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rituais democráticos de liberdade precisam-se

por beatriz j a, em 21.07.10

 

 

 

O romance de Saramago, Ensaio Sobre a Lucidez...narra os acontecimentos que têm lugar numa capital de um país democrático não nomeado. Na manhã do dia das eleições cai uma chuva torrencial, regista-se um nível de votação baixo, mas à tarde, o tempo desanuvia e há uma corrida às urnas. O alívio do governo é, no entanto, de pouca dura, pois a contagem dos votos mostra mais de 70% de votos em branco. Incomodado por este lapso cívico, o governo dá aos cidadãos uma segunda oportunidade de votarem. Repete as eleições mas os resultados são ainda piores: 83%.

Os dois maiores partidos políticos entram em pânico. Tratar-se-á de uma conspiração para derrubar o sistema democrático? Se é, quem organizou os milhares de pessoas? Quando perguntam aos cidadãos porque votaram assim respodem que isso é do foro privado e que é um direito que têm esse de votar em branco.

O governo considera o movimento «terrorismo puro e duro», declara o estado de sítio, suspende as garantias constitucionais. Quinhentos cidadãos são escolhidos ao acaso e presos. Às famílias aconselha-se silêncio. Quando nada resulta o governo recorre, ele, ao terrorismo. Mas a população vai desarmando todas as ofensivas dando mostras de uma unidade inexplicável e de um alto nível realmente ghandiano de resistência não-violenta.

 

A mensagem do livro, segundo Žižek (onde fui buscar estes excertos que adaptei) não é tanto a indossulubilidade conjunta do povo e do governo como a natureza compulsiva dos rituais democráticos de liberdade. O que acontece é que, ao abster-se de votar, o povo efectivamente dissolve o governo. Porque é que o governo entra em pânico? Porque vê-se forçado a enfrentar o facto de só existir ele próprio, de só existir poder, na medida em que aqueles que lhe estão sujeitos o reconheçam.

 

A atitude dos votantes é um verdadeiro acto político na medida em que obriga a que nos confrontemos com o vazio das democracias actuais, recusando ser 'implicados' no processo.

 

(do livro Violência)

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publicado às 13:55

g.a


3-8-12



8 comentários

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De Anónimo a 24.07.2010 às 00:11

É verdade estamos neste ponto morto em nossa democracia! E, agora, qual é a saída? Claro, hão-de vir as eleições cíclicas para formar novo governo e se as coisas continuarem assim no ponto morto ou pior ..., o governo não é culpado, porque foram eles livremente eleitos pelo povo, logo, os eleitores são culpados e não há nada que barafustar!!!
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De beatriz j a a 25.07.2010 às 11:52

Se a democracia fosse uma coisa ao simples que se resumisse apenas ao voto, tudo era simples...
Eu não votei neste indivíduos, mas mesmo que tivesse votado, isso não me obrigaria a ficar calada diante do abuso de poder e outros crimes.
O governo não é uma empresa para quem trabalhamos depois de assinar contrato de confidencialidade - embora se comporte como tal.
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De Anónimo a 25.07.2010 às 21:54

Dizer que não votou neles é antidemocrático , pois, um verdadeiro democrático aceita o resultado das eleições, até porque se ganhasse lá o seu partido você não sabe que este partido resolveria os problemas económicos do país ou os agravaria, etc..Mas diz você que a democracia não se resume ao voto! Pois ao eleitor compete: votar, trabalhar, fazer manifestações dentro da legalidade, usar o direito da cidadania (..ingloriamente porque a justiça não funciona...livro azul!!!! hahahahaha ..)/ou você acha que o povo tem alguma outra solução, além de trabalhar e trabalhar se tiver emprego...Mas, sabe bem que a solução está toda nos governos, na sanidade das finanças, uso racional do dinheiro e dos bens públicos e numa boa economia..As escolas, a base da formação da mentalidade dos futuros políticos e dos funcionários públicos e privados, incluindo trabalhadores em geral, realmente podem fazer alguma coisa a longo prazo para termos uma boa qualidade de instituições públicas....
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De beatriz j a a 26.07.2010 às 06:43

Não vejo porque é que é antidemocrático dizer que não votei neles. É um facto e posso dizê-lo. Eu aceito o resultado das eleições, sim, mas não me resigno porque acho que foi um grande erro votarem neles. Depois,eu não tenho partido político. Vou votando no que, nas circunstâncias parece menos mau. Há muito tempo que o meu voto não é positivo.
A solução está nos governos quando os governos são constituídos por pessoas de consciência social e política, caso contrário tornam-se um empecilho à democracia, meros gestores da nossa vida, em proveito próprio, que é o que estes andam a fazer. Acho que o povo tem que vigiar estas coisas, não é votar e depois ir descansado à sua vida sem pensar mais no assunto.
Talvez outro partido não resolvesse as coisas mas pelo menos tirávamos de lá estes porque se ficam lá muito tempo vão ao cofre do banco de Portugal e até os lingotes levam de modo que quem vier a seguir nem país tem para governar.
Há pouco tempo li uma tese de mestrado dum amigo que tem os indicadores internacionais que avaliam se um estado está de boa saúde, se está em vias de se tornar um estado falhado ou se já o é. Fiquei assustada, porque pus-me a ver um a um esses indicadores e é claríssimo que estamos em vias de nos tornarmos um estado falhado.
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De Anónimo a 26.07.2010 às 08:39

...conclusão, tantas eleições com o uso da arma do povo, o tal papelinho onde se põe a cruz, é para dar tachos beneditinos, belenenses, autárquicos , regionais, etc... Coitado do povo, em qualquer parte do terceiro mundo, está sempre à espera do reino do Cristo ou de D. Sebastião e vai atrás das promessas dos oradores, formados nas escolas, sobretudo filosofia...Pois, qd o país estava a crescer quase 7%, apesar da imposição da guerra contra a política multirracial , luso tropicalismo , do Estado Novo, devido a estas circunstâncias fez-se a revolução...Nesta altura dizem k havia 600 toneladas de lingotes, a economia estava crescer bem, veja o gráfico de Medina Carreira, desde 1920 até à actualidade: hoje estamos rentes ao chão como em 1920 e com dívidas e só sobram umas 300 toneladas de ouro. Bem a revolução sofreu um mau desvio e formaram reinos, conforme a ideologia racista: reino dos brancos sujos, Minho-algarve , Açores e Madeira; e outros 7 reinos dos pretos e escuros,e, destes, 4 fizeram guerra generalizada pelos seus 4 países, desde 1975-2002..Em todos estes 8 reinos, de Minho ao Timor, há 8 paraísos terrestres, graças aos desvios do 25 de Abril 1974, formados pelos políticos, amigos deles, empresários de todo o mundo..e cada um destes 8 reinos tem tb 8 infernos onde a grande parte do povo foi metido....E AGORA VOCÊ quer fazer outra revolução? Na altura era possível, pq os governantes eram poucos e mandavam de Minho à Timor e não levaram riquezas com eles ou nas contas particulares. Agora só se vê governantes por todos os lados e perderiam estes tachos todos...E vocês ensinam aos pupilos: com o 25/4 acabamos a guerra e a emigração do povo, agora o país é próspero e rico, pois, fazem uma grande lavagem de cerebros e da história..em vez de ensinarem a verdade..com tudo isto chegamos a este estado da Nação de tanga!!!! Viva a arma do povo!
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De beatriz j a a 26.07.2010 às 14:07

Essa do povo ir atrás da Filosofia é para rir. Isso é que era bom! Eu não faço lavagens de cérebro a ninguém. Nas aulas de Filosofia chamamos a atenção para os problemas do homem (existenciais, políticos, éticos, epistemológicos, estéticos, religiosos, etc) e mostramos as propostas de solução dos filósofos, que são muitas vezes opostas entre si. Não orientamos os alunos a escolher uma em detrimento de outra. Discutimos as virtudes e erros de cada uma. Cada um (homem/mulher) que faça depois a sua escolha, mas ao fazê-lo não o fará às escuras, pensando não haver alternativas.
Em segundo lugar não defendo a revolução. Os livros são ficção que muitas vezes têm por objectivo apontar erros e fazer crítica. Apresentam cenários de modo que os leitores os comparem com a sua própria situação e tomem consciência dos problemas. Não são para levar à letra. A Utopia, o livro do Thomas Moore, descreve em pormenor uma sociedade perfeita. O autor não estava a defender que tal sociedade era possível, que ele não era idiota. Estava a chamar a atenção para o quão longe a sociedade inglesa de então estava de um arremedo de perfeição.
Quem pensa que o 25/4 iria resolver todos os problemas do país é porque não tem noção nenhuma de história. Nem a corrupção política ou a estupidez têm apelido português. São universais. Agora, que por uma série de factores se juntaram uma colecção de ignorantes, corruptos e deslumbrados que estão no poder há muito tempo já e a fazer grande mal, disso não há dúvida. E que a nossa democracia é escassa em mecanismos de controlo de corrupção, não há dúvida. E que a responsabilização por crimes de abuso de poder e de desvio de fundos públicos é praticamente inexistente, também não há dúvida. e que é preciso fazer alguma coisa para alterar isso, também não há dúvida.

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De Anónimo a 26.07.2010 às 15:33

Não quer fazer revolução ! Então, quer fazer o que? Deixar tudo como está? Escrever e reclamar do púlpito do blog? Assim, penso eu, não vai mudar nada! Que eu saiba as coisas só mudam com as revoluções!!!! Mas, não pense que estou a pensar nas revoluções barulhentas, de vinganças e perseguições, destruições, que normalmente duram apenas uns dias e depois passam a sofrer as consequências danosas, recuos económicos e algumas mudanças sob soluços. Pois, há 2 tipos de revoluções: 1) Revolução barulhenta, pôr tudo de pernas para o ar, atrás referida; 2) Revolução silenciosa, de dia-a-dia, que vai progressivamente retificando as mentalidades de modo a criar melhores instituições, homens, mulheres, disciplinados, cumpridores dos horários, respeitadores da liberdade do próximo, em suma, pessoas com amor ao próximo, interessados paera formar uma sociedade mais perfeita, menos egoista e materialista, sem o tal stress da vida e consumismo desenfreado!!!!!!!.Mas, esta só é possível, quando os agentes governamentais e os agentes de educação, etc. sejam pessoas mentalmente formadas para esse efeito!!!!
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De beatriz j a a 27.07.2010 às 08:10

As coisas também mudam com reformas, mas se chamamos revolução ao trabalho diário de mudança de mentalidades pela consciencialização dos problemas e formação das atitudes democráticas, então sou uma agente da revolução porque esse é o meu trabalho diário.

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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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