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Clubes de Cavalheiros

por beatriz j a, em 28.02.08

 

 

Li há bocado num jornal que os líderes muçulmanos guineenses estão revoltados pela mera possibilidade de o parlamento local aprovar uma lei que impeça, doravante, a mutilação das mulheres. Consideram uma grande afronta ao Islão sagrado não poder continuar a mutilar mulheres. No ano passado, só em Bissau, foram mutiladas mais de quatro mil raparigas para agradar à religião muçulmana.

Isto diz muito sobre a religião. Metade do planeta anda em guerra, milhões de crianças morrem à fome, outras raptadas e vendidas como escravas; o planeta em risco por causa da degradação ambiental que mata e deixa na pobreza milhões por esse mundo fora. Por todo o lado a exploração do homem pelo homem. E, a crer nos líderes muçulmanos, Deus está preocupado é com o facto de os homens não poderem continuar a ordenar a mutilação das mulheres.

Que uma religião possa ter como ideal a mutilação de outros seres humanos mostra bem que o objectivo de muitas religiões não é a salvação da alma, não é a prática do bem, não é a difusão da paz e da tolerância mas apenas e somente a ganância do poder sobre os seus semelhantes; neste caso o gáudio de condenar mulheres à submissão por via da mutilação.

É claro que todos estes senhores assinaram ou assinariam a declaração universal dos direitos do Homem. Mas levam a coisa tão à letra que excluem as mulheres da humanidade.

As religiões, em geral, parecem não ser mais que clubes de cavalheiros onde as mulheres são bem-vindas apenas para tratar daqueles assuntos como arranjar as flores e fazer bolos para as festas.

Quem são estas pessoas que se dão a si próprias o poder de decidir que alguém pode ser  mutilado? E como é que os governos as ouvem? Porque é que não são procuradas pela justiça mundial com mandado de captura? O que é que as leva a pensar que estão à parte dos seres humanos de tal modo que não precisam de se comportar como seres humanos? Desde quando é que ser carrasco é bom para o mundo, para a paz ou para outra coisa qualquer?

Porque é que as mulheres todas não abandonam, pura e simplesmente, uma religião que ignora os seus interesses, os seus anseios, os seus direitos, e que tem como objectivo «sagrado» mutilá-las?

Se existe mesmo um Deus, espero que toda esta horda de carrascos mutiladores e hipócritas venha a ter o castigo que merece.

 

 
(publicado originalmente no Libertismo)

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publicado às 19:54


A Ascenção da Insignificância

por beatriz j a, em 25.02.08

 

 

Hoje, depois de ouvir alguns discursos políticos num dos telejornais dei comigo a reler A Ascensão Da Insignificância do Castoriadis. E foi a reler essa entrevista, de 1993, que percebi o que me tem andado a incomodar.
Castoriadis fala da decadência da civilização e pergunta se será possível esta sociedade continuar a funcionar e reproduzir-se, “quando em todas as sociedades ocidentais se proclama abertamente (e em França, cabe aos socialistas a glória de o terem feito de um modo que a direita nunca tinha ousado fazer) que o único valor é o lucro e que o ideal de vida social é o enriquecimento."

Se assim fosse – diz ele – os funcionários deviam aceitar e pedir umas cunhas para efectuarem o seu trabalho, os juízes deviam leiloar as decisões dos tribunais, os educadores fornecer boas notas às crianças cujos pais lhes oferecessem um cheque à socapa e assim por diante.  Em sua opinião só o medo da sanção penal os impede de assim proceder.
Castoriadis diz nesta entrevista que nunca como hoje foi tão urgente reinventar a sociedade, imaginar um outro sentido para a sua existência. E acaba este parágrafo com as seguintes palavras: “ O que podemos dizer é que todos aqueles que têm consciência do carácter terrivelmente grave do que está em jogo devem tentar falar, devem criticar esta corrida para o abismo, devem procurar despertar a consciência dos seus concidadãos”.

Ora, foi justamente aqui no fim do parágrafo que me apercebi do que tem andado a incomodar-me.
Não é a constatação de que vivemos uma daquelas épocas históricas em que os insignificantes saltaram para dentro da carroça, tomaram conta das rédeas e conduzem-na agora pela ribanceira abaixo em direcção ao desastre: isso é evidente de há uns anos a esta parte; não é a constatação do modo como imprimiram uma dinâmica de mediocridade a toda a sociedade, parecendo ter o condão de trazer ao de cima, apenas e somente o que de pior há nas pessoas; não, não é isso.

É a constatação da complacência com que a nossa (pseudo) intelectualidade assistiu, e em alguns casos aplaudiu até, o trabalho de perversão e destruição do sistema judicial, do sistema educativo público e do sistema de saúde pública. É isso o que me choca! Comentadores, opositores, meios de comunicação, gente que ocupa cargos de influência política, nas universidades, nas empresas públicas, nos jornais e nas televisões a louvarem o trabalho de sistemática decomposição da sociedade que tem sido a obra de, pelo menos, há uns dez anos para cá.
Das duas, uma: ou não tinham e não têm a consciência de que fala Castoriadis (como é possível?); ou, se a tinham, porque não falaram? Se calhar não tinham mesmo.
Temos agora um sistema judicial em quem ninguém acredita por conta da impunidade que por aí grassa; um sistema educativo onde proliferam os colégios privados para os bolsos só de alguns, depois de se ter destruído o ensino público (esse trabalhinho, aliás, ainda não está completamente acabado – mas está quase), e um sistema de saúde na ruína, que se orgulha de ter os bebés a nascer no meio da estrada. Também aí proliferam os hospitais privados - para quem pode. A banca enriquece, os ricos ficam mais ricos e os pobres mais pobres. No Natal diz-se ao povo que a culpa da crise reside no apetite dos portugueses que gastam dinheiro a comer demais!

A Hanna Arendt dizia que os povos têm os governantes que merecem.
Pelos vistos têm também os intelectuais que merecem.

 

(publicado originalmente no Libertismo)

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publicado às 18:38


Setúbal

por beatriz j a, em 24.02.08
Setúbal

 

Daqui da janela do meu escritório vejo os telhados de Setúbal espraiarem-se até ao rio; vejo a barra, a ponta de Tróia, a serra da Arrábida e o castelo. Hoje, na claridade do fim de dia há uma tonalidade de prata por todo o lado – são camadas de tonalidades de cinzento que começam nas nuvens grossas e densas  e acabam no tom de prata do rio e do mar. Que belo!

Há uma harmonia calma no modo como a natureza se conjugou aqui tão felizmente.

Vejo daqui os ferrys e os pequenos barcos e veleiros que cruzam o rio; vejo os grandes navios no horizonte e os petroleiros e cargueiros que entram em direcção ao porto.

Ponho-me aqui a olhar, só pelo prazer de olhar,  para esta paisagem deslumbrante.

E, quando fico aqui sentada à secretária a trabalhar muitas horas de seguida  vou acompanhando o evoluir da natureza: a mudança da maré, os movimentos na água, a formação e deslocação das nuvens, a alteração das cores deste rio e desta serra e deste céu que desde há  séculos acompanham, por sua vez, o evoluir das gentes que por aqui passam.

Também vejo daqui o cemitério, com os altos ciprestes que se vergam com o vento; parecem gigantes mal equilibrados que se debruçam para conversar com os habitantes que guardam no seu domínio.

Pergunto a mim mesma, quando eu jazer no campo que lhes pertence, quem estará aqui sentada no meu lugar a olhá-los como os olhei… e o que pensará?

 

 

(publicado originalmente no Libertismo)

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publicado às 18:29

g.a


3-8-12



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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