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A educação sem ética é um mero negócio

por beatriz j a, em 30.03.17

 

 

Hoje soube que um aluno/aluna, numa aula de Matemática em que se fazia teste, tirou fotografia do teste, enviou para um colega que enviou para o explicador, que resolveu o teste e enviou a fotografia do teste resolvido para o colega que o enviou para o aluno/aluna na sala de aula... o professor deu conta do aluno/aluna estar a usar o telemóvel e foi assim que se descobriu tudo. Há aqui tanta coisa tão grave que nem sabemos por onde começar mas a pior de todas é o explicador ter sido cúmplice activo da fraude. Merecia uma queixa... Os alunos copiarem assim ou de modos idênticos, agora, é pão nosso de cada dia. No mês passado houve outro caso de copianço com telemóveis e fotografias de testes que envolveu três alunos. No ano passado houve um caso gravíssimo de roubo de testes que envolveu uma turma inteira com os respectivos pais.

 

Em Portugal não se valoriza a fraude como coisa grave o que não espanta porque a cultura de fraudes, falcatruas, mentiras, calotes e afins vem de cima dos responsáveis pelos cargos mais altos do país e depois é imitada pelos outros por aí abaixo. Estes alunos que cometem fraude nas aulas são os que hão-de cometer fraudes na vida profissional adulta. Mas nas escolas imensa gente não percebe ou finge não perceber isso e acha que o copianço é uma espécie de fair game, que faz parte de ser aluno. Só que não faz. Faz parte de ser desonesto. E, tal como na política, a educação sem ética é mero negócio.

 

 

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publicado às 17:02

g.a


3-8-12



6 comentários

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De André a 30.03.2017 às 18:34

Aqui há uns poucos anos, dava aulas numa licenciatura muito concorrida (centenas de alunos nas aulas) de uma universidade privada cá do burgo. Fiquei chocado quando, logo no primeiro ano, identifiquei as fraudes em testes e ensaios na ordem dos 66%. A direcção da universidade lá me tentou explicar que eu não podia anular as avaliações daquela gente toda, que representava muitas dezenas de propinas pagas a peso de ouro mensalmente. Como precisava do emprego e tenho muitos telhados de vidro, lá os convoquei para exame oral e acabei por correr com quase toda a gente com 9,5.
No ano seguinte, já calculando a cultura do copianço, alterei o esquema de avaliação: "a partir de hoje, todos os testes e exames são com consulta; tragam o que quiserem, como quiserem, e eu avalio o que vocês conseguem fazer pela vossa cabeça". Foi só rir, era vê-los desesperados a virar páginas e a teclar furiosamente, a demorar 3 horas para entregar um parágrafo... Os próprios alunos rogaram-me que não voltasse a fazer avalizações com consulta livre.
Ao tornar-se cultura e possibilidade de hábito, o copianço deixa de ser transgressão para passar a constituir como que uma moral (ou técnica) alternativa, que se justifica segundo os seus próprios pressupostos e não se considera a si mesmo imoral. Trocando-lhe as voltas, fica de mãos vazias e não sabe retornar à prática corrente original.
Isto é gravíssimo e sintomático de como uma defesa do pluralismo facilmente se vem confundindo com um "laissez faire" ético.
Evidentemente, desde então que todas as avaliações que faço permitem a consulta de quaisquer materiais...
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De beatriz j a a 30.03.2017 às 18:48

Estou completamente de acordo consigo. Eu não posso fazer todos os testes de consulta porque os alunos fazem exames nacionais mas, nas aulas, obrigo-os, desde o 10º ano, que é quando os apanho, a terem os telemóveis desligados, em cima da mesa, à vista e, em dias de teste, não deixo que tenham coisa alguma em cima da mesa para além do telemóvel desligado, bem à vista, a folha de teste e a caneta para escrever. Só deixo usar telemóveis na aula em situações muito controladas e específicas em que é benéfico mas, só depois de criar uma relação de confiança com eles.
No 12º ano às vezes faço testes com consulta mas as questões são diferentes, obrigam a relacionar temas e os critérios de correção são diferentes... eles não gostam...
Nos trabalhos, têm um guião com critérios e é obrigatória apresentação escrita e oral, o que me dá um enorme trabalhão mas, não sendo assim, mais vale não mandar fazer trabalhos porque não aprendem nada.
No início do ano quando os alunos ainda não me conhecem faço um grande discurso antes do 1º teste em que explico que há dados que mostram que o nível de corrupção dos países está relacionado com a percentagem de copiadores nas escolas e universidades e que nem eu nem eles andamos aqui para aumentar a corrupção no país e que se os apanho a copiar perco a confiança neles e que depois é difícil voltar a ter.
Mas lá está, também aprendi com a experiência e, à minha custa, como no seu caso, a minimizar as oportunidades de copianço.
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De marina malheiro a 30.03.2017 às 22:21

Gravíssimo. O pior é que infelizmente este não é o único caso. Deviam ser proibidos os telemóveis nas escolas e a rede wireless cortada durante testes e exames.
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De beatriz j a a 31.03.2017 às 05:18

Isso não sei porque há situações em que o uso do telemóvel, controlado, pode ser interessante. Agora, acho que as regras do uso de telemóvel deviam ser muito restritas.
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De Paulo Vasco Pereira a 31.03.2017 às 01:22

Como entendo.
Há explicadores e explicadores, professores e professores... Enfim, passei por situação idêntica na aplicação de um teste de matemática do 6.º ano. Denunciei a situação na direção, sendo o explicador uma colega de grupo. Ouvi: "Já estamos habituados às sucessivas faltas de educação da prof.ª X, mas sendo ela desta região e tu não, nada podemos fazer!".
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De beatriz j a a 31.03.2017 às 05:19

Ah que horror! Isso é lá argumento! Isso é incrível...

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