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esquecer, não esquecer?

por beatriz j a, em 28.06.10

 

 

Por causa dum texto que li a propósito do artigo da Maria Lurdes Rodrigues no Expresso que a desculpava e até lhe desejava felicidades pus-me a pensar numa conversa com o André sobre os problemas inerentes à reconstrução de nações que passaram  por processos de extrema violência -genocídios- e pareceu-me que se pode fazer um paralelismo com a situação política do país.

Na reconstrução de um Estado que passou por processos internos de violência a questão que se põe é de saber se é melhor uma política de reconciliação, como foi feito na África do Sul, de modo a que não se prolongue a guerra civil, ou se se deve levar as pessoas à justiça dos tribunais.

Quando se opta pela reconciliação o que se faz é eleger uma 'Comissão de Verdade' que constrói uma narrativa dos factos passados que seja aceite por ambas as partes como 'A Verdade' histórica. Depois, vão todos à sua vida e esquecem o passado, por assim dizer.

Só que, em alguns casos, onde o 'mal radical' andou à solta, isso seria obsceno. Não podemos imaginar as vítimas de nazis a terem que se reconciliar com os seus carrascos. Ou dos Ruandeses, ou dos que agora no Congo dizimam as mulheres.

O problema é complicado, mas não fazer nada, isto é, nem reconciliar nem levar os culpados à justiça implica deixar toda a Nação em causa com uma mancha que afectará depois a todos, mesmo às vítimas. Veja-se o caso alemão onde ainda se alarga a acusação de 'nazis' ao povo como um todo.

 

Isto pode usar-se para pensar na política portuguesa (salvo as devidas distâncias, claro) do seguinte modo: é hoje evidente que o povo vê os políticos, as pessoas que têm poder, como inimigos, pessoas que conseguem elevar-se aos cargos com o único intuito de cuidar da sua vida particular, sendo que, para o fazer, esventram o povo e deixam-no refém de 'outsiders'.

Devemos, de cada vez que muda um governo, desejar felicidades aos anteriores  indistintamente, tanto aos que fizeram bem ou aos que erraram mas dentro dos limites da sua competência como aos que, com visível má-fé, recursos a mentiras e ilegalidades prejudicaram, às vezes até à morte, aqueles que com o seu trabalho sustentam o país? Devemos desejar felicidades à mª Lurdes Rodrigues, agora que já não está no governo? Ou ao Sócrates e ao Vara e outros daqui a um certo tempo? Pessoas que se usaram dos cargos com extremo prejuízo para os outros, umas vezes por ganância de dinheiro outras por sede de poder? Acho que não.

 

Penso que desvalorizar contribui, em primeiro lugar para pôr uma mancha em toda a classe política, o que me parece injusto, pois muito políticos, nomeadamente pouco conhecidos, que andam pelos gabinetes, tentam fazer o seu melhor, e também não ajuda à responsabilização que deveria existir, em casos de corrupção, favoritismo, etc. É preciso não esquecer que estes problemas não matam mas vão moendo, até ao fim - a Grécia está na falência total por causa dessas não responsabilizações. O povo deixou de acreditar nos políticos como um todo e começaram uma vivência de 'isto é cada um por si'; em segundo lugar acho que contribui para que essas pessoas, passados uns anos, voltem a ocupar cargos importantes e destilem os mesmos vícios de corrupção do passado. Aliás, a Mª Lurdes Rodrigues deve estar neste momento a dar cabo da Fundação para onde foi, porque é uma pessoa muito limitada e incompetente para trabalhos em que tenha de lidar com pessoas não-escravas. Provou-o vezes sem conta. Um dos problemas do nosso país não é o de os que estão no poder serem os mesmos de há 30 anos, a perpetuar os vícios de poder, corrupção e tráfico de influências?


Eu não desejo felicidades àMª Lurdes Rodrigues e revolta-me que tenha sido premiada - faz-me lembrar certos Comissários da antiga URSS que eram nomeados para dizimarem o povo e, se faziam o trabalho com brio, era promovidos. Só que o 'brio' era medido pela quantidade de mal que conseguissem fazer.

Valorizar a incompetência, o desrespeito pelos direitos dos outros, pela legalidade, pela dignidade no trabalho parece-me um precedente muito perigoso que abre a porta ao cepticismo alargado a toda a classe política e ao início duma vivência de 'isto é cada um por si'.

Não acredito em branquear e desvalorizar as consequências da corrupção, clientelismo e abuso de poder. Corroem as fundações de um Estado.

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publicado às 10:56

g.a


3-8-12




no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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