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O ponto cego

por beatriz j a, em 14.02.18

 

 

“Por favor, retire esse quadro”: será a arte um espelho dos dogmas morais?

O autor deste artigo atribui a retirada de certos quadros onde o olhar do artista sobre as crianças é ambíguo, quanto à sexualização da imagem (coisa que o autor não reconhece pois simplifica a obra como, 'uma rapariga de cuecas') a um retorcido moralismo assente no dogma contemporâneo de que as crianças são seres puros e angélicos, parecido com o dogma, já desfeito, da heresia ser um mal. 

 

Parece-me que o autor não viu o mais importante. Há uma mentalidade que tem vindo a mudar desde que as mulheres ganharam o direito a serem independentes economicamente: a discussão sobre a sexualidade, embora ainda esteja marcada pelos padrões de 'normalidade' masculinos, já não é hegemónica e as mulheres abriram um campo de discussão acerca do que é normal, onde falam de violência, de abuso e de impunidade.

 

Hoje em dia, quando vemos os filmes do Humphrey Bogart, considerado um grande actor, o que reparamos é que em muitos filmes, quando se chateia com uma mulher que não lhe obecede, dá-lhe bofetadas. Era a mentalidade da época mas hoje aparece-nos chocante a violência e o desrespeito com que trata as mulheres, sendo que no filme isso era considerado charmoso.

 

Também na arte, hoje olhamos para as pinturas e, tendo outra mentalidade e outros recursos mentais vemos o que era o 'normal' na época em que o artista fez a obra e damo-nos conta de que há muita 'pornografia' na arte. É preciso ver que os tempos eram outros e as coisas eram mostradas com uma sensibilidade que na altura chocava mas hoje, dado o mercado da pronografia online, aparecem-nos como muito delicadas, até.

Como o articulista sabe, antes do advento da fotografia, a pintura tinha também esse serviço de mostrar os locais e as pessoas a que não se tinha acesso directo. Os patronos que sustentavam os pintores pediam-lhes, muitas vezes, para terem nos seus gabinetes privados, pinturas de mulheres nuas ou em poses eróticas. Era a pornografia da época. Isso hoje é evidente ao olharmos certas obras. Quando entramos em museus as paredes estão saturadas de mulheres nuas (em pé, deitadas, de pernas abertas, etc) e homens quase sempre vestidos. A maioria dos artistas eram homens...

Portanto, não é um moralismo retorcido, é as pessoas olharem para as coisas como se nunca as tivessem visto, reparando no olhar do artista.

 

Outro dia passou na TV o filme, Frida, sobre a vida da artista, com a atriz  Salma Hayek. Há uma cena no filme que me custou ver. É uma cena de sexo lésbico entre Frida e outra mulher. Custou-me ver a cena porque já tinha lido sobre a chantagem e as perseguições que Weinstein lhe fez, com ameaças de destruir-lhe a carreira, se ela não aceitasse filmar aquela cena, que não estava no guião. Tudo porque fazia parte das suas fantasias sexuais vê-la nua numa cena lésbica. No dia da filmagem, que ela acabou por ceder em fazer, com medo dele, ele (e, quem sabe, os amigos) apareceram no estúdio para assistir... a cena, vê-se perfeitamente, é posta ali a martelo no filme, e ao vê-la senti-me como se estivesse a ver uma violação.

 

Hoje em dia, muito mais que antigamente, olho para muitos filmes e vejo claramente que as cenas ditas eróticas mais não são que pornificação do corpo das mulheres, muito provavelmente porque o realizador queria vê-las nuas em poses sexuais. Raríssimas vezes vi uma cena dita erótica num filme que não fosse filmada do ponto de vista masculino, explorando o corpo das mulheres para venda.

 

Deve tirar-se as obras dos museus por causa disto? Não. Assim como não devemos destruir os livros ou os contos ou os filmes em que as raparigas aparecem como burras incapazes que só dão gritinhos. Ficam como testemunho histórico de como as coisas eram (e ainda são).

 

Agora, o que não se pode esperar é que este abrir a tampa do esgoto dos abusos sexuais contra mulheres e crianças não tenha consequências. O que não se pode esperar é que continuemos a ler esses livros às raparigas e a elogiar as cenas eróticas de filmes que sabemos foram impostas com assédio às actrizes.

 

Hoje li num artigo de jornal um tipo qualquer a chamar histéricas às mulheres (original...) e a dizer que está muito preocupado com o futuro dos filmes eróticos. Achei piada: quer dizer, quantas vezes viu/soube nos estúdios assédio, abusos, humilhações gratuitas de mulheres com intuitos de lascividade ou comerciais? [Há um site, de há vários anos, onde as mulheres dizem o que passam nos estúdios, onde se vê que o assédio, o abuso e o rebaixamento das mulheres é uma realidade banal e à vista de todos.] Isso nunca o preocupou nem o levou a falar. O que o leva a falar é as 'histéricas' poderem impedir filmagens de erotismo.

 

Hoje em dia também se sabe que há uma rede de produtores em Hollywood que actua há décadas no sentido de fazer filmes infantis para poder ter acesso a crianças. É evidente que isso nos faz olhar de modo diferente para certos filmes e as reações não têm que ver com um dogmatismo que endeusa as crianças, têm a ver com uma consciência crescente acerca da destruição da vida das pessoas por causa de abusos na infância e têm a ver com já não considerarmos normal o que até há pouco era considerado normal ou, pelo menos, tolerado.

 

Ontem estava a ver um concerto em que o maestro é James Levine, um indíviduo que me habituei a ver, durante grande parte da minha vida, à frente da orquestra do MET. Pois sabe-se agora que toda a gente naquele meio sabia que ele perseguia jovens rapazes e que se estes se lhe recusassem, dava-lhes cabo da carreira. Dei por mim a reparar quem na orquestra era um jovem rapaz...

 

A terceira lei de Newton fala da acção e reação, “A toda ação sempre há uma reação de mesma intensidade e direção, porém sentidos opostos.”

 

Em vez de chamarem histéricas às mulheres e de se queixarem de já não ser fácil filmá-las nuas ou em cenas eróticas, podiam fazer qualquer coisa que contribuísse para a erradicação deste cancro que são os abusos sobre mulheres e crianças às mãos de gente sem escrúpulos.

 

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publicado às 11:31

g.a


3-8-12




no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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