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desafios da europa

por beatriz j a, em 12.11.10

 

 

 

A Carta Aberta da APEDE parece-me ir ao encontro duma consciência que começa a formar-se na Europa acerca da necessidade dos povos que a integram ultrapassarem as respectivas fronteiras nacionais e conjugarem esforços no sentido de evoluirem das lógicas patidário-monopolistas que estão a destruir aquilo que era, não há muito tempo, o ideal desta civilização, desde o Iluminismo: construção de Estados vocacionados para a paz, para a vida em liberdade (de credo, opinião, raça, etc.), para uma progressiva melhoria das condições de vida das pessoas, para um sistema em que todos contribuíssem para o bem comum. Este ideal está em perigo de regressão.

Na verdade, o que se passa em Portugal neste momento -governo e oposição parecem, sem ofensa, galinhas na capoeira à vista da raposa: correm esvoaçando a cacarejar dum lado para o outro em pânico- passa-se também na Europa a uma maior escala. Gritam e esbracejam em pânico com medo de perderem a posição dominante no jogo do mundo, que desde o fim da guerra fria mudou de regras e de centros de poder. Medo de perder poder para a China, para o Japão, para a Índia, etc. À conta disso embalaram numa vertigem de economia de mercado livre e multinacionais poderosas capazes de influenciar os regimes políticos às suas necessidades. Daí à corrupção generalizada foi um passo.

Está na altura de se responder a esse desvio de rota e reafirmar aquilo que -ainda- sentimos como fazendo parte da identidade europeia. Ora, isso só se faz rompendo com estas lógicas de lucro a todo o custo -e o custo agora é a vida das pessoas-, monopólios, ideologias caducas e máfias instaladas no poder. Isso, far-se-à, apenas, se os europeus forem capazes de associar-se foras dessas lógicas em movimentos transnacionais que tratem os problemas nessa óptica, pois os nossos problemas, bem como o dos outros, já não são nacionais: o que os outros países fazem afecta-nos até ás coisas mais pequenas da nossa vida quotidiana - e vice-versa, de modo que é assim que os problemas têm que passar a ser vistos, pensados e tratados. Ora, as estruturas sindicais e políticas actuais não estão organizadas para estes fins nem estarão, porque as pessoas que as lideram ainda pensam num quadro de lógicas do tempo da guerra fria e não souberam avançar para responder aos novos desafios mantendo os princípios identitários.

Hoje vem uma entrevista do Jorge Lacão no JN onde diz que não vale a pena remodelar o governo porque os problemas não se resolvem mudando as pessoas. Pois, se é para mudar para outros do mesmo esquema, de facto não vale a pena. Era preciso, e é preciso outro tipo de pessoas, com outra mentalidade, outra racionalidade, outros princípios orientadores fora deste esquema de partidos-clubes.

É chegada a altura de se ver se a tal matriz europeia de cidadania, autonomia e liberdade funcionou e criou pessoas capazes de se erguerem e assumirem os seus direitos e responsabilidades de povos livres.

Se não surgir agora nenhum movimento endógeno reformador, isso significará, a breve trecho, o fracasso da Europa enquanto modelo positivo de civilização para a paz, a liberdade, a autonomia, a responsabilidade, em suma, a cidadania.

 

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publicado às 05:21

g.a


3-8-12




no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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