como exemplo a vivência num sistema anti-democrático é, no mínimo, um contra-senso, para não dizer mesmo, uma farsa.

 

Menos poder para os directores, defendem 92% dos professores

Inquérito da Fenprof a 25 mil docentes. Resultados mostram que mais de nove em cada dez discordam do actual modelo de gestão das escolas.

Os professores consultados mostraram estar alinhados com as posições que têm vindo a ser defendidas pela Fenprof nesta matéria. Além dos 92% que defendem que o órgão de gestão das escolas deve ser colegial e eleito por lista, a mesma percentagem de docentes dos 25 mil que responderam acreditam que o órgão de gestão da escola deve ser eleito por todos os professores, funcionários e representantes dos encarregados de educação e alunos.

A eleição entre os pares é o modelo favorito para os professores, segundo este inquérito, seja para a coordenação de departamento (94%) como para a coordenação de turma (87%). Além disso, 79% apontam que qualquer docente deve poder candidatar-se ao órgão de gestão, cabendo aos eleitores avaliar a sua competência.

 

 

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publicado às 05:20

 

 

Students are working harder than ever to pass tests but schools allow no time for true learning in the Socratic tradition

 

The atmosphere in the class is relaxed, collaborative, enquiring; learning is driven by curiosity and personal interest. The teacher offers no answers but instead records comments on a flip-chart as the class discusses. Nor does the lesson end with an answer. In fact it doesn’t end when the bell goes: the students are still arguing on the way out. This is my ideal classroom. In point of fact, it is more than just a dream. My real classroom sometimes looks like this, at least occasionally.

A minha também!! Quase sempre :))) embora não seja verdade que nunca ofereça respostas é verdade que nenhuma aula é fechada com uma resposta 😀

 

Mas as disciplinas que lecciono não têm, hoje em dia, exame obrigatório e a verdade é que a maioria das aulas onde há exames obrigatórios são dadas para os alunos passarem esses exames e como os programas são enormes e as turmas gigantes não há tempo para que possam fazer um exercício de progressão socrático. Na geral as coisas são mais assim:

‘Teaching to the test’, which increasingly dominates public school classrooms, produces an atmosphere of student passivity and teacher routinisation. The creativity and individuality that mark out the best humanistic teaching and learning has a hard time finding room to unfold.

 

Os malefícios do caos que atinge a constituição de turmas não tem explicação e ninguém fala disso. Estamos com 30, 32, 34 ou mais alunos dentro da sala de aula, sendo que esses alunos são de várias turmas misturadas anti-pedagogicamente só para poupar dinheiro.

Geralmente são duas turmas que se juntam mas, podem ser mais. Como estamos no nível secundário e não universitário, os alunos não têm autonomia suficiente para não dependerem do professor em quase todas as tarefas. Estamos a falar de adolescentes. Pessoas naquela fase da vida que é um universo diferente e alienígena dos adultos, onde levantar o braço para fazer uma pergunta ou ser capaz de dizer que não percebe pode ser um drama que leva um mês a ultrapassar, onde ter que expôr-se em frente de desconhecidos, mesmo que nesse universo reduzido da turma pode causar um ataque de pânico.

 

Outro dia vinha a falar com um colega de Matemática à saída da aula do meio da manhã acerca de termos mais de 30 alunos dentro da sala e nem haver cadeiras suficientes para se sentarem. Dizia-me ele, 'é impossível um ensino de qualidade - quando fazemos um exercício o mais que podemos é escolher um aluno para ir ao quadro e o que ele fizer serve de modelo para os outros porque não é possível ver o que cada um fez, como fez, tirar as dúvidas a cada um, ver onde cada um está a falhar, etc.'

 

Depois é a misturada de turmas. Uma turma no 10º ano tem 30 alunos. Se 5 ou 6 não passam, 2 ou 3 mudam de curso e outros 2 mudam de escola, a turma fica com 19, por exemplo. No ano seguinte essa turma tem aulas com outra turma que também ficou com menos 10 alunos, nas disciplinas como o Português e mais outas 2 ou 3 que são comuns a todos os cursos.

 

O resultado não é uma turma nova mas duas despersonalizadas enquanto grupo, com dinâmicas e modos de funcionamento diferentes enfiadas numa mesma sala. Uma pode ser uma turma de Humanidades e outra de Artes ou de Ciências e não têm nada em comum; depois de um ano no secundário num determinado curso, já têm um modo de funcionamento mental próprio do curso de maneira que não se fundem em uma só turma o que afecta os alunos, para além de nos afectar a nós porque depois temos 30 alunos dentro de uma sala de aula, sendo que muitas vezes estão desfazados em termos de ensino porque cada um teve seu professor.

Estamos ali a dar aulas a duas turmas e não uma, só que estão todos dentro de uma única sala. Às vezes juntam-se a duas turmas diferentes consoante as disciplinas. É o caos e já se tornou rotina quando dantes era uma excepção. Para os alunos isto tem consequências extremamente negativas. 

 

Este ano tenho uma turma do 10º que está a começar agora e mais outras seis juntas duas a duas de modo a fazer 3.

As duas turmas do 12º ano que tenho são 4. Por exemplo, uma é a turma A+B e a outra é a turma C+D. Cada uma é a junção de 2 turmas. Em cada uma delas eu conheço metade da turma: por exemplo, na A+B conheço os da A desde o 10º ano e a outra metade (a B) só os conheci este ano.

O facto de eu conhecer perfeitamente todos os alunos de uma das turmas (A, por exemplo), ter um enorme à vontade com eles e trabalharmos muito bem porque já nos habituámos uns aos outros e porque os treinei desde o 10º para serem autónomos no trabalho e dependerem o mínimo possível de mim, afecta negativamente os da outra, cujos nomes não sei e vou levar muito tempo a decorar, coisa que eles reparam e não gostam embora compreendam, que estão agora a apanhar o modo de trabalhar nas minhas aulas comigo e a fazer um grande esforço para serem mais autónomos, que não têm o à vontade que vêem os outros ter no trabalho e na convivência dentro da sala, etc. Por muito que trabalhe para amenizar isso, para os pôr à vontade, etc., isso afecta-os no rendimento. São adolescentes, não adultos. Têm imensas inseguranças.

 

Para não falar que com turmas a 30 ou muito mais, deixamos de fazer a quantidade de avaliações que fazemos por ser matematicamente impossível de os corrigir. E quem perde são os alunos, claro, porque as avaliações são um instrumento  para aferir do seu progresso e para desenvolver técnicas específicas e de desenvolvimento pessoal.

 

Isto está caótico. Agora até as Direcções de Turma querem que sejam à molhada, tipo dois em um... o trabalho mais importante do DT é a gestão dos conflitos: entre pais e professores, entre alunos e professores, entre alunos. Quando se consegue gerir bem os conflitos corre tudo às maravilhas e quando não se consegue transforma-se num inferno que afecta logo as aulas e o rendimento deles. Juntar DTs é o caminho mais curto para potenciar conflitos porque é misturar grupos com dinâmicas e problemas diferentes e tratá-los como iguais. Está tudo numa enorme degradação e ninguém fala de nada porque só o que interessa ao ME é poupar dinheiro, e ter alunos amestrados para vomitarem respostas em exames para aparecerem bem nas tabelas internacionais.

 

Se as coisas funcionam nas escolas deve-se exclusivamente aos professores que ainda têm profissionalismo, que se preocupam e gostam dos miúdos e não são capazes de desistir deles porque todo o sistema está organizado para que as escolas falhem, para que os professores desistam, para que tudo seja aparência e fogo de vista e o que mais choca é o total desprezo que têm pelo interesse dos alunos. No meio disto tudo que se faz para inglês ver, os alunos são a última coisa em que se pensa.

 

 

Um aluno hoje em dia que tenha o azar de não passar e ter 18 anos, está tramado e pode acontecer não ter lugar em nenhuma escola ou ter mas não poder matricular-se a todas as disciplinas porque as turmas estão juntas à molhada e o professor já tem 34 alunos ou algo assim. É revoltante.

 

Esta profissão, para quem leva o trabalho a sério e não faz tudo à balda só pelo (mau)salário ao fim do mês (porque podemos fazer isso, sim, tratar tudo chapa 5 já que está tudo à molhada, como se os alunos, os pais, as turmas fossem parafusos e não universos individuais) exige muita fortitude mental. Daí que milhares de professores andem com depressões, burnout, de baixa ou na escola tipo zombies. A mim custa-me o sono e não durmo como deve ser. Ao contrário do que se diz não tem que ver com a idade mas sobretudo com a impotência de ver tudo ser mal dirigido, mal pensado e mal feito, com gritantes injustiças e abusos e de não conseguir introduzir bom senso e inteligência num sistema cada vez mais estúpido que premeia os simulacros.

 

 

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publicado às 20:44

 

 

Maioria dos professores queixa-se da indisciplina

 

... e apontar soluções únicas como, 'basta ouvir os alunos' é pueril. 

Há muitas causas para a indisciplina e não são fáceis de resolver embora certas medidas pudessem ajudar a diminuí-la. 

 

A principal causa da indisciplina é o lastro que os alunos trazem de casa e do contexto social. A maioria dos alunos não separa o espaço familiar do escolar, entram nas aulas como quem entra em casa e reproduzem os comportamentos do meio familiar: a atenção ao telemóvel, o excesso de familiaridade no estar e no falar. Como os próprios pais, na sua maioria, também não vêem esta diferença e reforçam nos filhos a indiferenciação dos espaços e funções, é difícil mudar esses hábitos comportamentais. A escola também reforça isto pois muitas vezes os pais vão queixar-se que os professores não deixam os filhos estar com o telefone ligado ou outra coisa qualquer do género como se fosse um direito que estão a violar-lhes e a escola concorda e diz, 'bem, se os pais não se importam'... o que é um falso argumento pois por essa ordem, se os pais não se importarem que os filhos sejam ladrões a sociedade tem que permiti-lo, não?

 

Acontece que as escolas não são coerentes. O regulamento diz claramente o que é permitido e o que é proibido mas depois não há vontade para ser consequente com os alunos que fazem distúrbios ou porque têm medo dos pais ou porque querem aparecer no papel [para a tutela] como escolas fantásticas e então varrem os problemas para debaixo do tapete o que tem consequências desastrosas porque os alunos sabem tudo sobre tudo o que se passa na escola e o lema deles é, 'o que uns podem os outros também podem'.

A questão da justiça e da equidade são fundamentais para os alunos. A recompensa pelo mérito e a diferenciação do demérito. Quando um professor ou a escola os trata como iguais desmoralizam completamente porque eles bem vêem quem é que tem 1000 faltas [sim, isso existe e não se chumba] e é tratado como se tivesse ido às aulas, quem é que nunca estudou e passa com o mesmo 10 que quem se esmifrou a estudar, quem é que perturbou as aulas e fez coisas incríveis a professores e colegas e no fim foi tratado como quem sempre esteve ali com respeito por todos.

Uma turma é um grupo estruturado com valores e uma identidade própria e estas questões são fundamentais para a coesão e sucesso do grupo.

 

Em segundo lugar, devido a esta mentalidade, os alunos vêem-se como espectadores e não actores do processo de educação e vêm para as aulas para ser entretidos com 'coisas giras' e espectaculares como fazem lá em casa que ligam a TV ou o PC e vão ver coisas com efeitos especiais e divertidas. Só que as aulas não são a TV e o cinema e os professores não têm efeitos especiais e, por muito que nós diversifiquemos as metodologias, haverá sempre parte da aula que será de rotinas como em todos os trabalhos e, nunca conseguiremos competir com os filmes do Spielberg, os jogos de PC ou PSP ou a pornografia e a Deep Web em que tantos alunos do secundário são viciados.

E culpar os professores dizendo que os alunos não aprendem porque as aulas não são interessantes ou que não conhecem os últimos divertimentos dos miúdos é um erro e um engano porque, apesar de querermos aulas diversificadas e interessantes, claro, a raíz do problema está em os miúdos serem educados logo desde cedo pela família e pelos meios de comunicação social e pela escola para serem intelectualmente passivos e não activos.

 

Em terceiro lugar, vem a falta de respeito pelo conhecimento e a constatação de que a escola, hoje em dia, já não é um passaporte para um emprego. Imensos alunos vêm a escola como um sítio onde vão buscar um diploma e notas para entrar na faculdade. Isto é um problema que tem que ver com a decadência da educação a nível global, engendrada pelos poderes corporativos por questões de lucro. Estas coisas pagam-se... a decadência dos cursos de Humanidades com argumentos economicistas levou à decadência do ensino como formação da pessoa e instrumentalizou-o, mercantilizou-o e é assim que ele hoje é visto.

 

O tamanho das turmas não ajuda. Quem toma estas decisões não tem idea ou já não se lembra do que é gerir uma turma com trinta e tal alunos adolescentes tendo que, ao mesmo tempo, inspirar-lhes o gosto pelo trabalho académico, pelo saber, pelo brio, ensinar técnicas, construir conhecimentos, etc. O número de alunos indisciplinados não é grande mas faz grande mossa porque os alunos estão na idade em que o grupo impera e se um toma a iniciativa de perturbar os outros vão todos atrás e quanto maior é a turma mais dificil é controlar. 

Quando os professores vão em visita de estudo, o ratio professor-alunos é de 1 para cada 15 porque se percebe a dificuldade de controlar grupos grandes. Pois dentro das salas de aula espera-se que o professor controle 30 e tal e que o faça durante horas e horas de seguida em não sei quantas turmas. À medida que o dia avança cada vez a pessoa tem menos resistência emocional. E não se pense que as mulheres têm menos controlo ou que os mais novos têm mais resistência. Não é verdade.

Há uma grande desistência e desânimo de muitos professores pela maneira indigna como têm sido tratados nos últimos anos, desde aquela fulana Rodrigues que se gabou de ter sacrificado os professores e tomou medidas concretas para a destruição do grupo. As carreiras congeladas desde 2005 [já lá vão 11 anos!], os cortes nos salários, milhares de professores que todos os anos são provisórios, alguns há 25 anos, as ofensas nos jornais... e o ambiente nas escolas está muito, muito, mau, as coisas estão muito más, apesar das pessoas o calarem por medo e o estado de espírito dos professores afecta os alunos, afecta o seu entusiasmo, a sua resistência, como é evidente.

 

Depois, a questão da enormidade dos programas não ajuda. O excesso de turmas e de trabalho burocrático dos professores que os mantém no fio da navalha. A deslocação... imensos professores estão deslocados das famílias por centenas de quilómetros e só vão a casa aos fins de semana. Etc., etc., porque existem outras causas como a má alimentação, por exemplo, os alunos irem para as aulas cheios de açúcar, a falta de exercício físico, as más condições das escolas, a estrutura não democrática das escolas que é um exemplo negativo que passa para os alunos, o autoritarismo e a falta de autoridade que andam a par um do outro...

 

Enfim, o que quero dizer é que estes artigos de jornais que reduzem os problemas todos a uma solução qualquer milagrosa como, 'ouvir alunos' ou 'novas tecnologias' ou outra coisa qualquer do género ou não percebem a complexidade do que está em jogo nas questões da educação ou não são sérios porque a realidade é complexa e precisava de pessoas com conhecimentos e experiência para pensar no assunto sem os clichés do costume de modo sério. O que não tem acontecido. Daí o estado em que as coisas estão. E na minha modesta opinião, ainda vão piorar.

 

 

é por isto tudo que:

 

Exaustos, desiludidos ou baralhados. Um terço dos professores sente-se assim

 

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publicado às 05:11


A escola prisão

por beatriz j a, em 28.06.16

 

 

da OCDE

 

 

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publicado às 07:40


Aquele momento em que acordas em 2016

por beatriz j a, em 24.05.16

 

 

 

 

 

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publicado às 19:26


:))

por beatriz j a, em 23.05.16

 

 

 

 

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publicado às 23:11

 

 

 

Recurso à tecnologia nas salas de aula prejudica resultados académicos

Um estudo publicado pelo departamento de Economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) conclui que as turmas sem computadores nas salas de aula obtêm melhores resultados do que turmas que podem recorrer parcial ou totalmente a tecnologia. As turmas que não usam tecnologia nas salas de aula conquistam melhores resultados académicos e conseguem responder a raciocínios mais complexos.

 

“Num ambiente com menos incentivos para a obtenção de bons resultados, menos restrições disciplinares a comportamentos distractivos e turmas maiores, os efeitos [negativos] do uso da tecnologia podem ser ainda maiores”, sublinha o estudo. Além disso, os investigadores acreditam que “retirar os computadores das salas de aula seria mais eficiente para a prestação académica de um aluno do que uma bolsa de mérito”.

 

A tecnologia é importante e interessante na sala de aula para auxiliar em pesquisas, para ilustrar ideias e práticas, para lançar uma discussão, etc., nunca como substituto do raciocínio, da argumentação, da síntese, da correlação, etc., que são processos que requerem esforço individual de prática e maturação intelectual. Saber tirar apontamentos das aulas continua a ser a melhor maneira de potenciar as competências intelectuais que sustentam as aprendizagens.
Como o estudo mostra, o tamanho das turmas tem influência directa nos resultados... mas isto são conclusões do MIT que ao lado da luminária chamada Crato e de outras eminências pardas tudólogas nada sabe, evidentemente...
 
 

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publicado às 05:09


Uma escola flutuante

por beatriz j a, em 06.05.16

 

 

Cool!!

Makoko, uma escola flutuante no meio das casas da lagoa. (Credit: NLÉ, Iwan Baan) 

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publicado às 21:44

 

 

É por isto: dinheiro. De facto, enquanto os professores querem a redução a pensar nos alunos os governos, na sua enorme incompetência de lidarem com a dívida pública, vão às escolas poupar dinheiro, porque... é fácil e só sabem fazer o fácil.

 

De forma a que sejam reunidos o máximo de dados sobre o tema antes que seja tomada uma decisão final, o Conselho Nacional de Educação divulgou os custos inerentes à redução de alunos por turma. Assim, tendo por base o custo médio anual de um docente contratado e de um assistente operacional, o encargo financeiro direto resultante seria superior a 750 milhões de euros.

 

 

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publicado às 05:44


A escola reflecte a sociedade

por beatriz j a, em 31.03.16

 

 

Crimes dentro da escola continuam a aumentar

 

A escola é um reflexo da sociedade, tanto nas suas estruturas como nas relações entre pessoas: desigualdade de oportunidades, pobreza, desemprego, pais com dois e três empregos para a sobrevivência, promiscuidade, violência, compadrios, bullying, falta de apoios sociais, etc. De modo que estas notícias não espantam.

 

 

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publicado às 12:20


Férias e TPCs

por beatriz j a, em 27.03.16

 

 

Quando os TPC se transformam num pesadelo em tempo de férias

 

Mandar trabalhos para férias é um contra-senso porque as férias, são, justamente, um tempo de pausa no trabalho.  

Nas férias desenvolvem-se actividades ligadas ao lazer, à arte, à descoberta, à família, tão importantes como as do tempo de aulas. Não quer isso dizer que não se possa consolidar aprendizagens, mas terão de ser realizadas de um modo diferente e lúdico, apropriado ao tempo de férias. Por exemplo, lembro-me de comprar para o meu filho, quando andava na escola primária, uns livros de pintar que mandavam pintar metade de qualquer coisa, ou um terço... quer dizer, para pintar qualquer coisa tinha que ler-se umas instruções simples que obrigavam a fazer uns cálculos ou a ler e perceber uma certa história, etc. Pode-se ler uma história todas as noites com os miúdos antes de dormir para manter vivo o gosto pela leitura. O xadrez é fantástico para desenvolver o raciocínio, o cálculo, a estratégia, a intuição. Pode-se inventar jogos, como por exemplo, quem é que vê mais matrículas de carros cujos dois primeiros números somem 'x' ou jogar à forca que desenvolve a linguagem... há dezenas de actividades que podemos fazer com os miúdos e que os obrigam, sem perceberem, a utilizar aprendizagens escolares. E, quando são mais velhos, há outros jogos e tarefas que podemos fazer nas férias. Cabe aos pais fazerem o seu papel de promotores de actividades nas férias. Agora, o que não podemos é desvirtuar as férias com trabalho escolar. As férias não são um direito reservado apenas aos adultos como se as crianças  e os jovens fossem imunes ao cansaço, ao stress, à ansiedade, etc.

 

 

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publicado às 11:24


Isto foi hoje na escola

por beatriz j a, em 17.03.16

 

 

... com os queridos alunos do 11º D - Um concerto de Sandor Mester organizado pela João - tocou Torroba e Carlos Paredes, entre outros.

 

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uma amostra 

 

 

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publicado às 18:59


É isto...

por beatriz j a, em 13.02.16

 

 

 

 

 

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publicado às 18:09


Olhei para isto e tive uma reminiscência

por beatriz j a, em 12.02.16

 

 

 

É que era mesmo assim. Era isto e depois espaldares e fazer o sino e, às vezes, no fim, jogávamos ao mata :))

 

 Gym class by vintage everyday

 

 

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publicado às 06:59

g.a


3-8-12



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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