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chumbos - sintomas e causas

por beatriz j a, em 02.08.10

 

 

 

É verdade que os números dizem que os alunos que chumbaram uma vez têm mais probabilidade de voltar a chumbar do que os que nunca chumbaram. Mas, mais uma vez, o pessoal do ministério olha para os números e toma-os pela realidade, quer dizer, interpretam-nos do seguinte modo: 'se um aluno que chumba tem mais probabilidades de voltar a chumbar, então a causa do insucesso é o próprio chumbo'. Este raciocínio é aquilo que o Platão chamava 'confundir-se a causa das coisas com o devir das coisas no mundo'. Ou seja, não é o acto de chumbar que leva ao insucesso, mas sim as causas que estão por detrás desse chumbo. Se fosse, diríamos então que a causa da varicela são as borbulhas porque os números dizem que de cada vez que alguém tem aquelas borbulhas aumenta em muito a probabilidade de ficar muito doente...

Um aluno pode não conseguir cumprir objectivos por muitas razões: falta muito às aulas; vem às aulas mas não trabalha, não estuda; está todos os dias no computador até às 3 da manhã e está sempre cansado e com sono; não tem nenhum tipo de acompanhamento em casa; problemas exteriores à escola estão a afectar a disposição geral; tem dificuldades no cálculo; tem dificuldades na Língua Portuguesa (não tem os rudimentos instrumentais da Língua); detesta o estudo em geral; os pais estão desempregados e não há dinheiro nem para comer; tem uma doença qualquer que afecta o desempenho, etc., etc.  O que cahamamos pedagogia diferenciada é justamente ser capaz de detectar a tempo o que está a empecilhar a aprendizagem e agir a tempo, seja com apoio seja com tutoria, etc. Nem sempre funciona. As pessoas não são coisas e a pedagogia não é uma ciência exacta. Não podemos ser, penso eu, radicalmente behavioristas ao ponto de pensar que as pessoas são robots e que basta acionar o botão certo para que reajam da maneira como queremos.

É claro que para isto funcionar é necessário investimento: menos alunos por turma, menos alunos por escola, menos turmas por professor, ênfase na Direcção de Turma, autonomia para trabalhar com os alunos em apoios, equipa de professores tutores, psicólogo...porque acabar com os chumbos sem atacar as causas desses chumbos, quer dizer, apenas passá-los mas deixá-los como estavam só vai ter como consequência a desvalorização dos currículos, a degradação dos instrumentos de avaliação - que são tão importantes para os alunos terem noção da situação em que estão na aprendizagem e saberem se precisam de investir mais ou não- e a desresponsabilização generalizada.

Na prática os alunos passarão a faltar a todos os testes e exames uma vez que não terão consequências na sua vida. E de que modo isso os ajuda na construção da suas vidas?

Se os chumbos custam 600 milhões, quanto é que custará uma ou duas gerações de cidadãos irresponsáveis, habituados a exigirem sem contribuirem?

As causas do insucesso não são os chumbos. Os chumbos são o sintoma do que não está a ser feito nas escolas, e fora das escolas, no contexto social. Camuflar os sintomas sem atacar as causas é assim como ter varicela e pintar as borbulhas para que não se vejam deixando que a doença continue a fazer o seu trabalho subterrâneo. Nem se eliminam os sintomas nem se cura a doença. No imediato, é verdade que sai mais barato do que formar e pagar a um médico e pagar os instrumentos de diagnóstico e os medicamentos de tratamento, mas a longo prazo essa política só deixaria vivos aqueles cujo organismo é tão bom que resiste a tudo...quem é que poderá no futuro pagar os custos duma tal matança?

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publicado às 11:54

g.a


3-8-12




no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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