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Desfazer mitos da educação

por beatriz j a, em 04.02.18

 

 

Porque as pessoas sabem nada do que se passa nas escolas e à volta delas mas têm sentenças: que os professores não prestam é a mais comum e na altura dos rankings, como na altura de nos cortarem salário é mato. É assim como eu dizer que o SNS está mal porque os médicos não prestam e porque os enfermeiros não prestam; ou que a justiça está uma miséria onde só os ricos têm dinheiro para ela e se pomos um caso hoje, só daqui a 40 anos, quando estivermos a fazer tijolo é que se revolve, porque os juízes são todos uns incompetentes que só querem privilégios; ou que os serviços públicos funcionam pessimamente porque os funcionários públicos são todos incompetentes, etc.

 

mito nº 1 - dantes é que os alunos aprendiam alguma coisa e os professores eram bons e agora são todos uns incompetentes. Eu estive dos dois lados da barricada. Dantes os professores eram como são agora: uns gostavam de crianças e de adolescentes e de ensinar e outros estavam ali só pelo salário. A diferença é que dantes, se um aluno era diferente, se tinha dificuldades ou problemas ninguém na escola queria saber, isso era problema dele e dos pais. Não havia nenhum mecanismo de detectar e ajudar alunos. Também, na maioria dos casos, os professores despejavam matéria sem olhar para os alunos e não respondiam a dúvidas. Chamavam burros aos alunos que tinham dúvidas. Na escola primária pública onde andei (aí havia uma mistura de alunos porque era obrigatória), a professora punha-me a mim e a outros à frente (éramos filhos do senhor engenheiro, do senhor advogado, do notário, do senhor dr. médico, etc) e aos outros todos atrás. Na última fila ficavam os filhos dos ciganos que a GNR tinha de ir buscar a casa. Só olhava para os de trás para lhes chamar burros. A única coisa democrática que havia ali era que levávamos todos réguadas dela. Ricos e pobres, não escapava ninguém... 

No dois Liceus onde andei, um em Évora (onde é agora a Universidade), outro em Lisboa, não havia pobres. Em Évora, na minha turma estavam as minhas amigas, filhas de amigos dos pais, também engenheiros, ou médicos, ou advogados, um juíz, latifundiários da cortiça ou do gado, um arquitecto, etc. Havia na turma uma rapariga com nome arábico filha de um dono de ourivesarias, um rapaz filho do director do jornal... não havia filhos de operários, de desempregados, de camponeses...  As minhas irmãs andavam em turmas onde estavam as irmãs e primas das minhas amigas. Em Lisboa, da minha turma faziam parte as pessoas que vinham da zona onde morava (o Restelo), alguns figuras hoje muito conhecidas publicamente e pessoas de Alcântara, que a escola servia as duas zonas. Não me lembro de ver lá pobres.

De todos os professores que tive, as professoras de francês foram de longe, as melhores. Gostavam mesmo do que faziam e ensinavam. Tive duas professoras de matemática boas (um péssimo) e uma professora de F.Q e outra de ciências, que ainda recordo positivamente. De resto, os professores de português foram medíocres, quase todos, os de história uma catástrofe, os de inglês falavam só português... acontece que a minha mãe compensava isso tudo de modo que os maus professores que tive acabaram por não me fazer mossa. São como os alunos dos colégios de hoje. O trabalho dos professores nessa altura era ir à aula despejar matéria e ir embora tal como ainda fazem muitos professores na Universidade.

No entanto, nunca tive um professor excelente (excepto as de francês, que para além de ensinarem a língua preocupavam-se com a nossa formação e em ter uma relação pedagógica connosco) como vejo muitos colegas serem. No meu 7º ano (que corresponde agora ao 11º ano) fui a exame a tudo menos a francês porque deixei de ir às aulas. Eu que me interesso por tudo, gosto de ler sobre tudo quanto é assunto, de aprender tudo e tenho uma curiosidade incansável, andava obsessivamente à procura de respostas e não tive um único professor (excepto a de francês) capaz de me ensinar fosse o que fosse e de me fazer interessar pelas aulas, de modo que deixei de ir às aulas e ficava em casa a devorar livros e a aprender sozinha. Resultado, tive que ir a exame a tudo menos a francês.

 

mito nº 2 - os explicadores é que são bons.

O escândalo das explicações é assim: há três tipos de explicadores.

1. praticamente em todas as escolas do país há professores que também são explicadores; na maioria delas, os explicadores dão explicações, alguns aos próprios alunos ou a alunos de colegas, o que é proibido por lei. Os professores partilham materiais, muitos fazem testes em conjunto... ... toda a gente sabe e ninguém diz nada porque hoje em dia um professor que seja casado com outro professor e tenha dois filhos e uma casa para pagar chega a meio do mês e não tem dinheiro para levar os filhos a um médico se for preciso. Muitos professores mais novos dão explicações nos centros de explicações onde andam os seus alunos e os alunos dos colegas.

Um amigo do meu filho, há muito anos, tinha explicação de Latim, com o seu professor de Latim, sendo que a turma dele era ele e mais outro...

2. há o professor que deixou de dar aulas, por qualquer razão e foi dar explicações. São cada vez mais raros porque regra geral hoje em dia as explicações funcionam em centros. Esses ex-professores conhecem as escolas e os colegas uma vez que deram lá aulas e sabem valer-se disso...  hoje em dia é o vale tudo. No ano passado um rapaz, dentro da aula a fazer teste de matemática, tirou uma fotografia ao teste e enviou ao explicador pelo whatsapp e este mandava-lhe fotografia dos exercícios resolvidos. Foi apanhado. Isto hoje em dia é mato. A explicadora que é professora de Português e faz exames nacionais de Português não passou o exame aos explicandos...? Pois, assim é fácil... as pessoas precisam de justificar o dinheiro que levam aos pais que não é pouco.

3. Há os indivíduos que nunca foram professores e se viraram para as explicações por necessidade, no tempo da troika. Por exemplo, conheço um casal que dá explicações de matemática, física e química. Ela é engenheira e ele é engenheiro técnico. Ficaram desempregados. Na cidade onde vivem, que é pequena, têm imenso sucesso. Foram arquivando e organizando pastas com os testes de todos os professores da cidade (uma pessoa usa questões de uns anos para outros) e treinam os alunos para os testes, pois sabem que tipo de teste um professor costuma fazer para determinada matéria e até sabem algumas questões que sempre fazem. Eles não ensinam. Treinam os alunos para resolver testes. Há uma grande diferença. Não têm que educar competências, trabalham com dis ou três alunos de cada vez, ou sozinhos, o que é mais caro, trabalham em casa...

 

Os explicadores, na sua maioria são um empecilho, porque os alunos vão para as aulas e não fazem nada porque depois, eles próprios dizem, os explicadores fazem-lhes os trabalhos de casa. Muitos explicadores desfazem o trabalho dos professores, quer dizer, sendo engenheiros químicos, por exemplo, não sabem ensinar a matemática ou a física e baralham completamente os alunos. Todos os bons professores que conheço detestam os explicadores porque a maioria estraga-lhes o trabalho.

Eu não dou explicações porque não quero pois durante anos e anos, todos os anos me vinham pedir se dava explicações. Ainda hoje, mesmo sabendo que digo sempre que não, de vez em quando vêm pedir-me. Nunca daria explicações a alunos de colegas, não só porque é ilegal mas porque é de uma falta de Ética de todo o tamanho.

 

Não dou explicações mas ajudo pessoas de família, às vezes, outras vezes não. Já aconteceu virem ter comigo pedir ajuda porque a 'professora deles não presta', porque 'embirra com eles'... peço para ver os testes, faço-lhes meia dúzia de perguntas e fico a saber que vão para as aulas armados em parvos chatear os professores e não estudam nada. Esses estão para lá de qualquer ajuda. O problema deles é a atitude idiota que têm e os pais ajudarem a que não tenham respeito pelos professores.

Uma vez ajudei um rapaz da família que já acabou o curso e já trabalha. Andava no Liceu Francês e chegou a Maio, a um mês do Bac, que é feito ao mesmo tempo no mundo inteiro, ainda não tinha pegado no livro de Filosofia e a nota mais alta que tinha tido era um 4, em 20... Perguntei-lhe, 'olha lá, mas o que fizeste nas aulas'? 'Não fiz nada, não percebi aquilo ao princípio e desliguei.'

A Filosofia do currículo francês é diferente: só têm a disciplina no 12º ano, têm uma carga horária semanal enormíssima e aprendem 4 grandes temas filosóficos. Perguntei-lhe se estava disposto a estudar duas horas todos os dias, dali até ao exame, exactamente da maneira que eu lhe dissesse. Disse-me que sim.

Passei um único Domingo com o miúdo. Seis horas de enfiada, com 2 intervalos de 5 minutos para comer. Ele aguentou tudo. [porque é que não aguentou nem um mês de aulas e não fez lá nada? porque não lhe apeteceu] Primeiro tive que ver o livro e perceber a organização daquilo e como é a estrutura do exame. Depois expliquei-lhe o que é a Filosofia e qual é o interesse de a estudar. Depois expliquei-lhe os dois primeiros temas do livro e expliquei-lhe que já não tinha tempo de estudar a matéria toda e tinha que saber muito bem aqueles dois temas e esquecer o resto se quisesse passar no exame. Depois disse-lhe exactamente como devia usar o livro e estudar (ele não sabia estudar), como treinar escrever as respostas em cada tema e, ensinei-lhe alguns truques sobre modos de melhorar muito as respostas aos olhos do examinador, em exame (são muitos anos a virar frangos...).

Disse-lhe exactamente como escolher o tema livre no exame de modo a coincidir com um dos temas estudados e poder falar do que sabia. Mandei-o ir às aulas que faltavam e disse-lhe o que fazer nas aulas para subir a nota. O miúdo subiu a nota, foi a exame e tirou 12. Achou que eu tinha feito um milagre. Mas eu não fiz nenhum milagre. Não lhe ensinei nada da Filosofia - treinei-o a dar respostas, a saber escolher temas e dei-lhe estratégias para passar um exame. Isso não é ensinar, ele não aprendeu Filosofia. O que aconteceu foi que ele seguiu as instruções e estudou, coisa que não tinha feito até então, porque se tivesse usado as aulas para estar atento e estudar, desde o início, tinha ido a exame tirar 18. O que ele aprendeu ali foi a saber que estudar resulta, que implica muito trabalho e que se quisesse muito fazer uma coisa, era capaz. 

 

A necessidade de  explicações mostram o excesso de alunos por turma (quase todos os meus sobrinhos andam em colégios. As turmas têm 12 alunos...), os alunos de meios empobrecidos, económica e academicamente, sem pais que os acompanhem, os professores colocados nas escolas quase em Novembro e os alunos a perderem meses de matéria, os professores que vêm do Porto para dar aulas em Setúbal longe dos filhos pequenos, completamente desmotivados, os professores com 10 turmas, os professores que têm que ir para casa dar explicações para ter dinheiro que chegue até ao fim do mês, mostram um negócio que se faz à conta de não se resolverem, antes pelo contrário, os problemas das escolas. E a maioria dos explicadores sabota o trabalho dos professores. Que se pense que é aos explicadores que se deve o ensino, é o mesmo que dizer que devemos a justiça à polícia. 

 

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publicado às 16:38

g.a


3-8-12



8 comentários

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De JB Berdmen a 04.02.2018 às 20:44

...isso tudo que relata é "mato", como bem diz, mas uma coisa eu sei: é para os humildes que o professor existe, é por eles que o sol nasce e aquece verdadeiramente o coração... as explicações são uma "mina" que vive à custa do mal dos outros - um mercado paralelo, livre de impostos, que serve para desagregar o indivíduo e atrapalhar a vida a quem por vocação se dedica a educar os filhos dos outros e de todos nós!
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De beatriz j a a 04.02.2018 às 20:58

Mas os ministros não mexem nisso como não mexem em muita coisa que está mal.
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De Anónimo a 04.02.2018 às 21:07

Boa noite:
Parabéns pelo destaque.
Concordo na maioria dos pontos focados excepto naquele em que diz que os "engenheiros químicos, por exemplo, não sabem ensinar a matemática ou a física". E se forem eng.electrotécnicos, ou mecânicos?
Esses já sabem ou tudo que é eng.º é farinha do mesmo saco? Pura e simplesmente não sabem ensinar matemática? Os 2 primeiros anos de eng.ª têm uma grande carga matemática e penso que qualquer eng.º é perfeitamente apto para dar aulas de matemática (aliás os eng.º têm habilitação própria para dar aulas de matemática). Como em tudo na vida há bons professores (principalmente porque sabem comunicar) e maus professores (podem saber mais que os outros mas não se conseguem exprimir de forma a passar os seus vastos conhecimentos) bons e maus explicadores e assim por diante.
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De beatriz j a a 04.02.2018 às 21:25

Foi um exemplo. Apenas.
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De Anónimo a 04.02.2018 às 21:26

"A necessidade de  explicações mostram o excesso de alunos por turma (quase todos os meus sobrinhos andam em colégios. As turmas têm 12 alunos...)"
Doze alunos é demasiado ou entendi mal? É que na minha escola existem turmas com 26 alunos...
De resto, concordo com tudo e acho bem merecido o destaque. A maior parte das pessoas não tem noção destas coisas.

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De beatriz j a a 04.02.2018 às 21:34

Nos colégios, ou pelo menos aqueles de que tenho conhecimento, as turmas só têm 12 alunos, o que é muito diferente de trabalhar com 30.
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De P. P. a 05.02.2018 às 00:25

Excelente artigo.
Parabéns!
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De beatriz j a a 05.02.2018 às 07:41

Obrigada :)

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