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A poesia e os poetas deste país

por beatriz j a, em 08.08.10

 

 

 

 

Todos os dias abrimos os jornais e parece que descobrimos um Portugal sem poesia: violência doméstica, brutidade, alunos e pais que agridem professores, insultos entre políticos, corrrupção, desvio de dinheiros, abuso de poder, desemprego, pobreza, prostituição infantil, pedofilia, crime...

No entanto, Portugal não perdeu a poesia nem os poetas. Pouco se vêem, é verdade, porque o Estado, na pessoa do ministério da Educação, os anda a substituir por textos do Big Brother, porque a cultura não é vista como um investimento formativo do povo (embora se inveje a cultura dos outros...), porque as editoras, na sua maioria, preferem editar livros sobre romances tórridos sexuais, memórias de prostitutas, de jogadores de futebol e de gente que aparece nas telenovelas e filmes, porque as livrarias não querem ter livros de poesia à venda...não são comerciais - a não ser os grandes nomes, como o Camões, o Pessoa, etc.

Mas em Portugal a poesia existe e há quem edite poesia para além dos grandes nomes. Quem edita poesia mantém viva a seiva poética vital que sempre alimentou este país.

O meu amigo Gonçalo Martins, da Chiado Editora, publica poesia. Boa poesia, menos boa poesia...não interessa. Interessa a iniciativa de a publicar. Cada livro que se publica é um acontecimento que reúne pessoas em volta dela, faz reviver o interesse pela poesia, pela cultura viva do povo que escreve, que pensa, que produz cultura.

Enquanto houver poetas a fazer poesia há esperança para este país, porque a poesia é a não desistência, é a resistência, é a procura dum mundo onde têm lugar, a Beleza, a Verdade e a Humanidade.

Não tenhamos dúvida sobre a nossa poesia actual. Ángel Crespo, um dos maiores lusitanistas e grande poeta, na sua Antologia de Poesia Portuguesa escreveu que «la poesía portuguesa contemporánea muestra … una variedad tal de enfoques e soluciones que hacem de ella una de las mas significativas de nuestro tiempo».

Tão-pouco nos devemos confinar a uma ironia sarcástica contra um mundo cruel. Sem dúvida, a poesia terá de ser um «refúgio» contra a voragem tecnocrática, contra o desrespeito pela beleza do mundo, contra a destruição da paisagem. Os seus são os valores da vida, a poesia é, como Croce sempre defendeu, a «palavra cósmica», uma forma de não se submeter, mas de se indignar, de estar ao lado dos humilhados, uma afirmação humanista.

Retenhamos estas palavras de Rainer Maria Rilke, nas suas «Cartas a um jovem Poeta»: «ser artista é amanhecer como as árvores, que não duvidam da própria seiva e que enfrentam tranquilas as tempestades da Primavera, sem recear que o Verão não chegue».

Teremos de ser como elas, que não põem em causa a própria seiva e que resistem às tempestades da Primavera. Contra o desprezo pela poesia, oponhamos a nossa perseverante defesa. E ofereçamos os nossos livros, com um gesto fraterno.

António Osório, 21 de Março de 2010

 

(excerto do blog A Phala de Abril 2010)

 


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publicado às 11:04

g.a


3-8-12



4 comentários

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De pereira a 09.08.2010 às 12:28

É verdade, um caos perfeito, onde tudo é permitido, uma liberdade completa, onde cada qual faz o que entende, não há normas para cumprir, mas elas existem e são fornecidas em catadupas pelo poder absoluto, de modo que as pessoas, apesar da era eletrónica e de informação, não as podendo absorver e nelas refletir ..deixam tudo assim como está, e as instituições ficam cheias, num caos perfeito..onde não há nada para fazer..é o próprio caos que ordena tudo, ele é senhor das nossas vidas...as quais, por sua vez, tem ampla liberdade: falar virtualmente como eu aqui estou a fazer, e, quem quiser pode experimentar tudo aquilo que seria proibido num estado de ordem:.....O cidadão reclama e queixa? Sim senhor! Tem direito de reclamação constitucional. Claro, reclamou e o direito já está exercido. A reclamação fica em incubação meses, anos...Tudo assim está bem, pois é o estado de caos e ainda enriquecido na parte sensual com as "Tentações de S. Antão", sobretudo agora com o verão..pois, vale tudo nesta vida...Em conclusão vivemos em poesia! Para que fazer mais poesia escrita?
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De pereira a 09.08.2010 às 13:02



Quando chegar o reino do céu, aqui na terra, acha que será mais necessário pedir para ele "o reino do céu" chegar aqui na terra! Claro que não! O passado, os templos, independentemente, da religião, apenas servirão para retratar a vida anterior! O passado será um museu e o fim da história das nossas vidas materiais, e, o começo dum homem mais espiritual, vivendo sem poluição alguma e em completa liberdade!!!!!!!
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De beatriz j a a 09.08.2010 às 13:05

Não estou de acordo que o caos e a ausência de normas (anarquia) sejam liberdade. Onde não há regras estabelecidas impera a lei do mais forte e não há liberdade mas opressão. Onde não há liberdade as pessoas desumanizam-se. A poesia, como eu a vejo, não é caos nem anarquia, é Humanidade. A grande poesia consegue captar o universal que há no nosso particular. Aqui há tempos pus aqui um poema dum grande poeta e um amigo disse-me, 'aquele poema que pôs no blog é daqueles que ficam connosco e usamos em alturas de desalento'. A poesia faz vir ao de cima o que de melhor há no homem e é uma força para quem precisa dela. Quando a lemos sabemos que não estamos sós.
Mesmo os que escrevem apenas umas cenas (como eu) transformam sentimentos e ideias em qualquer coisa concreta que pode ser partilhada no campo do lado melhor da Humanidade. A poesia constrói um Cosmos a partir do Caos.
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De beatriz j a a 09.08.2010 às 13:34

Acredito que podemos construir um homem mais espiritual mesmo enquanto nesta existência material. A poesia, a arte e a filosofia trabalham para isso.

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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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