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Como acabar com este atraso de vida  DN

por PEDRO TADEU

 

A famosa reforma educativa de Maria de Lurdes Rodrigues, espremida, não significava mais do que arranjar maneira de reduzir as despesas do Estado com a educação pública. O resto, imaginativo, erudito e hipócrita, era um exercício de malabarismo para defender, ideológica, legal e pedagogicamente, a odisseia. Quantos governos PS ou PSD, anteriormente, tentaram o mesmo? Todos, com menos estardalhaço mas igual insucesso. Um atraso de vida, confirma-se.

(...)

Portugal é um atraso de vida? É. Como podia deixar de o ser? Bastava ensinar os estudantes a descodificar, a criticar e a valorizar as mensagens da comunicação social, dos jornais, da TV, da Web, da rádio e do que os poderosos - da política, do jornalismo, da economia, da cultura, do desporto - dizem através deles. Devia ser tão obrigatório como ensinar a compreender Luís de Camões ou Eça de Queirós. Com um povo que deixasse de ir em conversas demagógicas, que soubesse ler as entrelinhas do discurso de quem manda, este atraso de vida, por fim, terminava. Assim, prosseguimos, ignorantes mas serenos... e a votar nos mesmos.

 

Estou de acordo com o que ele diz no primeiro parágrafo, mas não no segundo.

Em primeiro lugar os alunos aprendem a saber descodificar as falácias argumentativas na disciplina de Filosofia, na Lógica não formal, no 11º ano. Em segundo lugar, a ideia de que aprendizagem das técnicas, neste caso da linguagem, pode e deve ser separada da aprendizagem dos conteúdos é um dos grandes erros que enformou todas as pseudo-reformas desde o Guterres. As duas coisas são inseparáveis. A aprendizagem do Camões, do Pessoa, do Padre António Vieira, do Eça, do Camilo e outros grandes autores portugueses não ensina apenas a enriquecer a linguagem pois que todos esses grandes autores foram também seres bem-pensantes, de modo que com eles se aprende a fazer e reconhecer uma crítica social, um falso argumento de autoridade, uma apreciação irónica, um pensamento sobre a vacuidade dos homens (o Camões está cheio), a ganância do poder (o Vieira está cheio), o provincianismo demagogo dos políticos portugueses (o Eça está cheio), as contradições da alma portuguesa (o Pessoa está cheio) e milhares de outros pensamentos críticos e analíticos que se encontram no contacto com os grandes autores.

Pensar que aprender a língua é algo desligado de aprender os que melhor a usaram é um erro de palmatória.

Ler os grandes autores, aprendê-los é, como dizia o Descartes, o mesmo que ter a possibilidade de conversar com as melhores mentes: não só treina o pensamento como a linguagem pois que esses foram os que melhor a usaram. Querer que na disciplina de Português se ensine apenas a saber ler uma notícia de jornal é pressupor que o autor da notícia é um exemplo maior do bom uso do pensamento e do bom uso da língua... quem diz uma notícia diz outra coisa do género...

Quem poderá seriamente achar razoável pensar que os alunos aprendem melhor a pensar e a falar/escrever/descodificar a língua com notícias de jornal e textos de programas da TV do que com os que de entre nós melhor pensaram e usaram a língua?

Finalmente, há por aí muita gente que aprendeu tudo o que havia a aprender sobre a língua a descodificação da língua e continuam a apoiar a Lurdes Rodrigues e o Sócrates - na verdade, a grande maioria da nossa elite política e empresarial, de modo que a explicação é outra...

 


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publicado às 15:10

g.a


3-8-12




no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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